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Trump: fim de tratado nuclear com Moscou visa pressionar China

Trump: fim de tratado nuclear com Moscou visa pressionar China
 
O presidente americano Donald Trump durante um encontro com eleitores no Arizona em 20/10/2018. REUTERS/Jonathan Ernst

A Guerra Fria está de volta. A administração Trump decidiu ressuscitar a mesma lógica de enfrentamento à beira do abismo Mas a Rússia de hoje está longe de possuir o mesmo poderio internacional do urso soviético. E desta vez, na linha de mira, o adversário é a potência emergente chinesa.

Donald Trump anunciou que vai rasgar o tratado FNI, assinado em 1987 entre Washington e Moscou, que proíbe a produção e instalação de mísseis nucleares terrestres de alcance intermediário (entre 500 e 5.500 quilômetros).

O pretexto é que os russos não respeitam mais o acordo e continuam testando um míssil nuclear de cruzeiro que pode ameaçar todo o continente europeu. E que chegou a hora dos Estados Unidos enfrentar a ameaça relançando a produção deste tipo de armamento.

À primeira vista, parece um “remake” dos anos 1980, quando Moscou posicionou os foguetes intermediários SS-20 para apavorar a Europa ocidental. E que os americanos revidaram instalando na Alemanha mísseis do mesmo tipo, os Pershing II.

O objetivo da então gerontocracia soviética era dividir os aliados europeus dos Estados Unidos com armas atômicas que poderiam ser usadas numa ofensiva, sem que elas ameaçassem também o território americano. A ideia era convencê-los que uma guerra nuclear limitada ao Velho Continente era possível, sem que americanos e russos pudessem ser atingidos diretamente.

Uma pressão pesada para que alguns países ocidentais – e particularmente a Alemanha – abandonassem a fidelidade à Aliança Atlântica e se aproximassem da União Soviética.

 Manobras polٌíticas simbólicas

 O tiro saiu pela culatra. Os americanos conseguiram convencer seus aliados a posicionar os Pershing II, que ameaçavam diretamente o território russo, e a URSS vivia seus últimos estertores. O tratado FNI de 1987 e o lançamento da “Guerra das Estrelas” pelo presidente Ronald Reagan, acabaram por apressar a vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria.

A economia soviética não tinha mais condições de manter uma corrida armamentista com a América. No frigir dos ovos, essa contabilidade macabra de mísseis atômicos não era mais do que manobras políticas simbólicas que encobriam um enfrentamento econômico.

A estratégia americana na Guerra Fria era, na verdade, um cerco econômico ao inimigo soviético que seria incapaz de aguentar a competição com o Ocidente. Hoje, Trump deixou claro que batota russa com os mísseis de cruzeiro era só um pretexto.

A China, que não é parte do tratado FNI, vem desenvolvendo e posicionando rapidamente esse tipo de arma para cobrir boa parte da Ásia-Pacífico – só os seus mísseis estratégicos de longo alcance ameaçam o território dos Estados Unidos. É uma maneira de tentar intimidar todas as forças americanas do Pacífico.

China na mira da Casa Branca

O objetivo dos hierarcas de Pequim é pressionar os países asiáticos vizinhos e estabelecer uma hegemonia regional à revelia do guarda-chuva de segurança americano. Daí a resposta da Casa Branca: sair do tratado FNI para poder, de novo, produzir e instalar foguetes de alcance intermediário, capazes de “conter” o avanço chinês. Mais uma vez, não se trata de guerra nuclear.

A administração Trump considera a China como o novo adversário principal, não só militar mas sobretudo econômico. A guerra comercial lançada por Trump contra a China é na realidade um cerco estratégico, como na época da Guerra Fria. E já começa a render dividendos: o crescimento chinês está freando e os problemas internos aumentando.

Em caso de corrida armamentícia séria, Pequim não tem condições de competir, por muito tempo, com uma economia americana em pleno boom e extremamente inovadora em matéria de alta tecnologia. O sucesso econômico chinês ainda depende muito do mercado americano e da tecnologia roubada na Califórnia.

Claro, os autocratas em Pequim e Moscou podem entrar em pânico com a perspectiva de serem, a prazo, mais uma vez vencidos pela arrogância da primeira potência mundial. Agora, com armas atômicas no meio, é só rezar para que nova Guerra Fria não acabe “esquentando”.


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