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Acúmulo de lixo nas ruas de Beirute reflete crise política do Líbano

Acúmulo de lixo nas ruas de Beirute reflete crise política do Líbano
 
Acúmulo de lixo nas ruas de Beiture desde julho provocou a revolta da população libanesa. REUTERS/Jamal Saidi

Mergulhado em uma grave crise política, o Líbano também enfrenta nas últimas semanas o caos gerado pelo acúmulo do lixo nas ruas de Beirute, após o fechamento de um depósito na capital, em julho. Desde então, a Beirute está à beira de uma crise sanitária. Várias ruas chegaram a ser bloqueadas pela imensa quantidade de acúmulo de lixo. Para piorar a situação, algumas regiões do país também registram cortes de energia elétrica e de água.

Revoltados com a passividade das autoridades sobre a falta de coleta do lixo das ruas da capital, um forte movimento popular sacodiu Beirute no último fim de semana. Com muita violência, a polícia tentou conter os protestos, deixando cerca de 70 feridos.

A crise do lixo, no entanto, é apenas um pano de fundo para uma enorme insatisfação popular contra o governo, que está sem presidente há mais de um ano. Um impasse que só o Parlamento pode resolver, mas que não o faz porque, há vários meses, diante da falta de entendimento entre forças políticas opostas, não consegue nem mesmo se reunir.

Sistema político se esgotou

Para o professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC-MG, Danny Zahreddine, o caos no Líbano mostra que o complexo sistema político do país, em vigor desde a década de 30, esgotou-se. "O objetivo desse pacto era principalmente aliviar a tensão entre muçulmanos e cristãos, lembrando que o Líbano conta com 18 comunidades étnicas e religiosas. Então, até hoje, a presidência do Líbano só pode ser ocupada por cristãos maronitas, o primeiro-ministro deve ser sempre um muçulmano sunita, o porta-voz do Parlamento fica com um muçulmano xiita, e os ministérios e as cadeiras são divididas entre cristãos e muçulmanos. Mas, hoje, esse sistema não funciona mais."

O professor de História Contemporânea da Universidade Federal do rio de Janeiro (UFRJ), Murilo Sebe Bon Meihy, defende a necessidade de uma mudança no sistema político para superar o sectarismo no Líbano. "Não ter um presidente por mais de um ano é um sinal muito claro que esse pacto não permite mais o consenso entre os parlamentares. As propostas de revisão desse sistema sempre esbarram em critérios confessionais. A própria maneira como o sistema eleitoral funciona faz com que o eleitor esteja relacionado a uma lista de candidatos vinculados a seu grupo confessional, ainda que hoje exista coalizão de partidos. Por isso, a juventude libanesa reivindica uma mudança política urgente", analisa.

Para Zahreddine, as desavenças sectárias chegaram a um ponto tão crítico que serviços básicos, como o abastecimento de água, a distribuição de energia elétrica, e a coleta de lixo começam a ser utilizadas entre disputas de forças políticas opostas. "O que é muito interessante é observar que as mobilizações nas ruas são realizadas por grupos supra sectários, integradas por manifestantes de várias religiões e etnias, mas que querem o fim dessa situação que põe em risco questões fundamentais da vida da sociedade", ressalta.

Nova Revolução dos Cedros

Em 2005, depois do assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, um forte movimento popular, a Revolução dos Cedros, resultou na retirada das tropas sírias do Líbano. Na época,  o país era fortemente influenciado por Damasco.

Se a mobilização atual tem poder suficiente para uma nova revolução, ainda é cedo para avaliar, segundo Meihy. "Resultados, os manifestantes produzem. A principal questão agora, no entanto, é se o governo vai dar uma resposta para resolver apenas o problema do lixo, mantendo a política sectária, ou se essa mobilização vai se transformar em um movimento político suficientemente forte para mudar o sistema governamental e eleitoral do Líbano", diz o professor.

Para ele, a crise política não deve ser resolvida nos próximos meses. Mas as manifestações são um forte sinal para os políticos libaneses que o país precisa de transformações urgentes.


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