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França

22 de Março: contagem regressiva para os 50 anos do movimento de Maio de 68

media Daniel Cohn-Bendit (centro) canta o hino socialista "A International", em 6 de maio de 1968 em Paris, cercado pelos policiais e outros estudantes protestantes, antes de ir ao Comitê Disciplinar da Universidade de Paris Sorbonne. ARCHIVES / AFP

Em 22 de março de 1968, uma sexta-feira, estudantes da Universidade de Nanterre, na região parisiense, ocupam o 8° andar do prédio da reitoria para protestar contra a prisão de ativistas do comitê CVN, um grupo formado por intelectuais como Jean-Paul Sartre, que havia saqueado, dois dias antes, uma agência da American Express em Paris em repúdio à intervenção americana no Vietnã. Dois militantes detidos eram estudantes de Nanterre. Essa ocupação deu origem ao Movimento Estudantil de 22 de Março, um marco na contagem regressiva para o incendiário Maio de 68.

À frente dos estudantes de Nanterre, a França conheceu o carismático Daniel Cohn-Bendit, estudante de Sociologia, 23 anos na época, filho de um casal de advogados judeus alemães, trotskistas e antinazistas, refugiados na França. Apelidado de "Dany, le Rouge" (Dany, o Vermelho, em português), ainda hoje ele sublinha que seu nome de guerra nada tinha a ver com o fato dele liderar um movimento de inspiração libertária e antiautoritário, um balaio heteróclito de estudantes comunistas, trotskistas, anarquistas, situacionistas, maoístas, cristãos de esquerda e os chamados "sem etiqueta". O "rouge" de Cohn-Bendit veio de seus cabelos ruivos, uma oportuna coincidência com a cor símbolo do socialismo e comunismo revolucionários.

Daniel Cohn-Bendit (ao microfone) fala durante coletiva na Universidade de Nanterre em 10 de maio de 1968. AFP

Naquele início de primavera, "Dany, le Rouge" e outros 142 estudantes ocuparam a reitoria de Nanterre para exigir a libertação dos ativistas e questionar as regras ultraconservadoras da universidade.

"Babyboomers" politizados

Em 1968, os jovens representam um terço da população francesa em consequência do "babyboom", a explosão de nascimentos do pós-guerra. A democratização do ensino foi benéfica, mas também provocou um fenômeno de lotação nas universidades. Os anfiteatros eram apertados para acolher uma geração de jovens politizados, marcados pelo fascismo e pelas sequelas da Guerra da Argélia (1954-1962), que rompeu com 132 anos de domínio colonial francês no país africano. Em 1954, a França contava com 154 mil estudantes; em 1968, eles eram 500 mil.

O campus de Nanterre foi inaugurado em 1964 para fazer face a esse crescimento de alunos, mas logo saturou. As faculdades de Letras, Ciências Humanas, Sociologia, Psicologia, Direito e Economia, as duas últimas inauguradas em 1968, atraíam cabeças engajadas. Os estudantes discutiam política e observavam fascinados o que acontecia ao redor do mundo. De longe, eles admiravam Che Guevara e sua peregrinação revolucionária pelo Congo e a Bolívia. Refletiam sobre o movimento dos estudantes de Berkeley, na Califórnia, que enfrentaram a censura para contestar a Guerra do Vietnã. Na Alemanha, a tentativa de assassinato, em abril, do líder estudantil socialista Rudi Dutschke por um simpatizante de extrema-direita revolta os estudantes.

A crise dos dormitórios

Num primeiro momento, os estudantes de Nanterre protestaram contra problemas que enfrentavam no cotidiano, como classes superlotadas, falta de espaço para debates e a gestão autoritária da administração, da qual eram excluídos. Um problema tornou-se, contudo, insuportável e explosivo: os rapazes eram proibidos de frequentar os dormitórios reservados às mulheres, enquanto as estudantes podiam "visitar" os colegas. Os universitários queriam dormitórios mistos.

Seria redutor, no entanto, pensar que Maio de 68 nasceu da sede dos jovens por liberdade sexual. No final da década de 1960, a sociedade francesa é atravessada por uma torrente de insatisfações.

