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Geral

Debate sobre a laicidade revela fratura profunda na esquerda francesa

media Capa do jornal francês Libération desta segunda-feira, 22 de junho de 2015.

Laicidade. A palavra se tornou inevitável após os atentados terroristas de janeiro em Paris. O jornal Libération traz na capa da edição desta segunda-feira (22) uma reportagem sobre a fratura profunda e antiga na esquerda francesa em relação ao tema.

O jornal afirma que o conceito de laicidade encontra diversos significados no seio da esquerda do país: desde a visão rígida que deseja que os símbolos religiosos fiquem restritos à esfera privada a um conceito mais aberto, que, em nome do respeito às diferenças, prega um lugar das religiões, especialmente a muçulmana, nos espaços públicos.

Políticos de esquerda entrevistados pelo Libération concordam que há uma urgência em debater o tema e em encontrar uma posição comum. O deputado socialista Phillipe Doucet, que trabalha na elaboração de uma lei sobre o tema, disse que a campanha presidencial de 2017 abordará os valores e principalmente da laicidade.

Na semana passada, o governo tentou, pela primeira vez, um diálogo com as autoridades muçulmanas. E nesta segunda-feira, a partir de uma iniciativa do deputado socialista Jean Glavany, grande defensor de uma laicidade estrita, acontece na Assembleia Nacional um debate intitulado "Républica e Islã, juntos, enfrentam o desafio". O presidente da Assembleia, Claude Bartolone, e o primeiro-ministro, Manuel Valls, farão discursos.

Crise dupla

A crise na esquerda é dupla, segundo a análise do jornal, ao mesmo tempo existencial e circunstancial. Como resume o sociólogo Michel Wieviorka, a chegada do islã à França entrou em conflito com a herança política da esquerda. "Em 1905, o grande combate da esquerda era separar a Igreja e o Estado. Hoje, o problema é inverso: ela deve incluir uma nova religião na República, impor novas expectativas e fixar as relações entre o Estado e o islã", afirmou ao Libération.

Com a irrupção desse novo fato religioso, as diferentes raízes históricas da esquerda vieram à tona. O historiador Arnaud Houte explica: "Sob a 3ª República, ao menos três esquerdas coexistiam na laicidade. Os socialistas não viam na religião o seu inimigo prioritário, enquanto que os radicais, como Clémenceau, eram francamente anticlericais e queriam a separação de Igreja e Estado. Já o oportunista Jules Ferry propunha uma laicidade de compromisso: o professor de escola seria convidado a ensinar grosso modo a mesma moral que a do padre". Com a lei de 1905, essas três vertentes chegam a um compromisso e a um apaziguamento das relações.

Hoje é o partido de extrema direita Frente Nacional, liderado por Marine Le Pen, que reivindica a palavra laicidade, para estigmatizar o islã, e ninguém na esquerda despertou para isso. "Há na nossa família política um estado de paralisia diante desse golpe estratégico de Le Pen. Ao desviar um valor da esquerda, ela mostra as nossas contradições", afirma o deputado Philippe Doucet.

 
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