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Caminhoneiros do Brasil protestam por descontentamento histórico

Caminhoneiros do Brasil protestam por descontentamento histórico
 
Descarga de caminhões no Ceagesp, em São Paulo: entrega de frutas foi reduzida por conta da paralização REUTERS/Nacho Doce

No final da tarde da quarta-feira (25), rodovias de sete estados brasileiros encontravam-se parcialmente bloqueadas por caminhoneiros. O movimento nasceu uma semana antes, de forma espontânea, impulsionado por um aumento no preço do diesel que entrou em vigor pouco antes do carnaval.

A situação causou escassez de combustível e frutas em alguns estados. As principais demandas dos caminhoneiros, que construíram bloqueios e barricadas, são o tabelamento do frete, a redução dos pedágios e do preço do combustível e a melhoria das condições nas estradas.

Eles pedem também que a presidenta Dilma Rousseff impeça a aplicação de uma lei que obrigaria os caminhoneiros a descansar durante 11 horas a cada 24 horas rodadas. Para os caminhoneiros, principalmente os autônomos, todos esses fatores aumentam o custo da atividade ao ponto de quase inviabilizá-la. Gilmar Carvalho, presidente da Federação dos Transportes Autônomos de Cargas de Minas Gerais, explica que a situação era latente e que, cedo ou tarde, uma "explosão" como essa aconteceria.

"Nossa situação de autônomos está super crítica há anos. (...) Os valores de frete que estão totalmente fora da realidade recaem sempre em cima dos autônomos". Carvalho conta que estes valores, que são a principal fonte de renda dos autônomos, vêm caindo sistematicamente, "num contexto em que as safras não param de aumentar".

Parte dessa queda no valor do frete se explica pelo fato de que o governo fez algumas inovações que não tiveram o resultado esperado, principalmente para os autônomos. A melhoria e o aumento nas linhas de crédito para o financiamento de caminhões, por exemplo, beneficiaram as empresas, mas não o autônomo. "O autônomo chega e não consegue o financiamento em banco nenhum", denuncia Carvalho.

Outras medidas, que também teriam a finalidade de melhorar a vida do caminhoneiro acabaram reduzindo a demanda por caminhões. Foram os casos da redução das filas nos portos com o sistema de agendamento eletrônico das entregas e o aumento da capacidade de estocar grãos. Como consequência, o frete encolheu novamente.

Sintoma de doença mais grave

Para o economista Roberto de Góes Éllery Júnior, da Universidade de Brasília, a resolução da paralisação é o menor dos problemas que o governo enfrenta. E o aumento no diesel é sintoma de uma doença mais grave. "A paralisação acaba sendo resolvida porque os próprios caminhoneiros têm a necessidade de rodar. Mas o problema maior da economia brasileira não vai ser resolvido", afirma. Para ele, o potencial do aumento de combustível é "aumentar a economia inteira".

Na opinião de Éllery, o Brasil planejou mal sua estratégia para o setor de petróleo: "Mudou a lei de concessão, não teve sucesso no leilão do pré-sal (apenas um consórcio se apresentou), encareceu em demasia a exploração de petróleo. Tudo isso, somado a uma política interna de controlar o preço do combustível como modo de combater a inflação deixou a condição financeira da Petrobras absolutamente problemática".

Por isso, para ele, independentemente do desfecho da paralisação, o governo ainda se verá às voltas com outros setores descontentes, com novos aumentos de preços e consequentes cortes no emprego. A paralisação dos caminhoneiros - que constituem uma categoria fundamental em um país que transporta a grande maioria de sua carga por via rodoviária - é só a ponta do iceberg.

 


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