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Rex Tillerson está na Rússia para defender ataque à Síria

Rex Tillerson está na Rússia para defender ataque à Síria
 
O chanceler russo, Serguei Lavrov (à esq.), recebe a visita do chefe da diplomacia americana, Rex Tillerson, em Moscou, em 12/04/2017. REUTERS/Maxim Shemetov

O Secretário de Estado, Rex Tillerson, chegou na terça-feira (11) à Rússia para a uma visita de dois dias. O recente ataque americano à Síria está no centro das discussões, já que a Rússia é aliada do governo de Bashar Al-Assad. Um relatório do governo americano, vazado pelo The New York Times, na tarde de ontem, acusou Moscou de ter encoberto o ataque de gás sarin contra a população ocorrido na semana passada na Síria.

Eduardo Graça, correspondente da RFI em Nova York

A ação de Bashar al-Assad, em área controlada por grupos de oposição ao regime, resultou na morte de pelo menos 80 pessoas, além de centenas de feridos, e foi o pretexto para o bombardeio de uma base síria por Washington.

Desde então, as relações entre a Rússia, principal aliada de Assad, e os EUA, estão estremecidas. Pouco antes da chegada de Tillerson a Moscou, o presidente Vladimir Putin afirmou que rebeldes estariam plantando ataques químicos falsos na periferia de Damasco.

O secretário de Estado falou grosso com a Rússia na terça-feira, em uma tentativa de demonstração, especialmente para os eleitores americanos, da força do novo governo, e deve manter o tom no encontro desta quarta-feira (12) com as autoridades russas.

É preciso pensar na viagem do diplomata número um dos EUA a Moscou tanto como um esforço de mediação no caos sírio quanto um teatro político necessário à sobrevivência da recém-iniciada, e caótica, administração Trump.

Conselho de Segurança da ONU volta a analisar caso sírio

Pouco antes de chegar à Rússia, na noite de ontem, Tillerson acusou Moscou de ter facilitado o ocultamento de armas químicas pelo governo Assad depois do acordo assinado em 2013. Acordo este, é bom lembrar, que evitou uma possível intervenção dos EUA na Síria, e foi duramente criticado pelos republicanos.

Tillerson, além de apontar um dedo em riste para a Rússia em um momento crucial para o governo Trump, deu uma estocada nos democratas, que estavam no governo no segundo termo de Barack Obama, e seriam portanto, de acordo com a narrativa republicana, corresponsáveis pela tragédia síria.

 

Nesta quarta-feira acontece uma reunião do Conselho de Segurança da ONU em Nova York em que a Síria será tema de destaque, e os russos já reagiram ao vazamento do memorando da inteligência americana, comparando-o justamente com os documentos apresentados a este mesmo Conselho para comprovar a presença de armas químicas de destruição em massa no Iraque pelo governo George W.Bush em 2003, provados falsos posteriormente.

Escândalo dos hackers durante as eleições americanas

Donald Trump, como se sabe, adentrou a Casa Branca elogiando Putin e propondo uma nova era na diplomacia americana, de menor intervenção e mais foco no comércio exterior. Mas os hackers viraram o arremedo de política externa do novo governo de pernas para o ar. Eles teriam, de acordo com a própria inteligência americana, atrapalhado a campanha da democrata Hillary Clinton e potencialmente ajudado Donald Trump a se eleger presidente em novembro.

Neste final de semana, a polícia espanhola, a pedido do F.B.I., prendeu em Barcelona o chamado ‘rei dos spams’, o russo Peter Severa, suspeito de estar ligado à invasão dos computadores do Partido Democrata e dos e-mails de Hillary.

E, para piorar as coisas para Trump, além da investigação do F.B.I., o Senado decidiu, com uma comissão bipartidária, iniciar uma varredura meticulosa do tamanho da influência russa no resultado das eleições presidenciais americanas. Embora a expectativa seja a de que esta espécie de C.P.I dure meses a fio, eventuais novas descobertas podem complicar, e muito, o governo Trump.

Um dos receios dos opositores do bilionário nova-yorkino era justamente o de que ele mudaria radicalmente a política externa americana para uma posição mais isolacionista, abrindo alas para a influência russa no Oriente Médio, na Ásia Central e na Europa Oriental. Pois as declarações de Tillerson e a movimentação de Trump buscam mostrar justamente o oposto.

Estados Unidos e OTAN

Nesta quarta-feira, em Washington, o presidente Donald Trump recebe o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg. Durante a campanha presidencial americana, Trump acusou a OTAN de ser uma instituição obsoleta. Ele criticou o fato de os demais países-membros, especialmente os europeus, receberem proteção militar americana sem desembolsar valores pré-estipulados.

A reunião na Casa Branca busca demonstrar para o restante do planeta que a OTAN está unida. Trump deve lembrar que o ataque com armas químicas na Síria ocorreu em província fronteiriça a um dos membros da organização, a Turquia, e que os EUA têm aliados nominalmente mais poderosos do que a Rússia em uma queda-de-braço em torno da Síria.

Também não por acaso, a Casa Branca anunciou ontem à tarde o apoio oficial à entrada de Montenegro, uma minúscula república dos Bálcãs, na OTAN. O problema é que esta é uma área estratégica para a Rússia, ligada por laços religiosos e históricos à Sérvia, e crítica veemente do aumento da presença da aliança militar ocidental na região.

Ao que parece, especialmente por motivo de consumo interno, as relações entre Washington e a Moscou de Putin, na melhor das hipóteses, devem continuar, sob Trump, tão ruins quanto eram durante os mandatos de Barack Obama.

 


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