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Irã: as razões de uma revolução que já dura 40 anos

media Manifestantes carregam cartaz com foto do aiatolá Khomeini, em janeiro de 1979, durante a mobilização contra o xá AFP

Vivendo sob um clima de tensões sociais há vários meses, a República Islâmica comemora nesta segunda-feira (11) 40 anos de revolução. Um evento histórico que transformou profundamente o país. Mas o que levou os iranianos a se revoltar contra o poder e quais foram as razões dos protestos que tomaram conta do país no fim dos anos 70?

Baptiste Condominas, da RFI

No dia 11 de fevereiro de 1979, o governo do primeiro-ministro Shapour Bakhtiar chegou ao fim e o aiatolá Khomeini tomou o poder. Esta data marcou oficialmente o fim da monarquia no Irã e o nascimento da República Islâmica. Um dos impérios mais antigos do mundo foi substituído por uma das raras teocracias do planeta. Essa mudança radical ocorreu depois de vários meses de contestação intensa, marcada principalmente por manifestações, greves, e pela fuga do xá, que se exilou no exterior.

Apesar de a revolução ter ocorrido de forma relativamente rápida, sua origem é um conjunto de fatores complexos e fruto de três décadas de um profundo descontentamento político, social e econômico. Uma das origens dessa frustração coletiva foi a chamada “revolução branca” do xá Mohammad Reza Pahlavi, que lançou uma série de reformas para modernizar o país.

As ambiciosas reformas do xá

O programa de reformas foi lançado oficialmente em 1963, mas o xá deu continuidade a uma modernização iniciada pelo seu pai – um conjunto de mudanças econômicas e sociais vinculadas à renda oriunda do petróleo. “Ele pensava que era necessário, a qualquer custo, promover rapidamente a industrialização e mudar as estruturas”, analisa a socióloga Firouzeh Nahavandi, especialista do Irã da Universidade Livre de Bruxelas e autora do livro “Na Origem da Revolução Iraniana.”

Nessa época, ressalta, vários projetos de envergadura foram colocados em prática. No início, a mudança econômica aconteceu através de uma planificação “razoável, que equilibrava objetivos e meios”, destaca. Mas o choque do petróleo, em 1973, marcou uma mudança decisiva.

A alta dos preços do bruto enriqueceu consideravelmente os cofres do Estado e confortou o xá em suas ambições. Um pouco demais, sem dúvida. “Passamos do que era razoável para planos astronômicos”, estima Nahavandi. Os planos do regime foram ambiciosos demais e colocados em prática rápido demais para uma economia ainda frágil.

O xá não antecipou as consequências da alta do preço do petróleo, que provocou um aumento da inflação. A renda com o bruto diminuiu, mas o país continuou dependente do setor dos hidrocarbonetos. A produção industrial recuou, a especulação fez subir o preço dos aluguéis e a moradia tornou-se inacessível para um grande número de pessoas. A desigualdade cresceu, gerando impaciência e descontentamento de parte da população.

Comerciantes, agricultores, religiosos e estudantes

Certas decisões tomadas pelas autoridades acentuaram esse mal-estar. O xá decidiu, por exemplo, impor um controle e congelamento de preços que afetaram os comerciantes e bazares. Vários comerciantes que não respeitaram as novas regras acabaram na prisão. Mas a política de Pahlavi suscitou também a ira de outras camadas da população e, progressivamente, “todas as classes sociais se voltaram contra o regime”, explica Nahavandi.

Nos anos 60, a reforma agrária, que no início foi bem recebida pelos agricultores, desagradou a categoria. Muitos dos moradores das áreas rurais acabaram indo parar nas favelas das grandes cidades em busca de trabalho. Algumas elites históricas, como os latifundiários, que tiveram terras confiscadas, também ficaram insatisfeitas com as reformas.

As mudanças culturais e sociais também foram criticadas pelas alas mais conservadoras da população. A política implantada pelo poder, favorável ao direito das mulheres, à penetração da cultura ocidental e à vontade de limitar a influência do Islã, com base na herança da civilização persa pré-islâmica, desagradaram os religiosos, muito influentes no mundo rural.

Paradoxalmente, o regime também passou a enfrentar as frustrações da nova classe média moderna iraniana. Educada, essa nova geração veio de um meio social habituado a viajar, e que teve a oportunidade de estudar, a tornando sensível a certos valores ocidentais. Esses jovens ambiciosos se sentiram acuados pelas instituições. “Essa geração esperava ter seu lugar dentro do regime, mas as instituições, nas mãos da elite, não as integraram no sistema”, analisa a socióloga.

