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Mundo

"O antissemitismo está cada vez mais latente na Europa", diz sobrevivente do Holocausto

media O sobrevivente do Holocausto Walter Bingham, de 94 anos. Daniela Kresch

Às 10h em ponto (horário local) desta quinta-feira (12 de abril), os israelenses fizeram um minuto de silêncio pelo Dia do Holocausto (Yom Hashoá) em lembrança aos seis milhões de judeus mortos pelo regime nazista. Em Jerusalém, o jornalista Walter Bingham também parou. Mas ele não escutou histórias da Shoá através de livros ou filmes. O radialista de 94 anos, nascido em 1924 com o nome de Wolfgang Billig em Kalsruhe, na Alemanha, viveu na pele as agruras da guerra.

Daniela Kresch, correspondente da RFI em Israel

Bingham passou a infância sob as cada vez mais discriminatórias leis nazistas contra judeus. Às vésperas da guerra, conseguiu fugir para a Inglaterra, onde se alistou no exército britânico, recebendo uma medalha por “Bravura no Campo de Batalha” dos ingleses e outra, a prestigiosa “Legião de Honra”, dos franceses. Em 1945, descobriu que seu pai morrera de epidemia e inanição no Gueto de Varsóvia. Sua mãe, por sorte, sobreviveu ao campo de extermínio de Dachau, mesmo que com traumas profundos.

Depois da guerra, Walter interrogou prisioneiros nazistas como o ex-chanceler alemão Joachim von Ribbentrop. Mas decidiu deixar a farda e se tornar jornalista. Em 2017, recebeu o título de “Radialista mais velho do mundo” do Livro Guinness. Morando em Israel desde 2004, Walter concedeu a seguinte entrevista à RFI:

RFI – O que o senhor lembra da infância na Alemanha sob governo nazista?

WALTER BINGHAM – Claro. Quando os nazistas tomaram o poder, em 1933, eu tinha 9 anos. Antes de Hitler, eu era apenas mais um dos meninos da escola. Jogava bola com todos os outros. Assim que Hitler foi eleito, senti as coisas mudarem. Quando se fala de bullying, hoje, não dá para comparar com o que eu sofri. Batiam em mim, me davam chutes. Faziam o que queriam comigo. As crianças eram educadas em casa por pais que apoiavam o regime.

E os professores não faziam nada?
Não reagiam. Com o passar do tempo, foi piorando. Um menino alemão sempre copiava de mim nas provas. Ele passou a receber ótimas notas e eu, péssimas. Afinal, meninos judeus não poderiam tirar notas maiores do que os “arianos”. As professoras não me deixavam responder a perguntas quando eu levantava a mão. Um dia me mandaram sentar no fundo da sala de aula. Até que expulsaram todos os judeus da escola.

Como tudo isso era justificado?

Tínhamos aula de “Educação racial”, quando especialistas ensinavam como a raça alemã era superior. Eles mediam os narizes com réguas e outros instrumentos. Minha prima contou que, na sala dela, pediram para uma menina de tranças louras e olhos azuis se aproximar, dizendo que ela era obviamente da raça superior. Mal sabia o “especialista" que a menina era judia.

Seus pais não pensavam em deixar o país?

Pensavam, mas não era fácil. Era caro e poucos países recebiam judeus. Além disso, ninguém pensava que os nazistas chegariam a ponto de matar pessoas em fornos. Havia 500 mil judeus na Alemanha, só 1% da população. Mas todos conheciam um “bom judeu”. Ao meu pai diziam: “Nada vai acontecer com você”.

Quando a situação começou a piorar?

Foi ficando pior aos poucos. Em 1933, começaram a boicotar lojas judaicas. Quem comprava era taxado de traidor em público. Em 1935, com as Leis de Nuremberg, médicos judeus não podiam mais tratar alemães e vice-versa. O mesmo com advogados. Os judeus eram proibidos de ir a restaurantes, cinemas, etc. Livros de autores judeus tinham que ser enviados para lugares específicos para serem queimados em grandes fogueiras. Eu presenciei uma delas.

A população alemã colaborava com isso?

Toda a população da minha cidade apoiava os nazistas. Estavam felizes com o “Fuhrer”, que deu a eles pão e trabalho, melhorou a economia e resgatou o orgulho ferido dos militares.

Como o senhor conseguiu fugir da Alemanha?

Fui escolhido para o Kindertransport (esforço do governo britânico e de grupos judaicos de retirar 10 mil crianças da Alemanha, Polônia e outros países ás vésperas da guerra). Depois, me alistei no exército britânico. Não lutava por uma pátria, por que não tinha uma. Lutava contra os nazistas. Fui treinado como motorista e acabei nas praias da Normandia evacuando feridos em ambulância durante o fogo cruzado.

E depois da guerra, como foi reencontrar sua mãe?

Foi o momento mais emocionante da minha vida. Foram seis anos de separação. Um dia, depois do reencontro, a visitei e percebi que ela guardava dezenas de potinhos com comida velha e podre. Tinha medo de passar fome de novo. Eu mesmo fiquei com paranoia. Abri contas bancárias em cinco países só para o caso de estourar outra guerra.

O sobrevivente do Holocausto Walter Bingham exibe a medalha da Legião de Honra recebida do governo francês. Daniela Kresch

O senhor sente gratidão por ter sobrevivido?

Agradeço a Deus por ter me dado o que eu tenho, me mantido saudável física e mentalmente. Todas as manhãs agradeço por estar vivo, rezo e digo a mim mesmo 'feliz aniversário", porque nasço novamente todos os dias.

O senhor acho que um novo Holocausto pode acontecer?

Para mim, é como se estivéssemos revivendo a década de 30 do século passado. Vejo as coisas com muito pessimismo. O antissemitismo está cada vez mais latente na Europa. Na Alemanha, na Inglaterra, na França, na Hungria... Vem junto com racismo contra imigrantes e outras minorias. Se não fizermos algo agora, só vai piorar.

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