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Mundo

Vizinhos da Croácia estão divididos entre admiração, inveja e desprezo pelo avanço na Copa

media Após vitória da Croácia, o zagueiro Domagoj Vida comemora com seu filho. REUTERS/Carl Recine

Países da antiga Iugoslávia, como Macedônia, Bósnia e Sérvia, estão acompanhando com fervor a epopeia do time da Croácia, finalista da Copa do Mundo da Rússia. A torcida, contra e a favor, fica divida entre a admiração, a inveja e o desprezo pela conquista dos croatas.

Antes de cada partida, um pensamento sempre ronda os nostálgicos dos “Brasileiros da Europa”, como eram chamados os jogadores iugoslavos, talentosos e individualistas: se a Iugoslávia fosse uma, imagine só que equipe dos sonhos seria, ponderam muitos torcedores vizinhos. Mas a Croácia mostrou que pôde sozinha chegar a uma final de um Mundial – algo que a Iugoslávia nunca conseguiu.

Ivica Osim, de 77 anos, foi técnico da equipe iugoslava em 1990, quando eles foram eliminados pela Argentina de Diego Maradona. No início dos bombardeios sérvios em sua cidade natal, ele pediu demissão e disse a jornalistas: “Espero que vocês se lembrem que venho de Saravejo”.

Hoje, de nacionalidade bósnia, Osim assiste com admiração os croatas apresentarem suas “qualidades individuais de forma coletiva”. Essa abnegação “não é um hábito em nossa cultura”, ele declarou ao jornal Jutarnji List.

Croácia sem uniformes

Nessa região marcada por conflitos entre comunidades nos anos 1990, que deixaram 130.000 mortos, torcer pela Croácia não é tarefa fácil, apesar da cultura e da língua em comum. Sobretudo no caso da Sérvia, cujo time foi eliminado na primeira fase.

Para citar um exemplo, no começo de junho, na periferia de Belgrado, um “mini campeonato” foi organizado por crianças de uma escolinha de futebol da capital sérvia. Havia para os meninos uniformes com cores para representar cada uma das seleções qualificadas, com exceção da equipe croata, que tinha apenas uma camiseta branca, sem nenhuma indicação.

O tenista Novak Djokovic, um ídolo na Sérvia, foi chamado de “idiota” por um deputado do partido de centro-direita, Vladimit Djukanovic, após ter demonstrado uma simpatia pelos croatas. “Torcer pela Croácia, ele não tem vergonha? Há vários sérvios que o veneram e ele quer torcer pelo país que os expulsaram?”, disse o político.

O presidente sérvio, Aleksadar Vucic, por sua vez, afirmou: “Eu torci pela Rússia, estou em meu direito. A Sérvia é uma sociedade democrática e cada um pode torcer para quem quiser”.

Copa de 2018 serviu para unir a região conflituosa

Apesar do desprezo demonstrado por figuras públicas do país, há vários sérvios que assistem com admiração o percurso dos vizinhos croatas. “Parabéns, de todo meu coração!”, comentou um usuário da internet no site da televisão do Estado sérvio. “Nossos jogadores e a Federação poderiam ao menos pedir aos croatas para nos ensinar a jogar futebol”, ironizou um outro.

O comentarista esportivo da antiga Iugoslávia, Milojko Pantic, mais uma criticado por torcer pela Croácia, desenhou dois contextos: de um lado, a “Sérvia cidadã”, que está do lado dos croatas, e do outro a “Sérvia nacionalista e chauvinista”, que sonha em ver a Rússia destruir a equipe.

Na Macedônia, a Croácia também tem a simpatia da maioria dos torcedores, ainda que a direita nacionalista preferia ver os russos com a taça. “Parabéns, Croácia! A política, o esporte, nossa região e o mundo se reencontraram hoje à noite”, tuitou na quarta-feira (11) o primeiro-ministro da Macedônia, Zoran Azev.

Na Bósnia, onde 15% da população é croata, a equipe recebeu grande torcida. O cientista político bósnio Zoran Kresic estima que o apoio ao time da Croácia vai além do aspecto esportivo e que o percurso dos jogadores “uniu a região e a Bósnia pela primeira vez desde as guerras sangrentas”. Para ele, o fervor provocado pela Copa é prova de uma evolução das relações entre croatas, bósnios e sérvios.

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