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"Clima na Coreia do Norte é de relativa normalidade", diz diplomata brasileiro Cleiton Schenkel

 
Cleiton Schenkel, diplomata brasileiro em Pyongyang. Arquivo pessoal

Com o aumento das tensões entre Estados Unidos e Coreia do Norte, o mundo inteiro se pergunta se há de fato a possiblidade de um novo conflito na península coreana. E é difícil saber exatamente quais serão os próximos passos do regime do ditador Kim Jong Un. A Coreia do Norte é considerada o país mais fechado do mundo. Pyongyang mantém relações diplomáticas como apenas 24 países, entre eles o Brasil. O diplomata Cleiton Schenkel, encarregado de negócios da Embaixada do Brasil na Coreia do Norte, mora em Pyongyang há quase um ano e meio com a mulher e o filho, e diz que o clima na capital é de "relativa normalidade".

Reportagem de Vivian Oswald, correspondente da RFI em Pequim

RFI: Diante de tanta tensão e troca de provocações, como está o clima em Pyongyang? É vida normal?

Cleiton Schenkel: O clima na cidade é de relativa normalidade. Entre os locais, a gente não consegue observar uma diferença de atitude mais marcante agora, por exemplo, do que a que eles tinham há alguns meses. Já entre os membros da comunidade diplomática, claro, a gente consegue ver uma certa apreensão, e isso se reflete muito no aumento dos contatos, as pessoas trocam percepções, mas não chega a ser mais do que isso, mais do que uma apreensão. Muitas vezes, a gente tem a impressão de que a mídia internacional, pinta um quadro um pouquinho mais tenso do que é, do que a gente observa quando está aqui dentro.

RFI: Uma curiosidade: o que as pessoas fazem para se divertir aí?

CS: Bom, a respeito de diversão, é importante dividir entre os locais e os estrangeiros. Sobre s lugares frequentais pelos locais, a gente vê basicamente o mesmo tipo de diversão que veria em outros países, com algumas poucas peculiaridades. A cidade de Pyongyang tem muitos parques, parque de diversão, um calçadão ao longo do rio Taedong, onde a gente vê as pessoas caminhando, principalmente agora no verão, nos fins de semana. Quanto aos estrangeiros, ainda que a gente possa transitar na cidade, a gente sabe que as peculiaridades do país fazem com que a gente tenha menos interação. Então, os estrangeiros tendem a viver um pouco mais confinados. Não que não possam sair dos bairros diplomáticos, mas eles vivem basicamente dentro da comunidade, que é pequena. Então, as pessoas fazem jantares e se encontram muito. Existem um clube diplomático, muito bem estruturado, com piscina, com restaurante. Então, a comunidade internacional tende a se reunir nesses lugares.

RFI: Imagino que sozinho na Embaixada você tenha muito trabalho, mas o que você a sua família fazem nas horas vagas?

CS: Pessoalmente, eu tenho um filho pequeno, um bebê, na verdade, e eu passo bastante tempo em casa. E a gente acaba trazendo um pouquinho do Brasil para dentro da própria casa. Minha diversão é assistir a futebol, assistir a filmes, tomar chimarrão. As coisas que faria também na maioria dos outros lugares e também no Brasil.

RFI: Tem cinema aí? Quem vai?

CS: Sim, tem alguns cinemas. Alguns inclusive com uma boa estrutura, mas, nesse caso, a gente vê que as apresentações se dirigem só para o público interno mesmo, principalmente pela questão da língua. Os filmes não têm legenda em inglês. É bom ressaltar que Kim Jong Il, o pai do atual líder, era um cinéfilo. Muitas produções foram feitas localmente durante o período em que ele estava à frente do país. Outra informação interessante neste caso é que a Coreia do Norte tem um festival internacional de cinema, que é realizado a cada dois anos. Em 2014, pela primeira vez, um filme brasileiro inclusive foi apresentado durante o festival.

RFI: As tensões recentes entre americanos e norte-coreanos voltaram a crescer e aumentaram os riscos de uma guerra na região. Qual a sua avaliação sobre a possibilidade de um conflito?

