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Mundo

Mulheres exibem cicatrizes nas redes sociais para lutar contra ditadura dos corpos perfeitos

media A aceitação de cicatrizes é muito mais difícil para as mulheres do que para os homens. Sharon McCutcheon

Em uma sociedade em que corpos e rostos perfeitos se tornaram uma imposição, assumir suas cicatrizes não é uma tarefa simples. Nas redes sociais, mulheres que decidiram mostrar suas marcas lutam contra o preconceito e o peso do olhar alheio.

Espécie de embaixadora desse movimento, a francesa Julie – também conhecida como Little Phenix -, exibe com orgulho marcas de queimaduras em sua conta no Instagram. Em 2013, aos 16 anos, a jovem teve 40% de seu corpo queimado, quando participava de uma festa de carnaval em sua escola. A fantasia que Julie usava pegou fogo depois de ter encostado em um cigarro aceso.

A francesa relata o acidente, os três meses em coma e a recuperação física e psicológica em seu canal no YouTube. Com mais de 300 mil seguidores no Instagram, Julie milita pela diversificação da representação dos corpos na sociedade. O sucesso é tamanho que atualmente a jovem tem parcerias com marcas como Dove, Reebok e Yves Rocher.

E se nós mostrassemos mais mulheres? @douzefevrier

Orgulho das cicatrizes

Pelas hashtags #mescicactrices (minhas cicatrizes) ou #fieredemescicatrices (orgulhosa de minhas cicatrizes), é possível encontrar dezenas de integrantes desse novo movimento, ainda informal, mas que toma contornos com imagens e relatos similares. Em comum entre eles, o empoderamento através de marcas físicas em um mundo que pressiona as mulheres a ideais de perfeição inalcançáveis.

É o caso da francesa Ju Denver, de 28 anos, diagnosticada com a Doença de Crohn há três anos. A jovem guarda na região do ventre as cicatrizes de uma cirurgia que realizou para extrair uma parte do intestino atingido, época em que teve de utilizar uma bolsa de colostomia.

À RFI, Ju afirma não ter dificuldades em falar sobre o período difícil que passou ao enfrentar a doença, as marcas que deixou e o uso da bolsa de colostomia. “No começo foi complicado lidar com as cicatrizes porque me lembrava dessa fase ruim. Mas decidi utilizar essa experiência como uma lição de vida, o que me permitiu mudar muitas coisas”, afirma.

O que ajudou a francesa a superar as más lembranças foi começar a exibir suas marcas. Um fotógrafo contatou a jovem pelo Instagram e propôs que ela posasse em algumas sessões, durante as quais a única exigência de Ju era não mostrar suas cicatrizes. “Mas pouco a pouco ele me ensinou a trabalhar a visão que eu tinha sobre o meu corpo. Então, comecei a mostrar parcialmente minhas cicatrizes. Até que um dia que fizemos fotos exibindo-as completamente e as achei lindas. Comecei a percebê-las como uma parte de mim”, conta.

A vida é uma luta que deixa traços que não podemos apagar... Orgulhe-se deles, são um reflexo das suas vitórias @judenver

Uma prova de luta e sobrevivência

Para a cozinheira brasiliense Hélida Suellen, de 25 anos, as cicatrizes são uma prova de sobrevivência. Em 2013, a jovem sofreu um acidente de carro e um poste caiu sobre sua perna. Desde então, realizou várias cirurgias, fez enxerto ósseo, passou três anos e meio em cadeira de rodas e correu o risco de ter de amputar a perna.

Atualmente, Hélida caminha com a ajuda de muletas e recusa a opção da realização de uma cirurgia plástica para melhorar a aparência física da perna. “As pessoas vêm me perguntar quando vou ficar bem. Mas eu estou estou bem. Tenho sequelas, mas uma nova operação não vai mudar o que é a minha realidade hoje. O que pode ser feito atualmente é apenas para a parte estética”, explica.

A aceitação de uma mudança irreversível de seu corpo, aos 18 anos, foi complexa, conta a brasiliense à RFI. O mais difícil até hoje, segundo ela, é gerenciar o olhar e a frustração das pessoas – até mesmo de sua família – sobre sua aparência e suas escolhas. “Meu pai tinha muita dificuldade para ver minhas cicatrizes, então eu as escondia no começo. Depois, entrei em uma fase de querer mostrá-las, então tive que aprender a lidar com o olhar das pessoas para afirmar que essas marcas fazem parte de algo que eu venci”, diz.

