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Hong Kong acendeu “luz vermelha” em líderes do Partido Comunista chinês

Hong Kong acendeu “luz vermelha” em líderes do Partido Comunista chinês
 
"A população da antiga colônia britânica defende agora, aos brados, um regime democrático. E pede até a ajuda do governo e do Congresso americanos." REUTERS/Anushree Fadnavis

Claro, Xi Jinping, é o dirigente chinês mais poderoso desde Mao Tse-tung. Mas dúvidas correm soltas na Cidade Proibida. Xi conseguiu mudar as regras de sucessão dentro do Partido Comunista de maneira a garantir para si próprio uma permanência quase eterna.

Uma brutal campanha anticorrupção esmagou os seus opositores mais resolutos ou menos amedrontados. Hoje, a mídia chinesa só publica artigos hagiográficos engrandecendo o “pensamento Xi-Jinping” e louvando as decisões infalíveis do novo “Líder do Povo” - uma apelação usada só para o presidente Mao.

Só que o líder chinês não parece mais tão indefectível assim. A gestão hesitante da revolta da população de Hong Kong acendeu uma luz vermelha dentro do pequeno grupo de dirigentes do Partido Comunista. Um regime autocrático, que espera três meses e meio de passeatas e violências urbanas para acabar recuando e aceitando uma só das cinco reivindicações dos manifestantes, não é bem um exemplo de força e sabedoria.

A população da antiga colônia britânica defende agora, aos brados, um regime democrático. E pede até a ajuda do governo e do Congresso americanos. Os mais moderados na direção comunista resmungam que essa concessão deveria ter acontecido há muito tempo, antes que os protestos se radicalizem. Os “linha-dura” querem uma intervenção militar chinesa imediata para acabar com a bagunça.

Só que Xi está numa sinuca. Pequenas concessões arranham a sua imagem de líder inflexível minando o seu poder interno. Sem falar do perigo de contágio das ideias democráticas na própria China continental.

Mas invadir Hong Kong com tanques – e ainda por cima no aniversário do massacre da Praça Tienanmen de 1989 – seria acabar de vez com a narrativa oficial de uma China pacífica, cujo regime se vende como um exemplo para o resto do mundo. Além de liquidar a galinha dos ovos de ouro que é Hong Kong, principal canal de contato com a economia mundial, mealheiro das elites chinesas, e cujo estatuto particular – “um país, dois sistemas” – Pequim se comprometeu respeitar. E que oferece como saída para uma reunificação pacífica com Taiwan.

Onda de riscos políticos e econômicos

Xi Jinping não é cego. Em janeiro passado, numa reunião dos principais dirigentes do Partido, ele avisou que o país estava enfrentando uma séria onda de riscos políticos e econômicos. A questão central continua sendo o crescimento econômico profundamente abalado pela enfrentamento com os Estados Unidos.

Sem prosperidade econômica, o Partido Comunista vai ralar para se manter no poder. E muitos outros líderes comunistas não estão plenamente convencidos da estratégia de Xi de falar grosso e ganhar tempo, esperando que Trump não seja reeleito.

A crise comercial poderia ter sido resolvida com o acordo alcançado há poucos meses atrás. Mas, na última hora, o presidente chinês recusou as concessões feitas pelos seus negociadores. Uma decisão que pesa ainda mais sobre a performance econômica da China.

Pior ainda: para neutralizar possíveis contestações internas, Xi Jinping está apelando para uma retórica nacionalista, com louvores permanentes ao poderio das Forças Armadas e expansões militares no mar da China meridional e no Índico. Um expansionismo que está alimentando a desconfiança dos vizinhos e atraindo ainda mais o poderio militar dos Estados Unidos para a região.

Pequim sabe perfeitamente que não tem condições de manter um enfrentamento militar direto com Washington, mas a retórica de Xi está atiçando essa presença americana. Trump decidiu se retirar do tratado com a Rússia que proibia mísseis de alcance intermediário, sobretudo para poder ameaçar a China, justamente com esse tipo de armamento.

É muita areia, até para o caminhãozão de Xi Jinping. Os outros mandachuvas do Partido Comunista que só pensam na própria sobrevida – e que tremem diante do poder acumulado do chefe supremo – já não estão tão seguros de que um Xi autocrata, tomando decisões aventurosas, seja a melhor solução para garantir, por mais algumas décadas, o poder absoluto do partido de Mao Tse-tung.

*** O cientistas político Alfredo Valadão publica suas colunas todas as segundas-feiras na RFI Brasil

 


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