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Acampamento improvisado reúne quase 300 imigrantes no centro de Paris

Acampamento improvisado reúne quase 300 imigrantes no centro de Paris
 
Barracas se acumulam sob os trilhos da linha 2 do metrô de Paris Gabriel Rocha Gaspar

"Meu problema com a França não é cultural, é lógico", filosofa o argelino Moussa*, com os olhos injetados de várias noites mal-dormidas e a pele ressecada para além de seus trinta e poucos anos. "Meu pai lutou pela França na guerra. Eu não sei como um papel pode valer mais do que isso", diz, em referência aos documentos que faltam para regulamentar sua permanência no país.

Moussa é um dos quase 300 imigrantes que vivem em barracas de acampamento sob os trilhos suspensos da linha dois do metrô parisiense. Sem luz nem saneamento básico, a cidade improvisada, emblematicamente às costas da Gare du Nord, uma das estações de trem que levam a e trazem diariamente pessoas de todas as partes da Europa, é um retrato do caos de refugiados causado pela desestruturação política do norte da África e do Oriente Médio. E, mais ainda, de uma responsabilidade histórica que o Velho Continente não consegue mais ignorar.

Depois que 730 pessoas morreram em um naufrágio no Mediterrâneo em 19 de abril, ampliando para 1.770, o total de vítimas da travessia só neste ano, Bruxelas se viu obrigada a tomar atitudes mais efetivas. As primeiras foram dirigidas ao controle das fronteiras.

Nesta semana, os dirigentes europeus passaram a discutir a criação de cotas de imigrantes, a serem distribuídas entre os países membros, proporcionalmente às suas populações. Mas organizações como a Federação Internacional dos Direitos Humanos, que organiza um protesto no centro de Paris nesta sexta-feira, acusam o bloco de querer erguer "muros" ao invés de "pontes".

A França, que se opõe às cotas, é um dos países que mais aceitam pedidos de asilo político - mas o número ainda é bem menor que a quantidade de pedidos. Para imigrantes do nordeste da África, como o sudanês Adil*, a taxa de rejeição é próxima de 90%.

Rota da morte

Para dar com a cara na porta do asilo francês, Adil deixou a família e fez uma semana de viagem entre o Sudão e a Líbia. De lá, ele pagou a um atravessador e, num barco com outros 500 africanos e sírios, atravessou o Mar Mediterrâneo rumo à ilha italiana de Lampedusa. De trem, passou por quase todo o território italiano até entrar na França, pelo sul.

Veio parar em Paris e instalou-se há dois meses no amontoado de barracas, depois ter asilo negado pelo próprio irmão, que vive num apartamento de menos de dez metros quadrados com a mulher e uma filha.

No total, a França concede menos de 20% dos asilos pedidos. Os pedidos de asilo, no entanto, não param de aumentar. Em 2014, 626.065 dossiês foram encaminhados ao órgão europeu que trata da questão, um aumento de 45% em relação ao ano anterior.

A grande maioria é rejeitada, o que não faz os migrantes voltarem a seus países onde, via de regra, correm risco de vida. Pelo contrário: de acordo com o Tribunal de Contas francês, 99% dessas pessoas passam a engrossar as filas do subemprego na Europa. O ministério do Interior afirma, por outro lado, que "apenas" 90% permanecem na Europa.

"Não sabia nada daqui"

O marroquino Muhammad*, que completará 26 anos em dois meses, acha que sonhar com subemprego é nutrir falsas esperanças: "Não queremos nada roubando. Queremos ganhar dinheiro trabalhando. Na Espanha, trabalhei em uma cafeteria. Mas agora, não tem mais nada. Não tem trabalho nem na França, não tem nada. Não tenho nada para comer, não tenho dinheiro para mandar para minha família. Eu não sabia nada da França. Eu sou corajoso, mas não sabia nada daqui, ficava andando o dia todo. Quando cheguei, pedi a um árabe, de carro: 'por favor, quero dormir, estou com fome'. Ele me chamou para ir à casa dele. Lá, comi um pouco. Depois, ele me pôs de volta no carro e me largou aqui".

Muhammad corre de um lado para o outro, alternando seu bom espanhol com umas poucas palavras em francês e muitas em árabe. Conta os dias para deixar Paris e saca de sua carteira, ilustrada com a Torre Eiffel, o rótulo amassado de uma garrafa d'água, onde anotou seu próximo destino: Vitry-sur-Seine, uns poucos quilômetros ao sul da capital e sem perspectivas que justifiquem sua ansiedade.

Depressão

Enquanto converso com o egípcio Ahmed*, um policial se aproxima das roupas de doação que ele juntou com os amigos, na esperança vã de trocar por qualquer dinheiro, e pergunta: "isso é seu?" Acostumado a não falar com polícia, Ahmed estala a língua. Depois, cospe no chão de maneira teatral, enquanto a única representação do Estado que se vê por ali confisca o fruto de uma das poucas atividades remuneradas que ele pode exercer. A outra é esmolar.

Não à toa, o clima geral é de depressão. Embora de algumas rodas emanem esparsas gargalhadas etílicas e um ou outro comentário sobre futebol, é comum ver homens muito jovens que miram o horizonte encalacrado pelas grades da Gare du Nord. Eles não falam nada e passam longos minutos inertes. Mulheres quase não há, crianças tampouco.

Na mão de Deus

Uma das poucas pessoas ali que têm família na França é o tuareg nigerino Dassin*: "Meu pai e minha mãe não tinham recursos e por isso eu tive que partir. Passei por Argélia, Marrocos, Tunísia e fiquei na Líbia, por 22 anos. Tive sete filhos lá. Tinha endereço, tinha tudo, estava tranquilo lá. Tinha meu trabalho, tudo. Me casei com minha esposa na Líbia, tivemos filhos líbios. Chegamos aqui, eu e minha mulher, com documentos da Líbia, depois da guerra do Kaddaffi. A gente não tinha recurso: a gente era negro, teve todos os bombardeios, a Otan, tudo isso. Então, peguei o barco, perdi a casa, perdi tudo que conquistei na vida. Agora, é esperar: entrei com todos os papéis de refugiado, essas coisas todas". Levanta os olhos cansados até os trilhos sobre o acampamento e diz: "Deus, é ele quem dá".

Enquanto Deus não dá, os moradores dessa semifavela no coração de Paris contam com a boa vontade de pessoas - a maioria muçulmanos - que vivem por perto, além de grupos que fornecem cestas básicas, sem muita regularidade. E pedem esmolas enquanto aguardam o direito de trabalhar.

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados.

 

 


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