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Todos os ingredientes estão reunidos para uma outra guerra na Síria

Todos os ingredientes estão reunidos para uma outra guerra na Síria
 
Ofensiva turca no norte da Síria, o começo de uma nova guerra no Oriente Médio REUTERS/Osman Orsal

As forças armadas turcas invadiram a região de Afrin no norte da Síria. O objetivo oficial é estabelecer rapidamente uma zona-tampão na fronteira contra a presença dos curdos das Unidades YPG, apontados pelos turcos como “terroristas”. Mas a verdadeira finalidade é atacar os curdos sírios ao longo de toda a fronteira sul da Turquia.

Ancara decretou que o YPG é só o braço armado do partido curdo turco, o PKK, considerado o inimigo mais perigoso do Estado turco. E que uma região norte da Síria controlada e administrada pelos curdos é intolerável. Bem vindos ao começo de uma nova guerra no Oriente Médio.

O califado terrorista dos jihadistas do dito “Estado Islâmico” está sendo derrotado. O que não quer dizer que terminou a ameaça. Os terroristas islâmicos vão voltar a criar redes de terror, conectadas por internet, ainda com capacidade de perpetrar atentados sangrentos. Mas para as grandes potências, mundiais e regionais, a questão principal hoje é como organizar o futuro da Síria, e quem vai controlar o país. E claro, não há consenso.

O tabuleiro é extremamente complexo. Atualmente, o regime de Bashar Al Assad controla boa parte das regiões ocidentais, mas não todas. E mesmo assim, só consegue se manter graças ao apoio dos bombardeiros russo, dos soldados do partido xiita libanês – o Hezbollah – e das milícias xiitas enquadradas por oficiais iranianos.

No noroeste, ainda existem bolsões do que sobrou da resistência democrática sunita ao regime sírio, misturada com grupos islâmicos radicais, e apoiados pela Turquia sunita. Ancara não quer saber de deixar a Síria sob controle das tribos alauitas ligadas a Bashar Al Assad. E ao mesmo tempos também pretende acabar com a presença dos curdos do YPG em todo no nordeste sírio.

Recep Tayyip Erdogan está portanto entrando num vespeiro. O regime de Damasco, vem tentando reconquistar as regiões que ainda estão nas mãos do aliados sírios da Turquia, com o apoio da aviação russa. Não vai ser fácil reagir sem arriscar um conflito com Moscou.

Quanto aos curdos, eles são hoje os principais aliados dos americanos e da coalizão ocidental. E são eles que estão na primeira linha dos combates contra o Estado Islâmico. Washington até anunciou que quer criar uma força bem treinada de 30.000 combatentes curdos.

Um pequeno exército dito “fronteiriço” que também serviria para garantir a presença permanente dos americanos no país, para não entregar a Síria de bandeja para a Rússia e o Irã. A Turquia não pode aceitar essa perspectiva mas, sendo membro da OTAN, também não pode entrar em guerra contra os Estados Unidos. Qualquer passo em falso pode ser catastrófico.

Mas os turcos não são a única potência regional interessada. O Irã conseguiu realizar o seu velho sonho de construir um verdadeiro “corredor” para transportar armas e homens, que vai da fronteira iraniana com o Iraque até as praias libanesas controladas pelo o seu fiel cliente Hezbollah, e passando por todo o sul do território sírio.

Perigo para Israel

Só que essa robusta presença na Síria é um perigo mortal para Israel, que já anunciou que não vai tolerar, e até já começou a bombardear colunas de transporte de armas e tentativas iranianas de estabelecer bases fixas no sul da Síria. Acrescente-se a esse imbróglio, o fato de que a Arábia Saudita, inimiga figadal de Teerã, não pode aceitar uma hegemonia iraniana no Oriente Médio. Portanto, estão reunidos todos os ingredientes para uma outra guerra na Síria, ainda mais perigosa do que as operações contra os jihadistas.

Desta vez, será um conflito entre grandes Estados, diretamente engajados por meio de seus aliados e clientes locais. Com tantas peças no tabuleiro e tantas alianças instáveis, o jogo tem muita chance de acabar muito mal para todo mundo, mas sobretudo para a própria Síria, cuja metade da população (10 milhões de pessoas) está hoje refugiada ou exilada.


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