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Mundo

Atentados de kamikazes são maior risco no Iraque, conta fotojornalista brasileira

media A fotojornalista gaúcha Alice Martins @facebook/Zakaria

Conheça a gaúcha que acompanha a ofensiva da coalizão internacional e das forças iraquianas contra o grupo Estado Islâmico.

São 16h em Erbil, no norte do Iraque, e a fotógrafa Alice Martins, 36 anos, se prepara para mais uma missão na ofensiva do governo iraquiano contra o grupo Estado Islâmico em Mossul, o último reduto do grupo no país. Alice é a única mulher brasileira a fazer coberturas de guerra no Oriente Médio, atividade reservada a um seleto grupo de jornalistas internacionais, em sua maioria homens.

Alice mora no bairro cristão de Ainkawa, uma das partes mais seguras do Norte, onde vive a maior parte dos jornalistas, voluntários de organizações não-governamentais e estrangeiros que acompanham a guerra em Mossul, a uma hora de carro da casa da fotógrafa. Poucos dias antes da nossa entrevista, uma de suas fotos ilustrava a capa do Washington Post, veículo para o qual ela trabalha desde que mudou sua base para o país, há cerca de um ano e meio. Antes do Iraque, ela também trabalhou na Síria, acompanhando as tropas rebeldes, fora ou dentro dos campos de batalha.

“O risco aqui é diferente. Na Síria éramos bombardeados pelo governo o tempo todo nas áreas ocupadas pela oposição. O barulho de explosões era constante, com os tiros de artilharia e ataques aéreos. Estávamos sempre mais alertas e conscientes do risco. Estávamos muitos mais expostos à violência, mesmo longe do front. Aqui, podemos ir para o front com as forças especiais iraquianas, mas o front está sempre mudando. De certa forma é uma operação rápida. Mas o risco não vem do céu, dos caças, como na Síria. São atentados-suicidas, bombas caseiras que podem explodir a qualquer momento, em lugares inesperados, mesmo longe do front”, explica.

“O grupo EI usa muitas bombas caseiras, carros-bombas e homens- bomba. Você pode entrar em casa tomada pelo governo, abrir uma gaveta e tudo explodir. Eles deixam bombas caseiras até dentro de brinquedos de criança.” Ela acredita que a guerra em Mossul acabe em cerca de três meses, mas depois disso, pretende continuar trabalhando no país. Durante a cobertura na Síria, Alice ficou hospedada na Turquia e atravessava a fronteira todos os dias para trabalhar.

“É interessante estar no Iraque nesse momento. Como estou aqui há um ano, começo a entender o Iraque, mesmo ainda ficando na superfície. É um país fascinante, com uma história bastante complexa. Este é o momento mais importante para o Iraque desde 2003 e tudo o que vem acontecendo está relacionado. Os sunitas aqui se sentem preteridos. Isso explica o apoio que o grupo Estado Islâmico teve no início. Mas agora, depois de viver sob o controle do grupo EI, viram que não é bem melhor do que o governo xiita”, diz.

“Quero ficar mais tempo. O que acontece depois da batalha é super interessante, especialmente em Mossul, onde a maioria é sunita e o exército é xiita. Tem muitos integrantes do grupo EI que subornaram policiais para serem libertados e também muitos inocentes presos. A derrota do grupo EI no front não significa o fim do Estado Islâmico. Eles já estão tentando, entre os opositores do exército, recrutar novos afiliados. E também controlam partes no deserto ou cidades menores. Os problemas do Iraque não vão acabar com a batalha final de Mossul. Talvez eu volte para a Turquia, ainda não sei, mas quero continuar trabalhando por aqui alguns anos ainda”.

Dramas humanos

Traduzir em imagens os dramas diários de um país em guerra é o desafio cotidiano de Alice, que caminha lado a lado da morte. Cenas que ela eterniza em clichês que chocam o mundo todo. “É sempre difícil e cada caso é diferente. O mais difícil é quando você vê os familiares das pessoas que morreram. Saber como lidar com essa pessoa, sabendo que nada do que você vá dizer irá consolá-la”, diz.

“Tem momentos…é difícil fazer certas fotos, especialmente quando se trata de crianças que foram feridas, ou velórios de crianças, e os pais estão lá. Tento respirar fundo e me concentrar, respeitando as pessoas que estão no local. Mas depois que passo as fotos para o computador, edito, eu sento e choro. “Não deixo bloquear nenhuma emoção. Qualquer jornalista que não se afeta por isso está mentindo ou não sabe lidar com isso. Tem que ter um equilíbrio empatia e se mostrar profissional”.

