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Candidata dacapitada e urnas queimadas marcaram eleição violenta no México

Candidata dacapitada e urnas queimadas marcaram eleição violenta no México
 
Apenas 48% dos eleitores compareceram às urnas. REUTERS/Jose Luis Gonzalez

Os mexicanos foram às urnas neste domingo (7) para escolher os ocupantes da Câmara dos Deputados, Câmaras estaduais, nove governadores e quase mil prefeituras. E mesmo com a ampla insatisfação social com o presidente Enrique Peña Nieto, o seu partido, o PRI, deve manter sua maioria. Uma vitória do governo, ainda que apertada, é o que prevêem as primeiras apurações divulgadas pelo Instituto Nacional Eleitoral.

Fernanda Brambilla, correspondente da RFI no México

Nas eleições deste domingo, os mexicanos perderam a chance de demonstrar, no voto, o descontentamento social que estão vivendo com o atual governo. As prévias eleitorais foram anunciadas pouco antes da meia-noite na Cidade do México pelo presidente do Instituto Nacional Eleitoral, Lorenzo Córdova, e o partido do presidente Enrique Peña Nieto, o PRI, Partido Revolucionário Institucional, deve manter sua maioria na Câmara dos Deputados, ainda que com uma vantagem bem pequena.

Das 500 cadeiras, o PRI, que hoje tem 212, deve manter cerca de 200 e somar outras 60 com seus aliados. É certamente um grande alívio para Peña Nieto nessa metade final de mandato, já que o que ele quer, nesses três anos, é aprovar reformas e fortalecer o partido, já que, segundo a lei, não pode concorrer à reeleição.

Candidata torturada e dacapitada

Depois de duas semanas de fortes manifestações, bloqueios em estradas e aeroportos e uma ameaça de boicote geral, o governo se precaveu e mandou às ruas um contingente massivo de Exército, Polícia Militar e até Marinha, com mais de 40 mil agentes de segurança. Não foi à toa. Nos últimos três meses, foram 70 os ataques a políticos, 20 assassinatos, além de casos escabrosos, como o de uma candidata em Guerrero, Aidé González, que foi torturada, morta e decapitada por narcotraficantes.

Como o voto não é obrigatório, a participação popular foi bem baixa, de cerca de 48%: nem metade dos 83 milhões de mexicanos habilitados a votar compareceu às urnas. O processo eleitoral mexicano é arcaico e não inspira muita confiança: as cédulas, de papel, são enormes, e os votos são assinalados com um "x" em lápis preto sobre o desenho do partido.

Depois de votar, cada eleitor tem a ponta do dedo polegar marcado com uma espécie de tinta preta - uma medida para evitar que um eleitor vote várias vezes. Ao longo do dia, por todo o país pipocaram denúncias de fraude, de roubo de urnas, compra de voto e de lotes que chegaram às seções com cédulas já preenchidas, além de boicotes em Oaxaca, Michoacán e Chiapas.

Mas o pior tumulto foi em Guerrero, Estado controlado pelo narcotráfico em que 43 estudantes rurais desapareceram no ano passado. No município de Tixtla, o mais próximo a Ayotzinapa, onde ocorreu o caso dos jovens, as urnas foram queimadas nas ruas e a eleição, suspensa.

Apoio do Partido Verde

O PRI fez valer de uma aliança estratégica com o Partido Verde, também de direita, para impulsionar sua campanha nos últimos meses. Com propostas populistas e que visavam as classes baixa e média, como internet gratuita em áreas públicas, inglês e computação nas escolas da rede pública, por exemplo, o Partido Verde se aproveitou do orçamento gordo do PRI e apostou na superexposição: seus outdoors estavam por todas as grandes cidades, seus comerciais apareceram até mesmo antes dos filmes, nos cinemas.

O Verde desobedeceu todas as normas de propaganda eleitoral e já foi condenado a pagar uma fortuna de indenização, mas agora o plano já deu certo, que era dar votos ao antigo PRI sob a carcaça nova e moderna do Verde. Até mesmo o amistoso da seleção do México contra o Brasil virou palanque. O partido comprou o apoio via redes sociais de celebridades da TV e até do técnico da seleção mexicana e de jogadores, que declararam apoio por suas contas de Twitter.

Historicamente, é um resultado fraco para um partido que já foi supremo na política mexicana, mas com o atual desempenho do governo, de economia estagnada, direitos humanos violados, crise social, é no mínimo surpreendente.

Cresce oposição à direita

Faltam três anos para a próxima eleição presidencial, e os resultados deste domingo apresentaram um cenário complicado para a esquerda mexicana, e muito favorável à oposição de direita do governo, formado pelo PAN, o Partido da Ação Nacional, do ex-presidente Felipe Calderón, que governou antes de Peña Nieto. O PAN se solidifica como a segunda força do país hoje e já deve vislumbrar como recuperar os eleitores arrependidos do PRI.

Enquanto isso, a esquerda mexicana está dividida entre partidos pequenos e nanicos. O principal deles, o PRD, Partido da Revolução Democrática, sofreu um golpe duro com a saída do nome mais importante da oposição, que responde por uma sigla: AMLO. Andrés Manuel Lopez Obrador, de 61 anos, é a figura de maior força da esquerda, foi candidato à presidência duas vezes e deu um embate duro contra Peña Nieto.

O AMLO rompeu com o PRD e lançou o Morena, Movimento da Regeneração Nacional, que tem como principal bandeira o combate à corrupção. O Morena comemora uma presença de 10% com seu primeiro ano de existência recém-completado, o que não deixa de ser notável, mas ainda é pouco para fazer frente à artilharia pesada da direita mexicana.

 


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