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Agricultura é vítima e causadora das mudanças climáticas

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Agricultura é vítima e causadora das mudanças climáticas
 
O relatório anual sobre o Estado Mundial da Agricultura e da Alimentação da FAO 2016, se concentra nas "Mudanças Climáticas, Agricultura e na Segurança". Laurent Correau / RFI

A FAO (Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura) alerta: é preciso mudar urgentemente as práticas agrícolas mundiais, sob o risco de a humanidade não conseguir mais produzir a quantidade necessária de alimentos para abastecer as gerações futuras. Um relatório divulgado em Roma mostrou que o setor agrícola é, ao mesmo tempo, causador e vítima das agressões ao meio ambiente que podem comprometer a produção de comida nas próximas décadas.

Em todo o mundo, o setor sofre com secas e enchentes que abalam as colheitas dos mais variados produtos. Porém, a agricultura também é responsável por uma das maiores parcelas de emissões de poluentes do mundo, ao gerar 21% dos gases de efeito estufa.

Segundo a FAO, todos continentes têm melhorias a fazer, a começar pela diversificação de culturas e uma gestão mais adequada dos fertilizantes. Se continuarem a ser conduzidos de uma maneira inadequada, como hoje, esses dois fatores contribuem para um esgotamento da terra, a fonte de vida das plantações agrícolas.

“A culpa dos maus hábitos agrícolas se manifesta, em parte, pela erosão, um fenômeno que está em alta, principalmente quando deixamos um solo nu sob o efeito de uma tempestade. A princípio, seria preciso uma cobertura vegetal constante para lutar contra a erosão”, explica o agrônomo Dominique Arrouays, especialista na gestão dos solos do Instituto Nacional de Pesquisas Agrônomas (Inra), da França. “Essas más práticas também se manifestam pela queda das matérias orgânicas, como o carbono orgânico do solo. Ou não temos matérias orgânicas em um nível suficiente, por causa da falta de vegetação, ou o solo é mineralizado demais, porque o trabalhamos de uma maneira muito intensiva.”

Petição por mais proteção legal dos solos

Apesar de toda a importância que os solos têm para a sobrevivência mundial, eles ainda não são sequer protegidos por dispositivos legais. Consciente desses riscos, a organização France Nature Environnement se juntou a mais de 350 entidades europeias que promovem uma petição para aumentar a preservação das terras na União Europeia.

“Não podemos intensificar ainda mais o modelo agrícola atual na Europa, com tantos ingredientes químicos, tantos agrotóxicos. O que temos de fazer é colocar de volta o solo no foco da prática agrícola, para que seja possível alimentar 9 bilhões de pessoas no futuro”, afirma Solène Demonet, coordenadora do projeto na organização francesa.

Construções pioram o problema

Arrouays observa que, nos países europeus, o risco mais sério é o da expansão das áreas urbanas, com construções que avançam cada vez mais nas poucas áreas verdes que restaram no Velho Continente.

“A ameaça mais séria é a artificialização, o concreto por todos os lados, que faz o solo desaparecer. São 27 metros quadrados de construções por segundo, o que representa o desaparecimento do solo de uma cidade como Berlim a cada ano, na Europa”, nota o agrônomo. “É um absurdo completo, a maior ameaça nas cidades desenvolvidas.”

Nos países pobres, faltam recursos e informação

Já nos países em desenvolvimento, é a agricultura intensiva que pode sufocar a terra. O quadro piora ainda mais com as mudanças climáticas, que causaram um aumento da repetição dos fenômenos extremos, como chuvas torrenciais ou secas prolongadas. Os mais vulneráveis, ressalta o pesquisador francês, são os países africanos.

“Em nível mundial, a artificialização não é o pior: é provavelmente a desertificação. Há também a questão da balança completamente desequilibrada dos elementos nutritivos para o solo”, diz o francês. “Ou se coloca adubos demais, o que gera à poluição das águas, ou não há fertilização suficiente e não conseguimos produzir o suficiente para alimentar todo o mundo. Esse desequilíbrio tem consequências monstruosas para o planeta.”

O relatório da FAO indica que, quase sempre, as 475 milhões de famílias de pequenos produtores nos países em desenvolvimento não têm acesso nem à informação, nem aos recursos necessários para promover práticas agrícolas menos agressivas ao meio ambiente. A organização destaca que faltam US$ 210 bilhões por ano para as famílias africanas, latino-americanas e sul-asiáticas poderem se adaptar a uma agricultura sustentável.

 


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