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Três anos depois de assinado, acordo climático de Paris está na UTI

Três anos depois de assinado, acordo climático de Paris está na UTI
 
Demora dos governos para adotar medidas contra o aquecimento global. Foto: vista aérea da cidade de Palu, depois da passagem do Tsunami. 29/09/18 Antara Foto/Muhammad Adimaja/via REUTERS

Mais uma terrível catástrofe natural. Milhares de mortos na ilha indonésia de Sulawesi. Um terremoto seguido por um enorme tsunami. A terra nessa região da Indonésia sempre tremeu. Mas esse nível de destruição só acontece uma vez por século.

O problema é que no mundo, o ano de 2018 bateu todos os recordes: furacões violentíssimos, inundações e incêndios apocalípticos, secas  trágicas, temperaturas jamais vistas, o nível dos oceanos transbordando, os polos derretendo, e a poluição do ar aumentando barbaramente. É como se a natureza tivesse decidido de se vingar da humanidade que a trata tão mal.

Nem tudo vem da mudança climática, mas quase tudo. E enquanto isso, os governos do planeta continuam protelando as decisões para combater o fenômeno. Pior ainda: muitos dirigentes – e até alguns cientistas de má fé – ainda negam que a Terra está ameaçada.

É verdade que o acordo internacional, assinado em 2015 no final da Conferência sobre o Clima na COP 21 em Paris, reconhecia que a mudança climática era uma realidade indiscutível. E que os países participantes concordaram com objetivo de limitar, até 2100, o aquecimento global a menos de 2 graus Celsius do que ele era antes da era industrial. Todos os pulmões, humanos, animais e vegetais do planeta, aplaudiram.

Até que enfim, alguma coisa ia ser feita. Só que três anos depois, os resultados continuam pífios. Se continuar desse jeito, os dois graus vão ser atingidos nos próximos anos e vai sobrar décadas para esquentar mais ainda, com consequências apavorantes para a humanidade. O Acordo de Paris ainda não faleceu, mas é claro que está na UTI.

Difícil consenso político

É como se existisse uma falha intransponível entre a consciência da urgência de enfrentar o perigo e a vontade política de fazer alguma coisa. Fica cada dia mais evidente que não será possível combater a mudança climática deixando tudo nas mãos dos governos.

A maioria dos dirigentes políticos não é deliberadamente suicida, mas ela tem que levar em conta a opinião e a pressão das populações que eles representam. Ora, o problema é que se a mudança climática é um desafio global, os seus impactos são locais. Cada catástrofe natural arrebenta com cidades, ilhas, praias, morros ou plantações em zonas bem definidas, deixando de lado o resto do território nacional.

E quem tem que pagar o pato, são as autoridades e populações afetadas, que invariavelmente pedem a ajuda aos governos e à solidariedade nacional. Em geral essa ajuda não vai muito longe porque os que não sofreram o desastre não sentem as consequências na pele. Quem no Brasil, na Europa, na China ou nos Estados Unidos está realmente preocupado com a violência do clima nas ilhas do Pacífico?

A dificuldade em aplicar os objetivos do Acordo de Paris é que isso significa claramente que todas as sociedades do mundo têm que mudar rapidamente as suas maneiras de produzir e consumir. Têm de mudar de vida. É uma metamorfose tão vasta que muitos vão ganhar e muitos vão perder. Vai ser difícil encontrar um consenso político que satisfaça todo mundo.

Portanto, não haverá jeito de enfrentar o desafio climático sem envolver nas decisões os poderes e representantes subnacionais e locais, os cidadãos, os empresários, os sindicatos, os acadêmicos, etc. É claro que as inovações tecnológicas são fundamentais para tratar a questão. Mas elas também só poderão vingar se houver acordo dos interesses econômicos e cidadãos.

Ninguém muda de vida sem saber para aonde vai. Só se o céu vier abaixo, mas aí já é tarde demais. O novo horizonte para responder à vingança justificada da natureza não é mais o da técnica ou o do discurso apocalíptico.

Chegou a hora de tratar o problema como um fato político – local, nacional e internacional – multiplicando iniciativas tomadas por todos. E os governos acabarão correndo atrás para chancelar os resultados.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Politicos de Paris, faz uma crônica de geopolitica às segundas-feiras para a RFI
    


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