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No Alasca, Obama reforça luta dos EUA contra aquecimento global

No Alasca, Obama reforça luta dos EUA contra aquecimento global
 
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, visita hoje (31) o Alasca em meio à polêmica sobre a permissão de exploração de petróleo.. REUTERS/Carlos Barria

Pela primeira vez um presidente em exercício dos EUA pisará no Ártico americano para uma visita de três dias. Barack Obama começa hoje a viagem com um cenário escolhido a dedo, interessado em enfatizar a necessidade do combate drástico ao aquecimento global.

Eduardo Graça, correspondente da RFI Brasil em Nova York

É como se a Casa Branca estivesse desenhando para que os ainda céticos em relação às mudanças climáticas causadas pela emissão de gás carbônico finalmente entendam: grandes geleiras estão derretendo, o aumento do nível do mar é visível, a diminuição da área permanentemente congelada na região é palpável. "É preciso fazer algo, e já", diz Obama. Mas esta viagem ao limite setentrional dos EUA por um presidente interessado em pressionar seus pares a assinarem um acordo em torno do aquecimento global em dezembro, em Paris, também carrega contradições internas apontadas por críticos à política ambiental do próprio governo Obama.

Esta é uma viagem de fato importante para a Casa Branca, que vê os próximos três dias como a confirmação do esforço do governo Obama de convencer a opinião pública dos EUA e os principais líderes do planeta da necessidade de medidas mais duras contra o aquecimento global.

No sábado (29), em seu programa oficial de rádio, o presidente já tratou do tema e declarou ser importante testemunhar as mudanças in loco. Kotzebue, com seus 3 mil habitantes, a cidadezinha no Ártico que se prepara para receber Obama na quarta-feir (2), está tendo suas ruas inundadas por conta do aumento do nível do mar e da erosão do solo. O mesmo tem acontecido com aldeias da população Inuit localizadas nas cercanias da cidade.

Obama faz esta viagem com um olho em seu legado e outro na Conferência do Clima que acontece aqui em Paris em dezembro. A ideia é criar um fato midiático de considerável proporção para deixar claro que Washington vai fazer pressão para a assinatura de um acordo climático de peso em Paris. A viagem começa com uma coletiva de imprensa hoje na maior cidade do estado, Anchorage, segue amanhã para Seward, onde Obama deverá escalar uma geleira que vem perdendo em média nove metros de massa por ano na última década, e inclui ainda um encontro com pescadores de salmão.

Para alguns analistas, trata-se de uma tentativa de o presidente deixar em segundo plano a pregação aos americanos da necessidade de se agir em relação ao aquecimento global – por exemplo, criticando o uso de carros que bebem muita gasolina para buscar os filhos na escola – e apresentando sua faceta militante, que poderia se estender inclusive para sua atuação quando deixar a Casa Branca em janeiro de 2017.

Controvérsia

Mas, se ilustra de forma ideal esta cruzada pró-ecologia dos anos derradeiros deslanchada nos anos derradeiros de sua admnistração, ambientalistas estão furiosos com o que vêem como contradições inaceitáveis na política ambiental do governo Obama. E a contradição começa pelo próprio cenário eleito pela Casa Branca para ilustrar esta faceta pró-natureza de Obama.

O antigo território comprado aos russos em 1867 é também um dos estados mais dependentes da indústria do gás e do petróleo na federação americana. Há duas semanas, Washington liberou para a Shell a exploração de uma área imensa na costa noroeste do Alaska. Não se liberava a exploração de petróleo na região há duas décadas, desde o governo Clinton, e o acidente no Golfo do México causado pela British Petroleum em abril de 2010 ainda está muito nítido na memória dos americanos. A revolução energética nos EUA durante o governo Obama foi tamanha, que levou o país a se tornar um exportador de petróleo, ajudando a derrubar o preço do barril mundo afora. A contradição central desta viagem é a de se exigir uma resposta mundial dura em relação à emissão de poluentes, no momento em que os EUA colhem os benefícios econômicos da expansão da indústria do gás e do petróleo, garantindo a geração de empregos e uma economia significativa de energia elétrica para o país.

Se não havia um momento melhor para o governo dar este o.k. para a Shell?  A Casa Branca diz que não teve saída. A cessão foi dada pelo presidente Bush, o valor do contrato, US$ 2.1 bilhões, é alto, derrubá-lo seria uma briga política e jurídica sem tamanho e, no fim das contas, a cúpula do governo reconhece que o país ainda depende da exploração interna para não ficar refém da produção de petróleo do Oriente Médio.

Um dos principais conselheiros de Obama na área de Ciência e Tecnologia, John P. Holden, resumiu assim, esta semana, a política energética e ambiental do governo democrata: “não vivemos em um mundo mágico. Se não tem como nos livrarmos de uma hora por outra do consumo de petróleo e gás, pelo menos vamos investir na produção interna para evitarmos quaisquer dependências externas”.
 


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