CS: Sem dúvida a situação é sensível, e as ameaças que foram feitas são muito sérias e existe, então, uma possibilidade de um conflito. Mas, por outro lado, a gente sabe que as estimativas são de que, caso ocorra este conflito, as consequências serão tão devastadoras que ele acaba sendo improvável. Essa é a percepção que quase todos compartilham, de que, cedo ou tarde, as partes vão ter de chegar a uma solução diplomática para resolver este problema.

RFI: Como os norte-coreanos veem o que está acontecendo? Como veem os Estados Unidos, a Coreia do Sul e a China?

CS: De maneira geral, os norte-coreanos veem tudo isso que está acontecendo com uma certa naturalidade. Afinal de contas, apesar dos momentos de maior ou menos tensão, a hostilidade do país deles com o Estados Unidos é de longa data, não chega a ser novidade. Além do mais, é importante a gente verificar neste caso que eles tendem a ver o mundo pelo prisma que lhes é passado pelos meios de comunicação. Esses meios refletem a posição do governo, que é de muita confiança na capacidade deles de lidar com o problema. Sobre a relação da Coreia do Norte com cada um dos países envolvidos, é bom a gente ressaltar, de início, que o grande inimigo do país são os Estados Unidos. Então, sempre que existe uma mensagem mais forte, mais agressiva, ela é dirigida aos Estados Unidos. Sobre a relação deles com a Coreia do Sul, a gente vê que, muitas vezes, eles criticam o governo. Isso era mais verdade até mais em relação ao governo anterior do que a este que iniciou em maio. Então, eles dizem que as autoridades sul-coreanas são subservientes aos Estados Unidos e não agem com independência. Mas, sobre os sul-coreanos em geral, muitas vezes, a gente vê eles se referirem como “os nossos irmãos do sul”. É diferente o grau de hostilidade. Sobre a China, essa, sim, é importante a gente qualificar, porque muitas vezes, principalmente a mídia internacional coloca rótulos que não são exatamente precisos. É bem verdade que, num passado mais recente, os países foram aliados, isso se refletiu principalmente na Guerra da Coreia, quando os chineses lutaram aqui e até mesmo o filho do Mao Tse Tung morreu durante a Guerra da Coreia. Mas, por outro lado, se a gente for verificar por uma perspectiva histórica um pouco mais ampla, vamos ver que muitos norte-coreanos veem os chineses como um país que tentou impor relações imperiosas e de vassalagem. Então, é sempre importante ter em mente essas nuanças quando formos verificar a forma como é qualificada relação da Coreia do Norte com a China.

RFI: No início deste mês, o Conselho de Segurança da ONU aprovou outra resolução com novas sanções à Coreia do Norte. Como essas restrições afetam o país?

CS: Essa questão das sanções é bem complexa. A avaliação sobre a sua efetividade, ela depende muito de um exame um tanto quanto subjetivo sobre a forma como está sendo aplicada, sua eficácia, seu impacto no país. A gente tem que levar em conta que, desde 2006, já existem sanções multilaterais sendo aplicadas ao país, e elas têm sido apertadas gradualmente. Então, teria que fazer uma análise comparativa com o que era antes e depois de cada sanção. Isso é realmente um pouco difícil. O que eu posso dizer é que, para nós estrangeiros aqui, nós não podemos fazer compras em qualquer supermercado. Então, aí já teria o primeiro desafio para verificar qual o impacto na oferta. Nos mercados, nos poucos mercados que nós costumamos frequentar, a gente não observa falta de produtos. Por outro lado, tampouco existe abundância. Não é como um mercado que vemos na maioria dos países ocidentais em que, para cada tipo de produto tem duas ou três marcas, dois ou três tipos. Aqui, normalmente, essa oferta é bem limitada. Mas não faltam produtos. Por isso, é difícil a gente verificar. Além do mais, também, é bom ressaltar que a China costuma frisar que as sanções não impedem o comércio. Então, o fato de encontrar produtos não significa dizer que as sanções não estejam sendo aplicadas ou que não estejam sendo eficazes, porque não proíbem todo o comércio. A resolução recente apertou mais as exportações de carvão e minérios, mas isso não quer dizer que outros produtos não possam ser comercializados.


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