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Processo de pacificação da Síria continua uma grande incógnita

Processo de pacificação da Síria continua uma grande incógnita
 
Cúpula dos Diálogos Mediterrânicos (MED), uma conferência de três dias sobre segurança na região do Mediterrâneo, em Roma. 30/11/17 Andreas SOLARO / AFP

O governo italiano está cada vez mais preocupado com as ameaças políticas, militares e humanitárias no Mediterrâneo. Um enorme encontro em Roma reuniu uma batelada de ministros, chefes de Estado, altos representantes de organismos internacionais, empresários e especialistas para falar do assunto. Mas desde o início, o pessimismo tomou conta dos participantes e o ministro das Relações Exteriores do Catar não teve dúvida em declarar que a “situação não era preta, era muito mais preta”.

Claro, havia um certo alívio geral pela vitórias recentes contra o grupo “Estado Islâmico” (Daech, em árabe). O grupo terrorista não tem mais condições de resistir às diversas coalizões de grandes potências, governos da região e milícias que decidiram limpar a Síria e o Iraque. Mas todos sabem que os terroristas agora vão voltar à clandestinidade para cometer atentados pelo mundo afora. O grupo ainda vai causar muitos estragos. Porém, vem coisa mais grave pela frente. A reunião de Roma mostrou que a questão agora é vai quem vai dominar o futuro da Síria, do Iraque e de todo o Oriente Médio.
  
O Irã xiita aproveitou esses anos de conflito para consolidar a sua posição de potência regional dominante. O regime de Bachar Al-Assad conseguiu salvar a pele graças aos bombardeamentos massivos da aviação russa, mas sobretudo graças aos soldados do Hezbollah libanês, armados e treinados por Teerã e à ajuda de oficiais e militares iranianos no território sírio.

No Iraque, o governo, dominado pelos xiitas, também depende das milícias treinadas e comandadas por quadros da Guarda Revolucionária iraniana. Milícias que no combate contra Daech, foram apoiadas pelas forças aéreas ocidentais dos Estados Unidos e da OTAN. Resultado: os iranianos hoje controlam um corredor militar territorial que vai da fronteira iraniana às costas do Líbano.
    
Obviamente, isso é intolerável não só para a Arábia Saudita – inimiga figadal do Irã – mas também para Israel que não pode viver sob a ameaça constante dos mísseis e dos militares iranianos e suas milícias locais a poucos quilômetros de sua fronteira norte. O governo de Jerusalém já avisou que não aceitará nenhuma presença militar iraniana na Síria, e já começou a bombardear instalações militares iranianas na região e colunas de transporte de armas para o Hezbollah no Líbano.

Em Roma, o jovem ministro das relações exteriores da Arábia Saudita foi extremamente duro e brutal, denunciando o Irã como um “estado criminoso”  e até terrorista. Enquanto o seu homólogo iraniano declarava sorridente que não iria sair da Síria de jeito nenhum e que Oriente Médio era “sua casa”. Todos os ingredientes estão combinados para que o desmantelamento do califado territorial de Daech se transforme numa nova guerra no sul da Síria. Mas desta vez entre Estados bem mais poderosos e letais do que o grupo terrorista.    

Xadrez político e estratégico
    
Apesar de declarações triunfalistas, os Russos estão numa saia justa. Não há hipótese que eles topem uma guerra contra Israel e os Sauditas. Um conflito que também poderia degenerar rapidamente em guerra geral com os Estados Unidos e a aliança ocidental. Só que os Russos também precisam da presença militar iraniana para manter o governo de Bachar Al-Assad e o controle sobre o futuro do país. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Hoje, ninguém sabe como pacificar a região.

Pouca gente acredita num estado sírio nas fronteiras antigas, dominado por Damasco, sob a tutela da Rússia e do Irã, e aceito pela ONU. Também, ninguém quer uma Síria dividida em pedaços, cada um sustentado por uma ou duas potências externas. Uma solução que seria profundamente instável. Portanto a solução agora é mais bala: todo o mundo atirando em todo mundo até a exaustão geral. E aí, algum grandão virá para juntar os cacos.

Pelo visto essa parece ser a visão da administração Trump em Washington. Os italianos, e o resto do mundo, tem amplas razões de estarem preocupados.


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