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James Bond salva imagem geopolítica da Grã-Bretanha

James Bond salva imagem geopolítica da Grã-Bretanha
 
Imagem de Daniel Craig e Léa Seydoux , protagonistas de 007 contra Spectre monopolizou a mídia. © United Artists

Em meio a uma atualidade internacional cheia de más notícias, entre a guerra na Síria, a crise migratória europeia e os conflitos no leste ucraniano, essa semana, como por encanto, todos as atenções se voltaram para as telonas. A estréia de 007 contra Spectre, o 24° episódio da saga de James Bond, invadiu a mídia e levou milhares de pessoas para as salas de cinema batendo recordes em vários países. Mas por trás do sucesso de bilheteria, o espião britânico esconde um verdadeiro garoto-propaganda do papel – idealizado – da Grã-Bretanha no cenário mundial.

Mesmo quem não é fã de cinema dificilmente conseguiu evitar o bombardeio midiático da estreia do filme dirigido por Sam Mendes. Seja nos painéis publicitários expostos nas ruas das grandes cidades, nos trailers divulgados na internet ou nas campanhas das marcas parceiras da produção, foi praticamente impossível não ver o rosto do ator Daniel Craig ou de suas “Bond Girls” da vez, a francesa Léa Seydoux e a italiana Monica Bellucci.

Aproveitando o barulho, o Instituto de Estudos de Relações Internacionais (Ileri) organizou recentemente em Paris uma conferência com um título provocador : "James Bond seria um herói geopolítico?" A instituição, conhecida por formar profissionais para a diplomacia e para trabalhar nos setores de segurança e defesa em organismos multilaterais, convidou especialistas que mostraram que o espião britânico não estaria tão longe das grandes preocupações internacionais.

Para o historiador e cientista político David Vauclair, que participou da conferência, James Bond pode ser considerado um personagem geopolítico. Principalmente pelo fato de combater em nome de um país, e não por razões pessoais, como acontece frequentemente com os demais heróis. Além disso, o especialista ressalta que o espião é um instrumento utilizado pela Grã-Bretanha, mesmo se ele representa uma visão idealizada do país da rainha Elizabeth. “James Bond é uma espécie de herói ou de mito que compensa a perda das colônias britânicas e, de maneira mais ampla, o fenômeno do fim da colonização dos anos 1950 e 1960. O autor Ian Fleming tentou responder ao que ele estimava ser o fim de um império britânico e do papel central da Grã-Bretanha no contexto mundial. O personagem do espião permite que o país continue a viver por meio de suas aventuras, mesmo se essa é uma Grã-Bretanha idealizada”, analisa o professor da Ileri e da universidade Paris Sud.

Recorde de público

A fórmula da saga parece ter funcionado mais uma vez. Além de arrecadar US$ 73 milhões em seu primeiro fim de semana nos cinemas dos Estados Unidos e do Canadá, 007 contra Spectre foi assistido por quase um milhão de pessoas em apenas dois dias na França, batendo todos os recordes já registrados.

Mas para David Vauclair, além do sucesso de bilheteria, o personagem de James Bond é um verdadeiro símbolo do chamado soft power, uma forma sutil de vender uma boa imagem de uma nação para o mundo. “Se pegamos o exemplo do Brasil, o carnaval, a música brasileira, o futebol e a capoeira vão dar uma imagem positiva e de sedução ao país, que vai além de suas fronteiras. James Bond faz a mesma coisa ao propor um modo de vida, uma maneira de se vestir, um humor e uma forma de eficiência e de sedução que são britânicos e ocidentais. E funciona, pois desde o início da saga, bilhões de pessoas foram seduzidas pelo herói de Fleming", comenta.

Relembre os primeiros episódios da saga de James Bond

11 de setembro é tema tabu

O primeiro 007 a aparecer nas telas foi em 1962, em Contra o Satânico Dr. No, filme que estreou no mesmo ano da crise dos mísseis em Cuba. Mas isso não quer dizer que os produtores tentem abordar temas realmente delicados, como o conflito no Oriente Médio ou os atentados das Torres Gêmeas de 2001 em Nova York, eventos que mudaram as relações internacionais no planeta, mas são praticamente ignorados na saga.

“No caso dos atentados de 11 de setembro, as razões são puramente comerciais. Ao serem questionados sobre a ausência do 11 de setembro nos filmes, os produtores disseram que o mercado do Oriente Médio era muito importante para que eles enviassem James Bond enfrentar esse tipo de inimigo”, comenta Vauclair. “Isso quer dizer que, na maioria das vezes, os inimigos de James Bond são ocidentais e, quase sempre, representam uma questão de atualidade, que fascina e preocupa a população, como foi o caso da tecnologia, muito presente nos dois últimos filmes”, analisa.

James Bond brasileiro ?

O professor lembra que a espionagem, assim como a geopolítica, mudou muito nos últimos anos, com novos atores de peso no cenário internacional. “Se tentarmos imaginar esse personagem na vida real, James Bond poderia vir das economias emergentes, dos países dos BRICs, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que desejam ter mais influência internacional”, comenta. Mas o historiador ironiza, dizendo que, em 2015, um espião nos moldes do 007 poderia muito bem ser “um iraniano e agir entre Turquia, Irã, Iraque e Síria, pois nessa região teria muita coisa a ser feita atualmente”.


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