Com as mudanças econômicas, a população passou a ter novas aspirações, sufocadas pela crise surgida com a alta do preço do petróleo. A esse sentimento de abandono se somaram a ostentação da burguesia do petróleo emergente, a corrupção das pessoas próximas ao xá e aos clientes da “corte”. Os custos das comemorações do 2500° aniversário da fundação do Império Persa também chocaram a população.

Autoritarismo

Todos esses elementos alimentaram uma frustração geral dentro de um contexto político tenso e contribuíram para a explosão da revolução de 1979. Isso porque, desde 1953, o país vivia uma “deriva autoritária”, estima a socióloga. Na época, a nacionalização do petróleo implantada pelo premiê nacionalista Mohammad Mossadegh mergulhou o país na crise. Diante dessa situação explosiva, o xá decidiu fugir do país. De volta do seu curto exílio depois da queda de Mossadegh, “ele mudou de atitude, passou a impor sua visão e tomar decisões”, explica Nahavandi.

Seu autoritarismo levou à criação de uma polícia secreta, cujo papel se tornou fundamental na repressão dos opositores, no desaparecimento de partidos políticos e na criação de uma legenda única (Rastakhiz). O controle da vida política pelo poder levou ao surgimento de vários movimentos clandestinos. “A partir do momento em que não existiam mais partidos políticos e não se podia mais debater em praças públicas, surgiram grupos marginais, fora de controle”, diz a especialista.

Foi nessa época que apareceram grupos islâmicos com discursos que passaram a ecoar nas mesquitas. Mas o poder imperial também precisou enfrentar o influente partido Toudeh, pilotado pela antiga União Soviética, que agia clandestinamente. Foi desta forma que religiosos e comunistas, mas também liberais e nacionalistas, acabaram na oposição. A contestação reuniu, desta forma, um grande painel de ideologias.

“Durante três décadas, várias camadas da população estavam insatisfeitas, mas não pelas mesmas razões”, lembra o economista Shaheen Fatemi, responsável nos anos 50 e 60 da confederação dos estudantes iranianos nos EUA. “O partido Toudeh, o partido Jebheh Melli, os religiosos e os socialistas não tinham os mesmos ideais. Mas no momento da revolução, todos pensavam que queriam as mesmas coisas”, resume.

O fator estrangeiro e a figura de Khomeini

Dois fatores importantes consolidaram o movimento de contestação. O primeiro foi a atitude de Washington. A chegada ao poder de Jimmy Carter, em 1977, que defendia os direitos humanos, favoreceu a expressão pública dos opositores. A oposição iraniana viu nas posições de Carter uma oportunidade de expressão. No contexto da Guerra Fria, os Estados Unidos defenderam uma política de apoio ao Islã contra o comunismo. O xá aos poucos perdeu influência junto a seus aliados ocidentais, que o abandonaram.

Outro aspecto importante foi a emergência de um líder carismático como o aiatolá Khomeini, opositor de longa data, cuja figura foi “embelezada” pela propaganda religiosa. De acordo com a socióloga Firouzeh Nahavandi, Khomeini foi um catalisador da revolução e surgiu como a única pessoa capaz de mudar a situação e unificar os dissidentes. Todos os atores da oposição se aliaram a ele pensando que o líder “sendo um homem de religião, não se manteria no poder”, diz a socióloga. “Só que os religiosos não pretendiam deixar espaço para os outros”, lembra o economista Shaheen Fatemi.

De volta do exílio e no comando do país, a posição de Khomeini se radicalizou. O resto da oposição, que incluía movimentos de esquerda ou laicos foram marginalizados e progressivamente eliminados. As Forças Armadas e a administração foram afastadas do poder e os partidários do xá e dos revolucionários de esquerda se tornaram alvos do regime.

Revolução permanente

Quarenta anos depois, as vozes dissidentes continuam caladas e a República Islâmica se mantém apesar dos protestos pós-eleitorais de 2009 e as manifestações recorrentes desde 2017. “As instituições islâmicas são sólidas, têm apoio militar e paramilitar que ainda são leais ao regime e o defenderão até o fim”, explica Firouzeh Nahavandi, lembrando que, do ponto de vista econômico, o regime tem meios “para se manter muito tempo no poder.”

Para o economista Shaheen Fatemi, a longevidade da República Islâmica está ligada ao discurso ambíguo em torno da chamada ‘revolução permanente’. “O regime utiliza muito a palavra revolução e explica que, se ele tem seus limites, é porque ele não teve início em uma ‘era normal’. Manter essa ideia da revolução é um pretexto para dizer que estão em perigo e não podem garantir uma vida normal para o povo. A prioridade, dizem, é agir para preservar a revolução. A ‘revolução permanente’ abafa as reivindicações populares e permite às autoridades que façam o que desejam em nome da revolução.”

(Tradução de Taíssa Stivanin)

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