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Protestos em Hong Kong: Por enquanto, modesto 1 a 0 a favor da sociedade civil

Protestos em Hong Kong: Por enquanto, modesto 1 a 0 a favor da sociedade civil
 
As populações de Hong Kong e de Taiwan constituem os últimos bastiões da liberdade dentro do império chinês. REUTERS/Thomas Peter

O pote de barro perde quase sempre contra o pote de ferro. Mas alguns esperam que o ferro enferruje antes. Ninguém sabe qual será o resultado final das multitudinárias manifestações da população de Hong Kong contra o poderosíssimo regime de Pequim. Por enquanto, é só um modesto 1x0 a favor da sociedade civil.

A chefe do Executivo, Carrie Lam – cria de Pequim – foi obrigada a suspender o projeto de lei permitindo a extradição para a China de pessoas suspeitas de oposição ao poder chinês. E diante das maiores passeatas desde a retrocessão do território em 1997, ela ainda teve que pedir desculpas pela violência da repressão nos últimos dias. Uma derrota indiscutível para o governo chinês que nunca foi de recuar nesse tipo de conflito.

A batalha é simples: a população de Hong Kong não está a fim de perder as liberdades e o que sobra das instituições democráticas herdadas dos 155 anos de colonização inglesa. Quando recuperou o pequeno território em 1997, a China continental se comprometeu a respeitar o estatuto especial do antigo “porto perfumado” até 2047 – “um país, dois sistemas”.

De um lado, o poder absoluto do Partido Comunista e seu modelo estatizante e autoritário. Do outro, a economia mais liberal e um dos maiores centros financeiros do planeta, um Judiciário independente, uma moeda própria e uma vida política baseada no multipartidarismo.

Lei de segurança nacional "liberticida"

Hoje, Hong Kong constitui a sociedade e a economia mais vibrantes do império chinês, totalmente aberta ao resto do mundo. Vantagens que as lideranças continentais adoram. Nas duas últimas décadas, grandes empresários chineses e membros da nomenclatura comunista de Pequim se instalaram nessa “região administrativa especial” para ganhar um passaporte para viajar sem visto e fazer negócios livremente com o mundo inteiro.

Só que o regime comunista chinês não aguenta tanta liberdade. Já em 2003, Pequim quis adotar uma lei de segurança nacional liberticida. O tiro saiu pela culatra: meio milhão de cidadãos foram às ruas. Diante da força da população Pequim promete a instauração do sufrágio universal para 2017 no lugar do sistema misto onde o Executivo é eleito por um Colégio Legislativo, no qual só a metade dos membros vêm do voto popular – a outra metade é controlada pelas autoridades continentais.

Mas com a chegada ao poder de Xi Jinping essa a moleza vai endurecer. Xi quer centralizar todo o poder e acabar com qualquer possibilidade de contestação ou oposição, tanto na China continental quanto em Hong Kong. Em 2014, ele anuncia que as autoridades da “região especial” serão praticamente nomeadas por Pequim. A juventude manifesta maciçamente na chamada “revolução dos guarda-chuvas”, mas Pequim finca o pé.

O novo “imperador” do comunismo chinês quer mesmo abolir o tal “grau elevado de autonomia” de Hong Kong negociado com os ingleses. Começando pelo fim da independência do Judiciário. Foi a gota d’água. Pela primeira vez, o governo chinês é obrigado a recuar abertamente diante da determinação da população. E isto justamente no trigésimo aniversário do terrível massacre da praça da Paz Celestial que liquidou o sonho de democracia na China continental. Suspensão da lei de extradição e desculpas contritas de Carrie Lam: a humilhação não podia ser maior.

Guerra continua

Claro, os cidadãos de Hong Kong não ganharam a guerra. O regime comunista chinês é um gigante que sempre volta à carga. O autoritarismo de Xi Jinping está construindo um sistema apavorante de controle tecnológico dos 1,3 bilhão de chineses. Um totalitarismo que se intromete na vida privada de cada pessoa e onde uma justiça completamente às ordens do regime destrói qualquer forma de liberdade política e até social.

As populações de Hong Kong e de Taiwan constituem os últimos bastiões da liberdade dentro do império chinês. Potes de barro sem dúvida. Mas, por enquanto, ainda estão determinados a tentar aguentar o tranco.

*Alfredo Valladão é professor no Instituto de Ciências Políticas de Paris - Sciences Po 


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