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Visão modernista do paisagista Burle Marx é destaque em exposição em Nova York

Visão modernista do paisagista Burle Marx é destaque em exposição em Nova York
 
O paisagista também mostrava sua criatividade e paixão por cores nos quadros que pintava. Ayrton Camargo/Tyba

Quem estiver em Nova York entre junho e 29 de setembro pode entrar no mundo da arte viva de Roberto Burle Marx (1909-1994) ao visitar o Jardim Botânico da cidade, que fica localizado no bairro do Bronx.

Lígia Hougland, correspondente da RFI nos EUA

O paisagista brasileiro era uma verdadeira força da natureza, e essa força pode ser observada nos audaciosos jardins e na sua vibrante arte, assim como na dedicação à preservação do meio ambiente.

A visão modernista de Burle Marx resultou em milhares de jardins e paisagens, incluindo o famoso calçadão de Copacabana, feito de um mosaico de pedras portuguesas, que o paisagista recriou na década de 1970, fazendo as ondas do calçadão ficarem alinhadas com as ondas do mar. Uma reprodução pode ser vista no Jardim Botânico de Nova York, assim como o jardim suspenso da sede do Banco Safra, em São Paulo. A exposição mostra a versatilidade e a criatividade incessante do artista, que também criava pinturas, desenhos e designs têxteis.

Burle Marx costumava dizer que um jardim é feito de luz e cores. Os visitantes da exposição “Brazilian Modern: The Living Art of Roberto Burle Marx” são imersos em iluminações e sons diferentes ao explorarem seus três jardins que mostram as várias facetas da obra do artista: Modernist Garden (Jardim Moderno), Explorer Garden (Jardim do Explorador) e Water Garden (Jardim da Água).

“Burle Marx é uma das figuras mais importantes da cultura brasileira do século 20, pois ele não apenas era um mestre em paisagismo, como também era extremamente influente e intelectual e estava em contato com todos os pintores, escritores, arquitetos e músicos do Brasil, desde os anos 1930 até a sua morte na década de 1990. A natureza multifacetada da sua carreira é atraente e interessante porque Burle Marx era tão interessado em pintura quanto em música, design de joias e paisagismo. Era simplesmente um renascentista”, diz o curador da exposição, Edward Sullivan.

Reinventando sempre

Como um verdadeiro renascentista, Burle Marx estava sempre se reinventando, o que pode ser visto na amplitude da sua obra. No entanto, Sullivan, que é acadêmico especializado em arte latino-americana, com mais de 30 publicações sobre o tópico, optou por focar parte da mostra no trabalho do artista durante o período da ditadura militar no Brasil.

Depois do golpe militar de 1964, o paisagista foi convidado para ser membro do Conselho Cultural Federal e responsável pela política cultural do país. Ele aceitou o convite e trabalhou com o governo até o início dos anos 1970. Durante esse período, Burle Marx atuou como ativista pelo meio ambiente, publicando muitos textos e dando palestras sobre o assunto. E foi também nessa época que sua arte passou a ser abstrata.

“A abstração era muito importante para ele naquela época. Burle Marx também estava experimentando com formas diferentes de abstração, abstração geométrica e de forma livre, portanto achei que seria interessante limitar o período da investigação da sua arte visual a esses últimos 30 anos da sua vida”, diz o curador.

Orientador

O designer da exposição, Raymond Jungles, teve Burle Marx como seu mentor e amigo pessoal, e conta que o trabalho para a mostra lhe permitiu fazer uma imersão nas memórias compartilhadas com o paisagista e no aprendizado que ganhou dele, principalmente durante as muitas visitas que fez ao Brasil, incluindo uma longa estada no sítio de Burle Marx, em Barra da Guaratiba, no Rio de Janeiro.

“Fui ao Brasil por muitos anos e fiquei no sítio de 1982 a 1984. Pude voltar a olhar todas minhas fotos e reler todos os livros e artigos que colecionei durante o tempo que tive Roberto como mentor”, conta Jungles.

O paisagista americano, hoje sediado em Miami, lembra com carinho o inconformismo de Burle Marx e ainda usa as lições do seu mentor como diretrizes para seu trabalho.

“Roberto me ensinou a fazer design com princípios e não fórmulas. Manter a curiosidade e sempre tentar coisas novas e não ter medo de experimentar, pois só assim você pode crescer como artista”, diz Jungles.

Um dos desafios para Sullivan foi encontrar trabalhos adequados e que pudessem ser transferidos para o Jardim Botânico de Nova York, sem envolver muitos gastos.

Obras inéditas para o público

Mas o curador deu sorte, pois a arte de Burle Marx também foi muito valorizada nos Estados Unidos e, assim, ele conseguiu obter obras de coleções privadas e de instituições localizadas nas cidades de Miami, Nova York, Princeton, Filadélfia e Chicago, sem precisar trazer peças do Brasil. Entre os grandes trabalhos que o paisagista brasileiro fez nos Estados Unidos estão o jardim Cascade Garden, em Kenneth Square, no estado da Pensilvânia, e o design da calçada do Biscayne Boulevard, em Miami. Muitas das obras exibidas em Nova York estão sendo pela primeira vez vistas pelo público em geral.

Sullivan acredita que a exposição será o evento mais importante deste verão nova-iorquino, pois o legado de Burle Marx é fundamental tanto para o mundo de hoje quanto para a preservação do mundo de amanhã. Desde que foi inaugurada, em 08 de junho, a exposição já recebeu dezenas de milhares de visitantes.

“O significado do seu trabalho e dessa exposição é muito oportuno. Burle Marx e tudo que ele fez nas suas pinturas, jardins e na arquitetura que ele criou para seu sítio no Rio dizia respeito à natureza. Ele estava sempre preocupado com o mundo natural, com o planeta e conservação. Em um momento de crise, com mudanças climáticas e todas coisas horríveis acontecendo no mundo como, por exemplo, no Brasil e nos EUA, onde os elementos naturais da terra estão sendo destruídos, acho que uma exposição sobre alguém tão preocupado com o planeta e sua saúde talvez seja a coisa mais importante que podemos fazer hoje”, diz o curador.


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