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"Trump tem uma intuição que os outros não têm", diz professor de universidade americana

Eduardo Neiva, professor de Comunicação da Universidade do Alabama, em Birmingham, Estados Unidos. Arquivo pessoal

A RFI conversou com o professor de Comunicação da Universidade do Alabama Eduardo Neiva sobre o cenário atual da política americana e as opções escolhidas pelo presidente Donald Trump em matéria de discurso político.

Qual é a sua primeira análise sobre o resultado das eleições de meio de mandato nos EUA?

O país está rachado, dividido. Os jornais esperavam que houvesse um repúdio a Trump, porque as eleições de meio de mandato são eleições quase que plebiscitárias. Na verdade, não foi uma rejeição, mas uma espécie de firewall, de advertência dizendo “daqui não passa”. Trump fez um governo, até agora, divisivo. Ele tinha uma vantagem imensa sobre os democratas. Primeiro, pela estrutura da democracia americana, que detesta povo, ou seja, ela tem um mecanismo de controlar a vontade popular. Então você tem um voto distrital que cria distorções incríveis. Um voto em Wyoming, por exemplo, vale dois na Califórnia por causa do colégio eleitoral. Os democratas tinham uma desvantagem imensa. Por isso, a vitória deles no Congresso não pode ser diminuída. Mas também foi uma coisa estranha, porque o Trump tinha nas mãos várias coisas. Uma delas é a economia, que está muito bem. Bolsa subindo, dinheiro correndo, e baixíssimo desemprego.

O fato de, na reta final, ele ter usado só o argumento da imigração, pode não ter rendido a quantidade de votos que ele imaginava?

Mas era coerente. O grupo republicano tem um discurso que é falar do passado, com “vamos fazer a América grande de novo”, trazendo de volta a grandeza da América, que é baseada na raça branca, inglesa, escocesa, irlandesa, e os negros nos seus devidos lugares. Agora, a imigração entra para reforçar essa ideia, de que a grandeza americana foi perdida. O que é um delírio, porque é uma ideia mítica, completamente ilusória, que não é verdadeira. Enquanto isso, os democratas foram relativamente espertos, porque evitaram essa discussão, que daria a Trump uma espécie de controle do assunto, que é o que ele faz bem, com o controle do tema da eleição. O que aconteceu foi que eles [os democratas] fizeram uma campanha baseada em questões do interesse individual das pessoas. Serviço médico generalizado, o “Obama Care”. Fizeram uma campanha completamente diferente uma da outra.

Falando da comunicação. O que a gente vê é um discurso excessivo de Trump e muito simplista. Você acha que é um discurso não ideológico, porque um dia ele diz uma coisa e no outro fala outra?

Ele tem uma intuição que os outros não têm. Trump transforma tudo o que ele faz em notícia. Por isso ele está sempre na frente de todo mundo, dizendo os maiores absurdos. Mas desde quando dizer absurdos não elege as pessoas? Note o seguinte: o que Trump faz é controlar a agenda. Ele controla criando fatos e a mídia vai atrás. Esperava-se que essa fosse ser uma eleição sobre ele. Eu acho que não foi.

Qual seria a pauta que os democratas poderiam levar adiante sem acabar dando mais munição para a reeleição de Trump em 2020?

Essa é uma coisa muito difícil de dizer. Eu acho que se Trump continuar controlando a agenda e se ele deixar de ser egocêntrico, que é a mesma coisa que dizer que vai nevar no Piauí, você vai ter a seguinte situação: ele vai controlar a agenda e continuar no centro de tudo. Os democratas estão sempre a reboque. Se você olhar a lógica comunicacional das eleições, é sempre assim. Alguém põe a agenda e a mídia fica respondendo a essa pessoa. No Brasil aconteceu isso agora. “Ele não”, então ele continua. É preciso ter uma proposta positiva, que é o que eu acho que os democratas tiveram nessa votação, por isso eles venceram. Não se deve desprezar a vitória na Câmara, porque é uma vitória grande que dá a possibilidade de investigar Trump em detalhe. A partir daí, veremos o que vai acontecer, porque parece, pelo que o Times diz [New York Times, o jornal] e pelo que eu leio, que Trump tem muito rabo preso, então vão aparecer coisas. Mas acontece que as pessoas são cínicas, elas acham o seguinte: “Ah, não, mas é isso mesmo, política é assim. Os caras são todos corruptos, por que não mais um?”. Eu acho que aqui, a situação é essa. Ele vai continuar. Agora, tem muitos interesses em jogo. O objetivo republicano é ser eleito. Eles bajulam Trump na esperança de que sobre alguma migalha da mesa de Trump para eles. Então eu acho que isso será a lógica do que vai acontecer. Mas é difícil prever. Eu não entendi, porque quando eu vi os resultados da economia, pensei que ele ia focar neste ponto, porque é o grande sucesso que ele tem na mão. Mas não é o que ele fez, ele escolheu a imigração porque ele sabe, ele está pregando para o coro da igreja dele, que já sabe o que ele é, que o conhece e apoia.


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