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Mundo

Estupros e agressões: os macabros bastidores do esporte sul-coreano

media Cerimônia de encerramento dos Jogos de Inverno da Coreia do Sul, em 25 de fevereiro de 2018. REUTERS/Pawel Kopczynski

Uma série de revelações dos bastidores do esporte sul-coreano abalaram o país nos últimos meses. Várias atletas acusam seus treinadores de estupro e violências, levando o governo a anunciar uma investigação gigante, a mais importante da história do setor esportivo da Coreia do Sul.

Shim Suk-hee, de 21 anos, duas vezes campeã olímpica, acusou seu treinador, Cho Jae-bom, de tê-la estuprado repetidamente desde os 17 anos. Ela também denunciou diversos espancamentos, que ocorreram desde que ela tinha apenas 7 – em um dos episódios, Suk-hee teve um dedo quebrado por um taco de hóquei.

Cho Jae-bom já tinha recebido a pena de 10 meses de prisão pelas agressões físicas, mas as denúncias de estupro são recentes. Elas encorajaram outras atletas a revelarem seus sofrimentos, como a judoca Shin Yu-yong, de 23 anos, que também acusou seu treinador de abuso sexual.

Esses casos são apenas a ponta do iceberg, de acordo com uma associação de patinadores, que afirma ter conhecimento de cinco outros casos de abuso sexual contra atletas profissionais, incluindo menores de idade. Esses fatos vêm para abalar a reputação do esporte sul-coreano que, até então, era mais conhecido por seu sucesso e suas vitórias consecutivas. O país sempre fica entre os dez primeiros nos Jogos Olímpicos e, na patinação de velocidade em pista curta, seus atletas têm 24 medalhas, um recorde.

Mas todo esse sucesso esconde práticas brutais: as esportistas são entregues, extremamente jovens, a treinadores que dispõem de um poder desmedido. As atletas vivem em dormitórios, sem nenhum contato com a família. Para ser o melhor, todos os sacrifícios são aceitos – e os olhos dos responsáveis permanecem fechados em caso de problema.

Esse sistema facilita os abusos de autoridade e as violências. As atletas acusaram seus treinadores de exigir acesso total a seus telefones, para controlar suas vidas privadas, relações pessoais e amorosas.

Fim do silêncio

Devido à forte paixão pelo exporte, as vítimas preferem ficar caladas. Em geral, as jovens sacrificaram tudo pela carreira, inclusive os estudos, e têm medo de ficar sem alternativa caso algo dê errado.

Em resposta, o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, falou em “humilhação” para o país. Na sexta-feira (29), o governo anunciou a abertura da maior investigação da história do esporte sul-coreano: 30.000 atletas, treinadores e responsáveis serão ouvidos por um ano. O governo também prometeu fazer uma revisão na atual legislação para condenar os dirigentes de associações esportivas acusados de abafar os casos de violência sexual.

“Devemos sair dessa mentalidade de querer ganhar a todo preço (…) Não podemos mais infligir essa competição feroz às atletas em nome do prestígio nacional”, declarou o ministro dos Esportes sul-coreano, Do Jong-hwan, que apresentou desculpas às vítimas e a seus familiares.

O movimento #metoo chegou tarde na Coreia do Sul e as revelações de abuso sexual, quando surgiram, afetaram em primeiro lugar os meios artísticos. Mas parece que o momento chegou enfim para o meio esportivo, graças às corajosas atletas que ousaram fazer as denúncias.

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