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Para Hamas, decisão de Trump sobre Jerusalém abre "portas do inferno"

Para Hamas, decisão de Trump sobre Jerusalém abre
 
O líder do Hamas, Ismaïl Haniyeh, convocou os palestinos nesta quinta-feira (7) a realizarem uma nova intifada. REUTERS/Mohammed Salem

Quebrando uma tradição de quase 70 anos, o presidente americano, Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira (6) que sua administração reconhece Jerusalém como capital de Israel - uma decisão que está sendo extremamente contestada no Oriente Médio. Para o grupo islâmico Hamas, os Estados Unidos abriram "as portas do inferno". 

Daniela Kresch, correspondente da RFI em Israel

As reações no mundo árabe também não demoraram a surgir. Houve protestos em frente à embaixada americana no Líbano e na Turquia.

O grupo islâmico Hamas, que controla a Faixa de Gaza, considerou que a decisão de Trump “abriu as portas do inferno”, em uma clara alusão a protestos que podem se tornar violentos. Em um discurso em Gaza na manhã desta quinta-feira (7), o líder do grupo,  Ismaïl Haniyeh, mencionou a organização de uma nova intifada "diante do inimigo sionista".

Já o presidente palestino, Mahmoud Abbas, rejeitou o discurso de Trump, afirmando que ele afastará ainda mais a solução de “dois Estados para dois povos” na região. Abbas acredita que o anúncio vai encorajar a construção de assentamentos israelenses em territórios palestinos e que, acima de tudo, colocará um fim na posição dos Estados Unidos como mediadores do conflito entre israelenses e palestinos.

O presidente libanês, Michel Aoun, afirmou que a decisão ameaça a estabilidade regional. No Catar, o chanceler local disse que a medida seria uma “sentença de morte para a paz”.

O alerta de segurança em Israel foi elevado ao méximo por temor de confrontos e atentados. A expectativa é a de que haja confrontos em Jerusalém Oriental nesta quinta e sexta-feira (8), quando a liderança palestina marcou um “Dia de Fúria” contra a decisão americana.
 
Nenhum aceno aos palestinos
 
O tom de Trump foi de apoio e elogio a Israel. Mas o presidente americano também fez questão de deixar claro que sua decisão não reflete o fim do compromisso dos Estados Unidos com a mediação de um acordo de paz entre israelenses e palestinos.
 
Ele garantiu que não está escolhendo lados sobre nada que tenha relação com a negociação das fronteiras entre Israel e a Palestina – incluindo aí, ao que tudo indica, as fronteiras da própria Jerusalém.
 
O presidente americano não usou, por exemplo, a expressão “Jerusalém unificada”, que o governo israelense adotou pouco depois da Guerra dos Seis Dias, há 50 anos, quando tomou o controle da parte oriental da cidade da Jordânia.
 
Na prática, Trump deixou em aberto a possibilidade de que haja uma negociação para que Jerusalém Oriental seja capital de um Estado palestino. Isso certamente não agradou a direita israelense nem o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

No entanto, o premiê preferiu ignorar esse detalhe e divulgou um vídeo de agradecimento a Trump. Netanyahu classificou a decisão do presidente americano de histórica e corajosa e apelou ao outros países para que também transfiram suas embaixadas para Jerusalém.
 
Anúncio polêmico

Trump cumpriu uma promessa de campanha que poucos acreditavam que levaria adiante. Depois de alguns dias de boatos e informações não confirmadas, Trump fez um discurso no qual disse que chegou a hora de reconhecer Jerusalém como capital de Israel, algo que todos os presidentes americanos antes dele não fizeram desde a criação do país, há quase 70 anos.
 
Trump ainda afirmou ainda que vai pedir ao Departamento de Estado americano que comece as preparações para transferir a embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém.
 
Atualmente, todos os países com relações diplomáticas com Israel mantêm embaixadas em Tel Aviv porque não reconhecem Jerusalém como capital. Trump alegou, no entanto, que a cidade é, na prática, a sede de Israel, onde ficam o Parlamento, a Suprema Corte e onde moram o primeiro-ministro e o presidente.
 
A transferência pode levar mais de três anos, já que é preciso construir uma nova embaixada, fazer arranjos de segurança e transferir toda os diplomatas e funcionários de uma cidade para outra. Há quem diga que tudo pode levar até mesmo dez anos. Ou seja, a mudança de sede diplomática acabaria ficando para o próximo presidente americano, caso não seja revogada antes.
 
Quem ganha e quem perde 
 
Tudo o que tem a ver com Jerusalém é muito sensível e potencialmente explosivo. A Cidade Santa para cristãos, muçulmanos e judeus é palco de disputas há 3 mil anos.
 
Para os judeus, é a cidade onde os reis bíblicos viveram e construíram templos sagrados. Para os cristãos, onde Jesus foi cruficificado e ressuscitou. Para os muçulmanos, o local do sonho de Maomé em que subiu aos céus em seu cavalo.
 
Atualmente, Jerusalém é o ponto nevrálgico do conflito entre israelenses e palestinos. Há 70 anos, quando tentou solucionar esse conflito, que já existia, a ONU decidiu que a cidade seria internacionalizada, quer dizer: não seria nem de judeus e nem de árabes. É por isso que todos os países mantêm embaixadas em Tel Aviv.
 
No entanto, a decisão da ONU nunca saiu do papel. Depois de diversas guerras, Israel controla a cidade, mas ela é, na prática, dividida entre o lado ocidental, judaico, e o oriental, árabe. Ao reconhecer Jerusalém como capital de Israel, os Estados Unidos tomam partido em prol de Israel e frustram os palestinos. Agora é esperar para ver como isso vai afetar a geopolítica da região.


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