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Leila Daianis fala sobre seu trabalho de defesa das transexuais brasileiras em Roma

Por
Leila Daianis fala sobre seu trabalho de defesa das transexuais brasileiras em Roma
 
Leila Daianis mora na Itália há 40 anos e trabalha na defesa de transexuais brasileiras em Roma. Arquivo

Vivendo na Itália há mais de 40 anos, Leila Daianis escapou da ditadura no Brasil e concluiu seu percurso de transição de gênero na Europa. Após os primeiros anos no mundo do espetáculo, hoje Leila se destaca na defesa das transexuais brasileiras em Roma. Ela trabalha como mediadora cultural no projeto “Roxanne” da prefeitura da capital italiana para reduzir os danos a trabalhadoras do sexo. Leila e sua equipe saem às ruas, sobretudo à noite, para contatar e informar principalmente as transexuais brasileiras sobre deveres e direitos na Itália.

Por Rafael Belincanta, de Roma

“Tem muitas brasileiras que a gente contata. Estima-se que sejam cerca de 800, ou mais. Ultimamente, temos percebido que são pessoas muito jovens, a maioria vem do Nordeste ou então do interior do Rio de Janeiro e de São Paulo, poucas do Sul. A maioria das que trabalham na rua são brasileiras transgênero, cerca de 80%”, afirma.

A reportagem encontrou Leila na “Cidade da Utopia”, um espaço social que abriga diversas associações, dentre as quais a Libellula, na qual ela é voluntária desde 1998. Leila se preparava para dar uma aula de teatro a um grupo misto, do qual fazia parte ao menos uma transexual brasileira, ainda em fase de transição. De acordo com Leila, a maioria das pessoas que ela contata nas ruas são homens gays que se travestem à noite. Muitos deles gostariam de iniciar o percurso de transição de gênero na Europa, mas acabam caindo em redes de tráfico internacional atraídos por promessas ilusórias. Após os três meses de permanência como turistas, passam à condição de moradores ilegais, o que lhes torna reféns dos aliciadores e agrava o ciclo da prostituição, já que muitos evitam denunciar quem são os exploradores.

“Elas têm medo, elas não falam e às vezes estão envolvidas pessoas conhecidas ou parentes, ou então dizem que é uma amiga, que ela deve muito a essa amiga que deu a oportunidade dela vir para cá. A maioria delas não conta mas a gente sabe que elas têm uma dívida a se paga”, explica.

Informação sobre direitos

Parte do trabalho de Leila é informar as transexuais brasileiras que, mesmo ilegais, podem ter acesso a alguns serviços de saúde públicos. Além disso, ela também explica que existem quatro possibilidades que a Itália oferece para tutelar os direitos das pessoas transgênero.

“Eu acho que são pessoas muito frágeis que precisam de uma ajuda institucional. Elas podem perfeitamente pedir uma volta assistida para o Brasil por meio da Organização Internacional para a Migração (OIM). Outra possibilidade é denunciar, mas é muito mais difícil. É possível ainda pedir proteção internacional para a qual é preciso comprovar que você é perseguido, que você tem problemas na família, com a máfia. Essa não é muito aconselhada porque pode-se sim obter uma autorização de permanência por 5 anos, mas nesse período não é possível voltar ao Brasil. A última opção é a União Civil, permitida há um ano na Itália para pessoas do mesmo sexo”, elenca.

Violência de gênero

Crimes, drogas e violência são uma realidade para as transexuais brasileiras em
Roma e na Itália. Uma rápida pesquisa na internet e os principais casos de
assassinatos, por exemplo, vem à tona. Além da violência de gênero, Leila recorda que hoje cerca de 20 transexuais brasileiras cumprem penas nos presídios de Roma por diversos crimes, entre eles roubo e latrocínio.

Diante desse panorama, Leila faz um alerta às transexuais que pretendem vir à Europa. “Eu digo que elas deveriam pensar muito antes, não se deixar iludir, porque é tudo uma ilusão. Estando ilegal, então, tudo fica mais difícil”, adverte.
Recentemente, Leila foi convidada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) para promover uma formação temática específica sobre o direito das transexuais. Para ela, o convite foi um grande reconhecimento por seu trabalho junto às transexuais brasileiras em Roma.

“Fiquei emocionada primeiro de tudo por ver que [a causa] evoluiu muito no tempo. Quando eu saí do Brasil em 1977 ainda tinha a ditadura militar e quando eu pedi asilo político à Itália me disseram não porque as relações com o Brasil eram ótimas, era um país católico que aceitava as multinacionais. Aí eu me vi um pouco perdida. Então, hoje ao ver todas essas possibilidades, mesmo que não tenha uma ditadura, se bem que a gente não sabe o futuro amanhã, eu fiquei muito feliz e emocionada porque eu fiz uma formação para mais de 500 comissários. Inclusive, amigas que fazem a tradução no comissariado me disseram que a comissão mudou muito para com as transexuais, sobretudo pelo respeito que agora eles têm com as transexuais”.

Maioria brasileira

Fora das estradas, um levantamento interno realizado pelo “Escort Advisor” – o
maior site europeu de acompanhantes – para analisar o comportamento e perfil de usuários e clientes revelou que a maioria das garotas de programa, transexuais incluídas, que trabalham por chamada em Roma são brasileiras. Elas representam cerca de 21% do total. A maior parte de seus clientes, que pagam cerca de 90 euros por um programa, estão na região do Vaticano.


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