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Diminuição da censura faz vida cultural renascer em Bagdá

Diminuição da censura faz vida cultural renascer em Bagdá
 
Reportagem traz foto em bar de Bagdá, onde moças e rapazes se divertem ouvindo bandas musicais Reprodução / Le Monde

A revista M do jornal francês Le Monde traz em sua edição desta semana uma longa reportagem sobre as mudanças recentes registradas em Bagdá. O texto relata como a capital iraquiana tem se transformado aos poucos, com alguns lugares culturais abertos recentemente, aproveitando uma redução da censura da parte do governo, muito mais preocupado com a luta contra o grupo Estado Islâmico (EI).

A expansão do grupo terrorista em um terço do território iraquiano, em junho de 2014, acabou tendo um resultado inesperado, explica a revista. “Como as milícias xiitas foram enviadas ao front e os censores estavam ocupados com outros assuntos mais urgentes, dezenas de iniciativas culturais nasceram e se desenvolveram”, relata o texto, que lista a presença de cafés literários, editoras, escolas de cinema e até casas de show em Bagdá.

“A rua Karrada-Dakhil é uma das vitrines desse renascimento”, conta a reportagem, que descreve a animação nessa longa avenida até altas horas, graças a pequenas lojas de roupas, casas de câmbio, restaurante e camelôs, mas também cafés culturais, como o Gawa wa-Kitab. Mais recente inauguração dessa nova fase do bairro, esse café-livraria é um dos pontos de encontro preferidos dos estudantes e jornalistas da capital iraquiana. “Entre as mesas, rapazes conversam com os olhos grudados em seus smartphones, alguns deles acompanhados por moças, muitas vezes sem o véu islâmico cobrindo a cabeça”, descreve o texto.

Em alguns momentos a reportagem é construída com o tom de guia de turismo, apresentando as regiões mais badaladas da cidade. É o exemplo da rua Moutanabi, que leva o nome de um dos mais famosos poetas árabes. “A via é fechada para a circulação de veículos nas manhãs de sexta-feira e se torna uma grande feira de livros e bibelôs, além de acolher shows musicais e leituras de poesia às margens do rio Tigre”, descreve.

Entrevistado pela revista, o dono de uma livraria em um dos bairros da moda diz que as vendas não param de crescer, o que é um bom sinal. “Existe uma margem de liberdade limitada, mas ela existe”, festeja. Segundo ele, “não há mais censura governamental, nem repressão como durante a época de Saddam Hussein, mas a influência das milícias armadas e dos partidos islamistas ainda suscita preocupação”, pondera.

O texto também lembra que algumas limitações persistem. O dono de um dos cafés, que organiza vários shows, explica que o local não serve bebidas alcoólicas e que as bandas se apresentam relativamente cedo, entre 18h e 20h. Segundo ele, o objetivo é atrair uma clientela composta por famílias, mas também por mulheres sozinhas, que raramente saem de casa à noite no país.

De acordo com o texto, essa nova classe cultural começa a ter uma certa influência na população, o que não deixou de ser notado pelos políticos, principalmente com a aproximação da eleição legislativa de 12 de maio. Prova disso, os programas dos candidatos este ano fazem cada vez mais promessas visando os jovens eleitores e falam cada vez menos de religião, constata a reportagem da revista M.


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