Hoje a jovem posa com naturalidade para fotos que posta em sua conta no Instagram. “Eu não tenho vergonha de me mostrar. Estou bem comigo mesma e aceito que minhas cicatrizes façam parte de quem sou hoje. Elas não me diminuem como pessoa, como mulher. Mas, devido ao olhar do outro, minha luta atualmente é mostrar que eu sou feliz, me acho bonita, faço tudo o que eu quero e posso”, salienta.

A serenidade no olhar de quem voltou a dançar (e andar) @helidasuellenn

Fenômeno "body positive

A psicóloga e professora Amélie Rousseau, da Universidade de Lille, é especialista em distúrbios da imagem corporal e transtornos alimentares. Segundo ela, o novo movimento de aceitação de cicatrizes se enquadra na filosofia "body positive”, que nasceu e se desenvolveu nas redes sociais, para incitar a aceitação das imperfeições do corpo.

A especialista ressalta que não há estudos que provem que esse tipo de mobilização tem um efeito positivo para as pessoas que a integram ou a seguem. No entanto, ela aponta vantagens deste fenômeno: “Ele mostra toda a diversidade morfológica que faz parte da nossa realidade e mostra também que se está questionando os ideais padrões de magreza, perfeição e beleza”.

Para a psicóloga, não há dúvidas que a aceitação de cicatrizes é muito mais difícil para as mulheres do que para os homens. “As pressões socioculturais são muito mais fortes sobre o corpo feminino. Espera-se que as mulheres sejam fisicamente perfeitas. Por isso, mesmo as poucas mulheres que já são consideradas perfeitas, têm suas fotos e imagens retocadas antes que elas venham a público”, ressalta.

Quando a cicatriz vira arte

Glenda Consuelo, de Belém (PA), transformou um triste episódio de sua vida em um projeto artístico que reúne mulheres de todo o Brasil. Em 2017, aos seis meses de gravidez, a paraense teve uma apendicite, foi submetida a uma cirurgia e deu à luz uma bebê prematura, Valentina.

Depois de 20 dias na UTI, a recém-nascida faleceu. Para piorar o sofrimento, Glenda também teve uma série de complicações, foi submetida a outras operações, tirou uma parte do intestino e utilizou uma bolsa de colostomia durante quatro meses. Além da perda da filha, a paraense teve que lidar também com quatro cicatrizes resultantes das intervenções cirúrgicas que realizou.

Glenda Consuelo/Projeto Cicatrizes Glenda Consuelo/Projeto Cicatrizes

Dois anos depois, Glenda ainda fala do trágico período com a voz embargada, mas conta com orgulho que reuniu todas as forças para transformar a dor em algo positivo. Na busca por histórias parecidas com as suas para a troca de experiências, a paraense criou o “Projeto Cicatrizes”.

No Facebook e no Instagram Glenda exibe fotos de mulheres mostrando suas cicatrizes e contando a experiência de cada uma. A própria paraense inaugurou o projeto, com suas imagens e relatos. Ela também se disponibiliza a realizar o ensaio fotográfico das mulheres de sua região. “O objetivo é que, por meio das fotos, as mulheres possam se ver de uma outra forma e levantem sua autoestima”, afirma.

O sucesso do grupo é tamanho que acabou se tornando uma rede online de apoio e superação de brasileiras de todo o país. Algumas das fotos de Glenda também foram exibidas recentemente em uma exposição em Belém. “Nunca imaginei que eu pudesse transformar toda aquela dor que senti nesse projeto. Sempre que penso na minha filha lembro que, ao menos, eu pude fazer isso por ela”, diz.

Projeto cicatrizes @projetocicatrizes

Cicatrizes que são ouro

A artista plástica francesa Hélène Gugenheim se interessa no processo de cicatrização para, segundo ela, “abrir o olhar sobre o mundo”. Por isso desenvolveu a performance “Mes cicatrices – je suis d’elles, entièrement tissé-e”, (“Minhas cicatrizes – sou delas, completamente costurado(a)“). Através do kintsugi – técnica japonesa para reparar cerâmica ou porcelana com ouro – Hélène Gugenheim transforma cicatrizes em arte.

“Quando criei essa performance meu objetivo era de mostrar uma outra maneira de ver o ferimento ou a operação, o tempo que o corpo leva na cicatrização – que às vezes é mais longo e íntimo do que o esperado – o que nem sempre é compreendido”, diz.

Hélène Gugenheim diz ter realizado uma reflexão profunda sobre a representação dos corpos na sociedade. “Percebo que a experiência médica de dar ao corpo uma identidade funcional ou estética tem lugar no nosso imaginário coletivo. Mas, felizmente o corpo é muito mais que isso. Podemos nos reinventar através deles.”

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