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Itália quer impedir empréstimo de obras de Da Vinci para museu do Louvre

Itália quer impedir empréstimo de obras de Da Vinci para museu do Louvre
 
O quadro "Adoração dos Magos" representando o presépio do mestre renascentista italiano Leonardo da Vinci, durante sua restauração em Fortezza da Basso, Florença, 23/09/14. ANDREAS SOLARO / AFP

A Itália quer renegociar o empréstimo das obras de Leonardo da Vinci para o Museu do Louvre em Paris. O empréstimo faz parte de um acordo do ex-governo italiano com a França para a comemoração dos 500 anos da morte do genial artista renascentista.

Gina Marques, correspondente da RFI na Itália

Em 2017, a Itália assinou um acordo com o museu parisiense, que de outubro de 2019 até fevereiro de 2020 organizará uma exposição para celebrar o quinto centenário da morte de Leonardo da Vinci. Apenas 15 pinturas do pintor sobreviveram e cinco delas estão no Museu do Louvre. Se houver ruptura do acordo com o governo italiano, a organização exposição é uma incógnita.

Para esta iniciativa, o Louvre solicitou todas as pinturas de propriedade do Estado italiano e os principais desenhos de Da Vinci das coleções públicas italianas. A única exceção é o quadro da Adoração dos Magos, que se encontra na galeria do museu Uffizi, em Florença, e não pode ser removido. O acordo prevê também que a França empreste obras do artista Rafael para uma exposição na Itália em 2020.

O acordo foi assinado pelo ex-ministro da Cultura Dario Franceschini, do então do governo de centro-esquerda, mas agora, o atual governo formado pela coalizão entre o Movimento 5 Estrelas, antissistema, e a Liga, partido de extrema direita ultranacionalista, quer rompê-lo para renegociar o empréstimo das obras ao Museu do Louvre.

As obras que deveriam ser emprestadas da Itália ao Museu do Louvre são: o Homem Vitruviano e os desenhos da Batalha de Anghiari, ambos da Galeria da Academia de Veneza, La Scapigliata, conhecida também como a Cabeça de Mulher, que está na Galeria Nacional de Parma, O Músico, exposto na Biblioteca Ambrosiana em Milão, São Jerônimo dos Museus do Vaticano e a Anunciação da galeria do Museu Uffizi em Florença.

Além dos quadros, a Itália também deveria emprestar para a exposição o famoso Código Atlântico, um conjunto de desenhos e notas recolhidas em 1.119 folhas de grande formato que Leonardo da Vinci produziu em um período de mais de quarenta anos – de 1478 a 1519.

Neste código, que hoje está na Biblioteca Ambrosiana de Milão, Leonardo abordou diversos temas, desde pesquisas matemáticas, astronômicas, meditações filosóficas, fábulas, receitas gastronômicas, até projetos curiosos e futuristas de engenhocas, como bombas hidráulicas, paraquedas e máquinas de guerra.

Da Vinci seria refém do "ultranacionalismo italiano"

Segundo a imprensa italiana, trata-se de mais uma batalha na guerra fria entre a Itália e a França. Já os jornais franceses falam que Leonardo da Vinci é refém do ultranacionalismo italiano. A concorrência entre os dois países de fronteira envolve várias questões como a dos imigrantes, a disputa pela exploração do petróleo na Líbia, entre outras.

A rivalidade cultural inclui Leonardo da Vinci. O artista nasceu em 1452 na cidade de Anchiano, nos arredores de Florença, e morreu em Amboise, no centro da França, em 1519. A subsecretária do ministério da Cultura da Itália, Lucia Borgonzoni, declarou recentemente que “Leonardo é italiano e que só morreu na França”.

Ela disse que “dar ao Louvre estas pinturas significa colocar a Itália à margem de um grande evento cultural. As escolas italianas também estão preparando exposições para agosto”. Sobre a autonomia dos museus, ela ressaltou que “o interesse nacional não pode ser colocado em segunda ordem. Os franceses não podem ter tudo ".

Não é a primeira vez que Lucia Borgonzoni, do partido da Liga, causou polêmica na Itália. Depois de assumir o cargo de subsecretária da Cultura, em junho passado, em uma entrevista a rádio italiana, ela afirmou que não lia nenhum livro há três anos.

Ferida aberta

Leonardo da Vinci representa uma ferida aberta no orgulho da Itália. Segundo os historiadores, o genial artista italiano deixou seu país por se sentir incompreendido. Ele mudou-se para a França por espontânea vontade, onde passou muito bem os últimos três anos da sua vida.

Um exemplo da rixa italiana se concentra na Mona Lisa. A pintura, conhecida também como A Gioconda, é provavelmente o retrato mais famoso na história da arte, senão, o quadro mais valioso do mundo inteiro. A obra é uma das grandes atrações no Museu do Louvre em Paris.

Leonardo pintou A Gioconda na Itália, mas o próprio artista levou o quadro para a França em 1516, quando foi convidado pelo rei Francisco I de Orleans para trabalhar na sua corte. Foi então que o rei francês comprou a pintura por 4 mil escudos de ouro. A Mona Lisa, entretanto, pertence a França há mais de cinco séculos.

Os italianos reivindicam a nacionalidade do artista. Com o tempo criou-se a falsa notícia que a Mona Lisa teria sido roubada da Itália por ordem de Napoleão Bonaparte.

Na verdade, A Gioconda já foi roubada, mas do Museu do Louvre em 1911 e, além disso, por um italiano. O ladrão, Vincenzo Peruggia, justificou que cometeu o furto por patriotismo e por vingança ao espólio de guerra napoleônico no fim do século 18.


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