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Mundo

Fim histórico da proibição de dirigir de mulheres não acaba com discriminações na Arábia Saudita

media Saudita comemora triunfante direito de dirigir de mulheres, a partir deste domingo (24) na Arábia Saudita. ® REUTERS/Hamad I Mohammed

Dia histórico neste domingo (24) na Arábia Saudita com o fim da interdição de mulheres dirigir. A mudança espetacular no país muçulmano ultraconservador, decidida pelo modernizador príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, acontece após uma campanha de repressão contra militantes sauditas de direitos das mulheres.

Assim que o relógio marcou meia-noite, centenas sauditas que já tinham carteira de motorista saíram em seus carros pelas ruas de Riad e outras cidades do país para comemorar. Buzinando muito, com o som alto, e acenando para todo mundo, elas festejaram essa nova sensação de liberdade. As mulheres também estão autorizadas, a partir deste domingo, a dirigir motos.

A medida foi anunciada em setembro de 2017 pelo príncipe herdeiro Mohammad bin Salman e integra um amplo plano de modernização do reino. Ao entrar em vigor, ela põe fim a uma proibição que simbolizava o atraso da Arábia Saudita, que era o único país no mundo que proibia as mulheres de dirigir, mas não acaba com as discriminações.

"As mulheres vivem num sistema patriarcal na Arábia Saudita. Então este é um passo importante e uma etapa essencial para a mobilidade das mulheres", resumiu Hana al Jamri, autora de um livro que será publicado em breve sobre as mulheres no jornalismo na Arábia Saudita. A medida permitirá reduzir a dependência feminina de motoristas privados ou dos homens da família.

Limites da abertura modernizadora

Recentemente, uma série de detenções de ativistas pelos direitos das mulheres mostrou os limites dessa abertura modernizadora no reino saudita. Desde o mês de maio, cerca de vinte pessoas, homens e mulheres, foram presas. O crime desses ativistas? Ter assinado petições ou reivindicado publicamente mais direitos para as mulheres, como a modificação do sistema de tutela que coloca as sauditas sob a autoridade de um homem, seja ele, pai, marido, irmão ou filho.

Alguns desses ativistas foram soltos, mas vários deles, considerados traidores ou “agentes de embaixadas” estrangeiras, continuam detidos, segundo informações da agência saudita SPA. A ONG Human Rights Watch denuncia que duas sauditas foram presas nos últimos dias por terem protestado contra as detenções dos ativistas.

“A mensagem é clara. Não pensem que vocês poderão se organizar ou liberalizar o direito associativo que é ainda muito controlado na Arábia Saudita”, avalia a pesquisadora Claire Baugrand, especialista em países do Golfo da Universidade britânica de Exeter, em entrevista à RFI. “Essa é a maneira do governo do príncipe herdeiro, conhecido pelas iniciais MBS, de reformar o país, mostrando sua autoridade”, diz a pesquisadora.

Medida pode favorecer economia

Do ponto de vista econômico, o fim da proibição poderá estimular o emprego entre as mulheres. Segundo uma estimativa da Bloomberg, a medida poderia somar 90 bilhões de dólares para a economia até 2030.

Durante décadas, os conservadores sauditas se apoiaram em interpretações rígidas do islã para justificar a proibição de dirigir, alguns alegando inclusive que as mulheres não eram inteligentes o suficiente para se colocarem atrás do volante. Muitas mulheres temem continuar sendo alvo dos conservadores do reino.

As sauditas podem agora dirigir, mas devem sair com véu e continuam sujeitas a restrições importantes: não podem viajar, estudar ou trabalhar sem autorização de seus maridos ou dos homens da sua família. Riad adotou recentemente medidas contra os abusos, punindo o assédio sexual com cinco anos de prisão e uma multa equivalente a € 69.000.

Sob o impulso do príncipe Mohammed, que se tornou herdeiro do trono há um ano, o país também autorizou a abertura de cinemas e shows mistos, sinalizando sua intenção de adotar um "Islã mais moderado" no país.

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