Crise social

O presidente Charles de Gaulle governa, mas seu autoritarismo levanta inúmeras críticas. Desde 1967, os trabalhadores da indústria organizam uma série de greves para exigir uma transformação do sistema econômico. É o início do declínio dos Trinta Gloriosos, o período de grande prosperidade do pós-guerra que impôs aos franceses um ritmo intenso de trabalho, em troca do acesso à sociedade de consumo.

No dia 29 de maio de 1968, em Paris, jornalistas e trabalhadores da imprensa desfilam durante a greve geral. © AFP/JACQUES MARIE

Alguns setores da economia registram pleno emprego, mas outros, como siderurgia, minério, têxteis e construção naval, apresentam dificuldades. O mercado de trabalho não consegue mais absorver as levas migratórias de trabalhadores estrangeiros que vieram reconstruir o país depois da Segunda Guerra Mundial. Aparecem favelas nas periferias dos centros urbanos, inclusive em Nanterre, causando revolta nos estudantes. Os moradores dessas habitações precárias são na maioria imigrantes desempregados.

À esquerda, o então primeiro-ministro Georges Pompidou, com o ministro do Trabalho, Jacques Chirac (centro), e o secretário-geral da CGT, Georges Seguy, m maio de 1968 em Paris. AFP

Nas fábricas, os operários, em sua maioria jovens, começam a questionar o trabalho repetitivo na linha de montagem e os turnos desgastantes de mais de 50 horas semanais. Eles querem aumento de salários, uma reorganização do trabalho e, principalmente, outro futuro.

Insurreição contra a autoridade masculina

As mulheres e a juventude sufocavam numa cultura de submissão à autoridade masculina representada pela figura do pai, depois do marido, do patrão e do "grande" general De Gaulle, "o pai da nação". É certo que De Gaulle liderou a resistência e livrou a França da ocupação nazista, mas ele encarnava, com seus valores, o modelo da família burguesa castradora.

Assim como os homens, as francesas "babyboomers" querem liberdade de expressão e de ação. Ao lado dos universitários, elas reivindicam o direito de assumir suas próprias decisões. Chega dessa imagem de esposas obedientes, donas de casa ou trabalhadoras subjugadas pelos patrões. O governo contava com as mulheres para reerguer a economia, mas, nos escritórios e repartições, elas tinham de pedir licença aos superiores homens para se levantar e ir ao banheiro.

As mulheres jovens desfilaram em 1 de maio de 1968 durante o Dia do Trabalho organizado pela CGT e o Partido Comunista em Paris. JACQUES MARIE / AFP

O redator-chefe adjunto do jornal Le Monde na época, Pierre Viansson Ponté, escreveu que os jovens tinham sede de outra vida, mais do que de uma sociedade no senso estrito. Havia o desejo de abrir espaço à fantasia, à festa, ao sonho. A juventude francesa sofria de tédio diante da perspectiva de uma vida rígida e programada, explicou Ponté.

É nesse ambiente patriarcal, misógino e opressor que emerge a energia criativa e enfurecida dos líderes estudantis de Nanterre. Para combater o autoritarismo dominante, Daniel Cohn-Bendit, fundador do Movimento de 22 de Março, e seus colegas Alain Geismar, secretário do Sindicato Nacional do Ensino Superior, e Jacques Sauvageot, vice-presidente da União dos Estudantes Franceses (Unef), enlouquecem os professores, invadindo os anfiteatros e salas de aula com suas reivindicações. O grupo prega a ação direta.

Barricadas no Quartier Latin

No início de maio, a reitoria decide expulsar os estudantes do local à força, enviando tropas de choque, e fecha o campus de Nanterre. Convocados para um Conselho de Disciplina no dia 6 de maio, Cohn-Bendit e sua turma seguem para Paris no dia 3 e ganham o apoio dos estudantes da Sorbonne. Eles decidem ocupar a faculdade do Quartier Latin. Mas a polícia intervém, evacua 500 estudantes e prende outros tantos.

