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Brasil

Para analista, Bolsonaro “não tem potencial” para ser Trump brasileiro

media Vitória de Donald Trump reforça movimentos populistas e extremistas de direita, como os protagonizados por Marine Le Pen e Jair Bolsonaro. Reuters/ Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

O fenômeno Donald Trump nos Estados Unidos serviu de alerta sobre a força dos movimentos e partidos populistas e nacionalistas nos países ocidentais. Na linha de frente, estão as potências europeias como França e Alemanha, que realizam eleições em 2017, nas quais os candidatos da extrema-direita se anunciam bem posicionados e podem obter resultados históricos. Já no Brasil, o impacto do sucesso de Trump é menos óbvio, uma vez que um movimento organizado de extrema-direita ainda é incipiente.

O reflexo imediato no país seria Jair Bolsonaro, famoso pelos comentários sexistas e homofóbicos. Mas para o cientista político Anthony Pereira, diretor do Instituto Brasil do King's College de Londres, o polêmico deputado federal deve ser pouco beneficiado pela ascensão do republicano nos Estados Unidos.

“Pode ser ingenuidade minha, mas acho que o Bolsonaro não consegue mais do que 6 milhões de votos no primeiro turno. Não o vejo como um potencial Trump – o centro ideológico do Brasil não permitiria uma ascensão tão extraordinária de uma figura como ele”, avalia o especialista em democracia e autoritarismo.

Apesar da onda de conservadorismo no país, Pereira ressalta que o eleitorado brasileiro mudou muito nos últimos 30 anos. Ele lembra que, nos anos 1980, ninguém questionaria a ausência de mulheres no governo de José Sarney, enquanto que, em 2016, o ministério “masculino e branco” de Michel Temer causou escândalo.

O cientista político observa, porém, a emergência de uma direita ideológica desconectada da direita tradicional brasileira. “Essa direita ideológica é um fenômeno interessante porque tem uma identidade com o Tea Party americano, por exemplo, que inclui um fator religioso importante. O contraditório é que o eleitor vota no candidato porque ele fala de religião e é contra o aborto, mas depois esse deputado vai votar para cortar impostos e diminuir investimentos públicos, medidas com um efeito prático muito negativo para o eleitor pobre.”

Impacto de Trump no Ocidente

O pesquisador Ricardo Marchi, que estuda radicalismos de direita no Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa, desconhece o cenário brasileiro, mas afirma que, na Europa e nos Estados Unidos, houve um movimento não só do eleitorado conservador às tendências mais extremas, como de “órfãos” da esquerda: eleitores que cansaram de votar na esquerda porque não encontraram as respostas dos desafios impostos pela globalização.

“Não se restringe apenas aos impactos da crise econômica: são os efeitos de um longo período que resultou na abertura gerada pela globalização, com a concorrência dos países em desenvolvimento, a deslocalização de empresas, precarização do trabalho, os fechamentos de empregos etc. Isso gera a procura por fronteiras e Estados intervencionistas que protejam os interesses dos cidadãos”, explica o cientista político italiano.

Imigrantes viram alvo da insatisfação

Nesse contexto de busca por mais proteção, a rejeição dos “não-cidadãos originais”, ou seja, os imigrantes, foi a válvula de escape encontrada por muitos como a solução para os problemas.

“O perfil conhecido desse eleitor é de pessoas menos favorecidas e com menos instrução, mas não é só isso: tem um forte componente identitário. Cidadãos ‘tradicionais’ dos países ocidentais se veem confrontados com a construção de uma sociedade multirracial e multicultural”, ressalta. “O terrorismo acentuou esse medo, desde o 11 de Setembro. E esse medo é transversal às classes, à escolaridade e à condição social.”

Para Marchi, o fenômeno Trump demonstra que não é mais possível os governos ignorarem esse eleitorado decepcionado, sob o risco de os movimentos nacionalistas crescerem ainda mais. Anthony Pereira acha preocupante o fato de que, em meio a tantas incertezas, esses eleitores rejeitem o discurso racional, baseado em dados e propostas concretas, e prefiram acreditar em promessas que dificilmente poderão ser cumpridas. Trump, por exemplo, garantiu que vai dobrar o crescimento econômico dos Estados Unidos - “uma grande mentira”, na visão de Pereira.

“O eleitor Trump ou o do Brexit, no Reino Unido, aderiu a um discurso emocional. É perigoso porque isso se viu muito na Europa nos anos 1920 e 1930”, recorda o pesquisador. “As pessoas estão assustadas quanto ao futuro e buscam um bode-expiatório. Movimentos como os Trump e Le Pen foram habilidosos em identificar as elites como as responsáveis por isso. Só que eles não têm capacidade de responder a essas ansiedades, porque só oferecem respostas emocionais e prometem o impossível de cumprir.”

Barragem a Le Pen

Quanto ao cenário europeu, os dois analistas constatam que a vitória do republicano vai reforçar os partidos de extrema-direita – mas têm dúvidas sobre até que ponto. Marchi avalia que, por enquanto, o único que tem chances reais de chegar à presidência é Norbert Hofer, na Áustria. Na França, Marine Le Pen pode estar bem posicionada para passar ao segundo turno das eleições presidenciais, mas teria “muita dificuldade” de vencer o pleito porque tradicionalmente, há uma barragem ao partido Frente Nacional, pela união da esquerda e da direita na votação decisiva do pleito.

“De qualquer forma, o tabu já foi rompido: o candidato mais à direita venceu na eleição da maior democracia do Ocidente. Portanto, os nacionalistas europeus partem de uma situação claramente favorecida em 2017”, observa o pesquisador de Lisboa.
 

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