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Mundo

Festival no deserto dos Emirados Árabes celebra camelos e movimenta milhões

media Camelos desfilam na área onde são avaliados pelos juízes. Foto: Leonardo Kiles

Três horas de estrada no meio do deserto separam a futurista Dubai de Madina Zayed, no emirado de Abu Dhabi. A pequena cidade fica no início do Empty Quarter (Quarteirão Vazio, em tradução livre), a maior faixa contínua de areia do mundo, em direção à fronteira com a Arábia Saudita. É nessa área remota dos Emirados Árabes Unidos que acontece todos os anos, em dezembro, o Al Dhafra Festival. Maior vitrine de cultura beduína da região, ele é também palco de prêmios e negócios milionários

Mariana Durão, correspondente da RFI Brasil em Dubai

O clima é de rodeio, mas comparar a importância do festival à semana de moda em Paris ou ao desfile das Escolas de Samba no Rio não seria exagero. Assim como as comunidades cariocas, herdeiros da cultura beduína de toda a Península Árabe se preparam o ano todo para participar das duas semanas de competições em Al Dhafra.

A lista inclui provas de falcoaria, gastronomia e tiro. A grande estrela do evento, no entanto, é o camelo árabe (ou dromedário). Nessa temporada cerca de 24 mil camelos e 1500 proprietários vieram dos Emirados e de outros países do Golfo como Omã, Bahrain, Kuwait e, principalmente, da Arábia Saudita. Alvo de um bloqueio econômico pelos vizinhos, o Catar ficou de fora nos últimos dois anos.

O camelo é um animal reverenciado na sociedade árabe porque teve papel de destaque na sobrevivência de seus ancestrais beduínos, provendo carne, leite, couro e transporte. A “camelomania” é nítida até nos souvenirs vendidos nesses países. Todo mundo quer um camelo para chamar de seu, nem que seja num chaveiro, caneta, enfeite de mesa ou uma versão de pelúcia que canta música árabe.

Homem exibe camelo para venda na Million Street. Foto: Mariana Durão

A paixão regional acabou se tornando uma indústria multimilionária. Só no festival de Al Dhafra são 38 milhões de dirhams (€ 9 milhões) em prêmios patrocinados pelo governo dos Emirados Árabes, além de outros mimos como carros utilitários de primeira linha.

“O camelo faz parte da nossa herança cultural. É por isso que as pessoas amam ficar com eles. Eu sou uma delas. Aqui (no festival) eles podem ganhar prêmios de até 1 milhão de dirhams (240 mil euros). Após a vitória outros competidores podem comprar o mesmo animal por 2 milhões ou 3 milhões de dirhams”, conta Mohammed Hamad. Aos 16 anos, ele já é um veterano em Al Dhafra, que frequenta desde os nove. A família do adolescente cria camelos, mas não participa das disputas porque seu pai é um dos juízes do festival.

Concurso tem comitê para evitar fraudes

Os concursos mais aguardados são o de melhor rebanho (Al-Bayraq) e os de beleza, onde os julgadores avaliam os camelos – na verdade apenas fêmeas concorrem – dos pés à cabeça. Pernas e pescoço longos, cílios grandes, largura da bochecha, lábios grossos e uma corcova bem torneada são alguns dos critérios para eleger uma Miss Camelo.

Há ainda uma espécie de “antidoping”, onde uma junta analisa se houve algum tipo de fraude. Em janeiro de 2018 um grupo de camelos foi desclassificado em um festival na Arábia Saudita porque seus tratadores injetaram botox para conseguir lábios mais carnudos.

São vários concursos de beleza por dia em diferentes categorias, que se dividem por idade, tipo de animal e até mesmo se ele pertenceu ao mesmo dono a vida toda ou se foi comprado de um terceiro. As top models de quatro patas podem ser do tipo Asayel – o camelo mais comum, cor de areia, considerado mais delicado – ou Majahim – o camelo cor de chocolate/negro, mais forte e selvagem.

Enquanto aguardam os juízes, os animais desfilam para um público de turistas, estudantes em visita escolar e, claro, potenciais compradores. A preparação dos camelos inclui escovação especial e o uso de acessórios brilhantes que misturam cores como vermelho, amarelo, rosa, dourado e prateado.

Para acompanhar a apuração dos resultados, donos dos camelos, seus familiares e fiéis escudeiros ocupam uma área V.I.P em frente aos cercadinhos onde eles desfilam. O camarote montado com cadeiras douradas fica lotado de homens – a repórter da RFI Brasil era a única mulher presente – vestidos de branco, com a Kandura, tradicional veste masculina local. Óculos modelo Ray-Ban, barba aparada, Ghutrah (lenço) e sandálias de couro branco ou preto completam o visual.

Na hora do resultado, narrado em árabe, a excitação é notória. A torcida bate palmas e quando é anunciado o vencedor lenços são jogados para o alto, muitos se abraçam e gritos ecoam, numa comemoração similar ao gol nos estádios de futebol. Todos correm para cumprimentar o proprietário com um beijo de nariz, tradicional no Golfo. Na cerimônia de premiação os ganhadores ostentam cheques gigantes com cifras de milhares de dirham, a moeda local.

Camelo vitorioso garante status

Muito mais que dinheiro, entretanto, vencer em Al Dhafra é uma questão de status. “Esperava o primeiro lugar”, diz com ar de decepção Hamdan Al Mazrouei, após ficar com a terceira posição no concurso de beleza com a premiada Muribah. “Não é pelo prêmio. Nos preparamos um ano para essa competição”, diz ele, que é de Madina Zayed.

A imprensa local dá grande espaço para o festival e tem até setoristas na cobertura, como a jornalista Anna Zacharias. Autora de um blog sobre o mundo dos camelos para o jornal The National, ela conta em seus artigos muitas curiosidades. Entre elas, a inexistência de seguro para o animal, que um camelo negro pode valer até 10 milhões de dirham (R$10,07 milhões) e que, como verdadeiras celebridades, eles têm perfil nas redes sociais e inspiram a composição de poesias e músicas.

Para aproveitar o movimento da cidade temporariamente formada por tendas em torno do festival, comerciantes instalam lanchonetes, barracas de frutas e até lavanderia nos arredores. O alfaiate paquistanês Rahmat Ali aproveita o festival para vender adereços para camelos que podem custar de 400 dirham (R$428) a 1 mil dirham (R$1.070). Além de Al Dhafra, onde trabalha das 7h à meia-noite, ele participa de outros três festivais similares por ano.

Ao fim do dia de competições, uma verdadeira entourage segue os camelos para a chamada Million Street. A rua é uma espécie de mercado a céu aberto no meio do nada. Ali dificilmente se encontra alguém que fale inglês. Vestidos com mantas brancas, os animais vencedores literalmente param o trânsito, seguidos lentamente por fãs, proprietários e potenciais compradores, que os assediam do alto de seus veículos 4x4. É possível ver rebanhos sendo levados para se exercitar e criadores tentando fazer negócio na rebarba do evento, uma realidade distante das cosmopolitas Dubai e Abu Dhabi.

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