Cena do documentário "É só o começo" sobre as barricadas no dia 10 de maio de 1968. © Michel Andrieu / France / 1968

O que as autoridades francesas não antecipam, naquele momento, é que tinham jogado lenha na fogueira. A contestação se amplia, os estudantes tomam as ruas de Paris, constroem barricadas incendiárias e enfrentam a polícia com paralelepípedos durante três semanas. As forças de segurança revidam com golpes de matraca e bombas de gás lacrimogênio. As imagens de Paris transformada num campo de batalha correm o mundo.

Slogans criativos

Os slogans festivos de Maio de 68 invadem as ruas em cartazes e grafites. Um dos mais icônicos foi encampado pelo movimento Tropicalista no Brasil – "É proibido proibir". Mas os franceses também se lembram de "Tome seus desejos por realidades", "Goze sem entraves", "Não perca sua vida ganhando-a", "Corre camarada, o Velho Mundo está atrás de você", "Para manter os baixos salários, o capitalismo precisa do desemprego", "Vamos quebrar as velhas engrenagens" ou "Abaixo a sociedade de consumo". A irreverência dos jovens e sua determinação sacodem a sociedade burguesa da época.

O movimento estudantil é amplificado por uma decisão dos sindicatos de trabalhadores que convocam para 13 de maio uma megamanifestação, a maior desde a Liberação de Paris, e uma greve geral por tempo ilimitado. No dia 24 de maio, a França tem 10 milhões de grevistas. O país fica paralisado.

O slogan "É proibido proibir" sintetiza o espírito de Maio de 68 na França. Creative Commons

O governo De Gaulle, que não havia se dado conta da sede de mudança, retoma o controle da situação propondo um acordo aos sindicatos. No dia 30 de maio, o presidente faz um discurso à nação, conciso e determinante. Ele anuncia a dissolução da Assembleia Nacional e convoca eleições. Exasperados por um mês de distúrbios, um milhão de franceses se reúnem na avenida Champs Elysées para mostrar a De Gaulle que ele não está só.

As eleições legislativas de junho confirmam o triunfo da direita, que conquista 358 cadeiras no Parlamento. A oposição de esquerda elege apenas 127 deputados e sai das urnas enfraquecida pelas fortes divisões entre correntes mais e menos radicais. O movimento estudantil perde o fôlego.

Revolta ou revolução ?

No 50° aniversário dessa primavera de ruptura, livros recém-lançados propõem releituras dos acontecimentos. O meio acadêmico, hoje, tende para um consenso de que Maio de 68 não deve ser catalogado como uma revolução. Foi um movimento intenso, que deixou uma herança de conquistas sociais e de modernização da sociedade, além de ter dado um tremendo impulso ao feminismo na década seguinte, mas não deixou um legado político.

O sociólogo Jean-Pierre Le Goff, autor de duas obras consagradas sobre o período – "Maio de 68, a herança impossível" e "Mal-estar da democracia" – , está lançando "A França de Ontem" (La France d’Hier, editora Stock). No livro, ele reconstitui sua vida para mostrar como era o mundo em maio de 1968. Na visão de Le Goff, "é preciso acabar com a lenda de que houve um encontro entre estudantes e trabalhadores". O que havia, e emergiu espontaneamente nas ruas, foi uma identificação entre a juventude universitária intelectualizada e os jovens operários das fábricas. Eles compartilhavam o mesmo sentimento de desvalorização, destaca Le Goff. "Os jovens daquela época estavam em plena transição entre o velho mundo tradicionalista e a sociedade de consumo; abriu-se um fosso entre as gerações."

Em "A Outra Herança de Maio de 68 – A face escondida da revolução sexual" ("L’Autre Héritage de Mai 68 – La face cachée de la révolution sexuelle", editora Albin Michel), a historiadora Malka Marcovich joga luz sobre os efeitos perversos da libertação sexual. Ela observa que a subversão da época desviou de caminho, a ponto de legitimar a violência contra menores. "Milhares de crianças foram submetidas ao exibicionismo contínuo da sexualidade de adultos", diz a autora, que reúne em seu livro depoimentos que explicam em parte a banalização da pedofilia nos anos 1980.

Os gemidos de Jane Birkin no dueto com Serge Gainsbourg na canção "Je t’aime… moi non plus", gravada em fevereiro de 1969, foram uma sequência da História.

 
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