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Brasil participa da COP 23 com dupla personalidade, critica Greenpeace

Brasil participa da COP 23 com dupla personalidade, critica Greenpeace
 
Boneco do presidente americano, Donald Trump, pronto para ser engolido por ursos polares nos corredores da COP 23, em Bonn, na Alemanha. REUTERS/Wolfgang Rattay

A 23ª Conferência do Clima da ONU (COP 23), realizada atualmente em Bonn, na Alemanha, tem sido marcada pela divulgação de dados alarmantes sobre o aumento das emissões de gases do efeito estufa e também do desmatamento, inclusive no Brasil. O encontro discute formas de aplicação do Acordo de Paris, firmado em 2015, com o objetivo de limitar o aquecimento global.

Márcio Astrini, coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil, participa dos debates da COP 23 na Alemanha. Segundo ele, dois anúncios feitos no início da conferência colocaram os negociadores sob pressão para alcançar avanços até o final do encontro, no dia 17. O primeiro deles diz respeito à concentração de poluentes na atmosfera, que atingiu o grau mais elevado em mais de 800 mil anos. A segunda notícia ruim, de acordo com Astrini, foi que mesmo colocando em prática todas as propostas apresentadas no Acordo de Paris, os cerca de 195 países que assinaram o pacto global não conseguiriam manter a temperatura abaixo dos 2°C.

Na avaliação do Greenpeace Brasil, o governo brasileiro chegou à conferência com uma espécie de dupla personalidade. "Os negociadores brasileiros são muito habilidosos nas negociações", opina o coordenador de Políticas Públicas da ONG. "Eles têm muita influência na construção dos acordos, mas o governo e o Congresso aprovaram ultimamente uma série de projetos que beneficiam o crime florestal e o desmatamento", destaca. As emissões de carbono do Brasil em 2016 foram as maiores já registradas desde 2008.

Astrini chama a atenção aos efeitos nocivos de dois projetos brasileiros na área de energia. "O país prevê investir, nos próximos dez anos, 70% dos recursos da área de energia na produção de combustíveis poluentes", afirma. Outra incoerência é o recente projeto de lei encaminhado pelo governo ao Congresso que dá benefícios fiscais de R$ 1 trilhão para as companhias envolvidas na extração de petróleo, atividade que aumenta a emissão de gases na atmosfera. "Fazemos dentro de casa tudo o que não precisamos fazer na luta contra as mudanças climáticas", conclui o representante do Greenpeace.

Em uma palestra para ambientalistas na terça-feira (14), em Bonn, o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, declarou ser contra os subsídios para o petróleo. Ele classificou de "inaceitável" o projeto de medida provisória enviado pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ao Congresso. Apesar de Sarney Filho ter ficado "perplexo" com a iniciativa, para o Greenpeace, o governo brasileiro está na contramão das políticas climáticas negociadas entre os países nesse momento.

Emissões de gases estão em alta

As emissões de carbono ligadas à indústria e à combustão de energias fósseis devem aumentar 2% este ano, na comparação com 2016 (entre 0,8% e 2,9%), e alcançar o recorde de 36,8 bilhões de toneladas, depois de uma estabilidade entre 2014 e 2016, destaca o Global Carbon Project em seu 12º balanço anual, realizado por cientistas de todo mundo. Com a estimativa de 41 bilhões de toneladas de CO2 emitidas em 2017 - acrescentando o desmatamento -, pode faltar tempo suficiente para manter a temperatura da Terra abaixo dos 2°C, meta estabelecida pelo Acordo de Paris.

Vários fatores mostram uma tendência de alta das emissões mundiais em 2018. Por isso, é urgente que os governos coloquem em prática os compromissos nacionais de redução de poluentes anunciados em 2015 na capital francesa. Até o momento, 168 países ratificaram o Acordo de Paris.

Americanos reafirmam compromisso e isolam Trump

Neste primeiro encontro internacional após o anúncio de saída dos Estados Unidos do acordo, a boa notícia é que vários diretores de grandes empresas americanas, governadores e prefeitos reafirmaram em Bonn que irão cumprir os compromissos assumidos. "Isso é um sinal muito importante porque isola as declarações do presidente americano, Donald Trump, além de incentivar outros países a terem mais ambição", diz Astrini.

Para Erik Solheim, diretor do Programa da ONU para o Meio Ambiente, "o tempo é cada vez mais curto". "Os números não mentem. Nossas emissões continuam muito elevadas e precisamos alterar a tendência [...] Já contamos com muitas soluções para enfrentar este desafio. Falta apenas a vontade política", afirmou.

Os dez maiores poluidores do planeta são, pela ordem, China, Estados Unidos, Índia, Rússia, Japão, Alemanha, Irã, Arábia Saudita, Coreia do Sul e Canadá. Se considerada em seu conjunto, a União Europeia ocupa a 3ª posição na lista. Na terça-feira (14), a Síria se uniu formalmente ao Acordo de Paris contra as Mudanças Climáticas. Dessa forma, os Estados Unidos são o único país a ficar de fora do tratado.


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