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Mundo

50 anos da Primavera de Praga: o sonho comunista sob os tanques de Moscou

media Moradores de Karlovy Vary carregando uma bandeira da Tchecoslováquia tentam deter um tanque soviético em 21 de agosto de 1968, quando a invasão liderada pelos soviéticos pelos exércitos do Pacto de Varsóvia esmagou a chamada reforma da Primavera de Praga. UPI / AFP

Janeiro de 1968. Mesmo se as insurreições de Maio na França ainda estivessem sendo gestadas no centro da sociedade civil, uma república do leste europeu prepara a eclosão de seu ovo da serpente revolucionário: a Checoslováquia de Alexander Dubček, que acabava de se tornar o novo primeiro-secretário do Partido Comunista local. Reformista, ligado a intelectuais como o escritor Milan Kundera e o futuro presidente, o dramaturgo Vaclav Havel, ele deseja instaurar um “socialismo com rosto humano”.  Antes de serem esmagadas pelos tanques do Pacto de Varsóvia, sob o comando de Moscou, Dubček anunciava, há exatos 50 anos, em 5 de abril de 1968, as mudanças da Primavera de Praga, que fizeram sonhar não apenas toda uma geração de tchecos, mas intelectuais, estudantes e trabalhadores de todo o planeta.

“Todos os cidadãos mais velhos se lembram exatamente onde estavam em 21 de agosto de 1968, quando os tanques de Moscou tomaram Praga de assalto”, lembra Alexis Rosenzweig, correspondente da RFI na capital da Checoslováquia. Não é para menos: a repressão russa não apenas mitigou um movimento ilustrado, apoiado por intelectuais e estudantes, mas também defendido por campesinos e população ao longo do país. Sob o olhar de uma Europa chocada, os tanques do Pacto de Varsóvia marcharam sobre o sonho de um “comunismo humanista”, livre do peso dos grilhões soviéticos.

A história da Primavera de Praga começa, no entanto, com a chegada do novo secretário do Partido Comunista da Checoslováquia, Alexander Dubček, que decide abolir a censura, autoriza as viagens ao estrangeiro e chega até a prender o chefe de polícia do antigo regime. Quando Dubček ascende ao poder, a Checoslováquia era percebida como um Estado autoritário, dirigido pelo impopular stalinista Antonín Novotný, ligado a Moscou. Durante sete meses e meio um vento de liberdade sopra sobre a Checoslováquia: escritores considerados subversivos pelo regime soviético são libertados da prisão e o Partido Comunista passa a aceitar a participação de membros não ligados a seu círculo ideológico.

Não foi apenas no campo político que Dubček fez mudanças. O Estado passa a ter mais tolerância em relação à Igreja Católica e, no campo econômico, as empresas passam a ter mais autonomia, numa economia então completamente planificada. O primeiro-secretário não acreditava, no entanto, que as medidas pudessem contrariar a cúpula do Partido Comunista em Moscou e provocar a violenta reação russa.

“Foi um momento terrível para todos os europeus”, lembra o jornalista René Bachmann, em entrevista à RFI. “Um povo que acreditava que alcançaria a liberdade é esmagado no momento em que achava que sairia do túnel", afirma.

Primavera de Praga foi "atmosfera revolucionária"

“Não tenho o sentimento de que a Primavera de Praga tenha sido um momento triste de nossa história recente. Muito pelo contrário, tenho a lembrança de uma solidariedade absoluta entre cidadãos que cooperaram para enfrentar os soviéticos, para conversar com eles, uma vez que todos falávamos russo. Era uma atmosfera revolucionária que eu nunca mais vi depois, nem mesmo durante a Revolução de Veludo. Até abril de 1969, a Checoslováquia viveu um momento de liberdade de expressão, de imprensa, que não conhecemos nem mesmo hoje”, diz o ex-dissidente tcheco e jornalista Petr Uhl, em entrevista à RFI.

“Eu me lembro de reformas progressistas, que aconteceram não no contexto de uma democratização, mas de uma espécie de liberalização. Muita coisa mudou, no setor trabalhista, da Cultura, da Ciência, foi muito importante do ponto de vista social, até 1968, quando o Partido Comunista foi atingido por uma crise política interna e tentou resolvê-la, mudando sua direção. Foi um movimento que aconteceu no coração do partido, a partir de seus membros nas grandes escolas, nas universidades, nas redações dos jornais, os artistas, escritores, pesquisadores e mesmo dentro do aparelho do partido”, lembra Uhl.

“Uma enorme tristeza”: testemunhos sobre o fim da Primavera de Praga

Turistas franceses na Checoslováquia relembram o momento em documentos de arquivo do INA, o Instituto Nacional do Audiovisual francês, datados de 1968: “Minha lembrança mais marcante é na praça principal, a praça mais antiga de Praga, onde estavam os tanques russos, e as pessoas cercavam os tanques, conversavam com os soldados russos, perguntavam porque eles estavam lá e o que estavam fazendo”, conta uma das testemunhas oculares.

“Do lado da praça em que estávamos, não houve fuzilamentos. Escutamos disparos de metralhadora. Era por volta de 10h, Praga parecia calma, mas havia tanques russos em todos os lugares, principalmente fechando as pontes. Quando quisemos deixar a cidade, as estradas estavam bloqueadas. Foram os tchecos que nos mostraram uma trilha por onde escapamos, nos juntando a uma caravana de carros estrangeiros”, detalha o turista francês sobre os eventos de 21 de agosto de 1968.

“Atravessamos vilarejos onde havia bandeirolas em todos os lugares e dizeres como ‘Viva Dubček’ e ‘Queremos Dubček livre’. Também coisas como ‘Voltem para seus países’, em todas as línguas, mas especialmente em russo. Eles diziam que queriam viver em paz e que a Tchecoslováquia continuaria um país livre”, relata a testemunha, logo após voltar à França, durante uma entrevista.

Uma outra turista francesa, também interpelada pela imprensa em seu retorno, conta que viu operários na porta de uma usina que pareciam “bem decididos”. “Tememos pelos tchecos em Praga, que não parecem voltar atrás, de um possível enfrentamento com os tanques russos, nas portas da cidade. A lembrança que guardo é de uma enorme tristeza. Não esquecerei jamais o rosto de algumas pessoas que vi, jovens e mesmo mais velhos, foi muito doloroso”, declarou, em 1968.

Para o jornalista da rádio France Inter e especialista no Leste Europeu, Bernard Guetta, "o efeito positivo que ficou da Primavera de Praga, depois da queda do Muro de Berlim, foi a eleição de Vaclav Havel, que, com o prestígio que tinha, conseguiu realizar a separação entre Eslováquia e Checoslováquia sem conflitos, apesar da enorme tensão. Além disso, não sobrou absolutamente nada deste episódio no país. A União Soviética conseguiu quebrar definitivamente o sonho de um socialismo democrático. E isso abriu o caminho para que a direita tomasse o poder. Para as novas gerações tchecas, a Primavera de Praga não passa de um episódio histórico do passado que todos querem esquecer".

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