“O que me faz lidar melhor com essas coisas que vejo é saber que essa foto será publicada e essa história vai ser documentada e alguém longe vai ver essa foto e entender essa dor que as pessoas estão passando aqui. É um dos propósitos do meu trabalho. Me traz um consolo de certa forma”, declara.

Flores no jardim

A fotógrafa conta que conversa com a família “praticamente todos os dias”, mas que não entra nos “detalhes sobre o trabalho”. “Quando sai uma foto na primeira página, mando para minha mãe [risos]. Ela tem orgulho, mas se preocupa ao mesmo tempo”, relata Alice Martins. “A gente conversa muito, mas sem falar nos detalhes do que eu vejo todos os dias. Mando foto das flores no jardim, por exemplo [risos]. Eu tenho 36 anos e moro desde os 19 fora do Brasil, na maior parte do tempo. Minha família está acostumada a me ter um pouco longe. Quando comecei a trabalhar em [regiões de] conflito, há cinco anos atrás, claro que eles se preocuparam um pouco mais, mas, ao mesmo tempo, é muito importante para eles que eu me sinta realizada na minha carreira, acho que o orgulho compensa a preocupação”, explica a fotógrafa.

Repressão contra mulheres

Alice Martins considera a condição das mulheres no Iraque um assunto “bem complexo”. “Muita coisa que acontece com as mulheres no Brasil poderia também serem considerada repressão, mas a gente vê mais o que acontece em outros países. São culturas muito diferentes”, detalha. “Um exemplo gritante de opressão contra as mulheres aqui no Iraque foi o que o [grupo] Estado Islâmico fez contra as mulheres yázidis, uma história gigante, milhares delas ainda continuam em cativeiro”, opina. Alice, no entanto, afirma que tanto “um biquíni ou uma burca podem ser vistos como opressão”. “Às vezes de fora, podemos achar que porque as mulheres se vestem de forma diferente elas seriam mais submissas, quando, na verdade, conversando com as mulheres daqui, elas acham que é um sinal de repressão usar roupas tão justas, ou tão curtas, porque elas consideram que isto faz as mulheres serem tratadas como objeto. Aqui no norte do Iraque, as mulheres estudam, trabalham, é muito comum vê-las sem véu, pelo menos nas cidades maiores. Claro que se você for para cidadezinhas do interior, mais conservadoras, as mulheres serão mais reprimidas", finaliza a fotógrafa.

Dia a dia em zona de guerra

Alice tem visto iraquiano e trabalha em todo o país. A distância de Erbil até Mossul, onde ela cobre o conflito, é uma hora de carro. “Normalmente trabalho com uma jornalista e um fixer, motorista e tradutor. Desde que estou aqui tenho a sorte de fazer a cobertura com o Washington Post. Sempre trabalho com as mesmas pessoas, que conhecem muito o país. Aprendi muito com eles. Passamos o dia em Mossul e voltamos à noite. Às vezes passamos a noite lá. Os correspondentes aqui são como uma família. Todo mundo está longe de casa. Temos muito apoio nessa pequena comunidade de jornalistas. Mas sou freelancer e gosto dessa liberdade”.

Guerra no Golfo

E de onde vem o interesse de Alice, que nasceu em Porto Alegre, pelas guerras? “Na minha infância, durante a guerra no Golfo, eu estava assistindo TV e aquilo me causou uma impressão muito forte. Foi a primeira guerra televisionada. Foi neste tempo que guerra não é algo que existe apenas nos livros de história. E na adolescência já comecei a pesquisar sobre o trabalho de fotojornalistas nos conflitos”, conta. Alice começou a fotografar aos nove anos, com uma Kodak Instamatic dada pelo pai. Olhar observador, desde cedo ela e sua família sempre souberam que Porto Alegre era pequena demais para a menina.

Aos 23 anos, Alice comprou seu equipamento e partiu para a Namíbia, na África, que não tinha uma relação com a guerra, mas marcou seu início na vida profissional no exterior. “Era um projeto voluntário relacionado à educação sexual e ao HIV. Era também uma tragédia, mas não uma guerra”.

Em 2012, ela foi para a Faixa de Gaza fotografar um grupo de adolescentes que aprendia a surfar na região. Todo dia de manhã os militantes em Gaza lançavam mísseis e Israel revidava com ataques aéreos. Foi o primeiro contato com uma zona em conflito. Em seguida, foi para a Síria, voltando para o Brasil no final de 2013 para uma curta "pausa" de 9 meses. "A Al Qaeda havia chegado à região e os jornalistas tiveram que deixar a área". Pausa que a levou a cobrir os protestos contra o impeachment de Dilma, chegando a ser agredida pela polícia.

 

 
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