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Desafio é regular internet sem tirar liberdade

Desafio é regular internet sem tirar liberdade
 
"Hoje, as redes sociais e os correios eletrônicos já contam com bilhões de “conectados”. Falta ainda atingir os outros bilhões que sobram. " REUTERS/Dado Ruvic/Files

Eric Schmidt, um dois fundadores do Google, declarou em Davos que a internet “ia desaparecer”. Tarados do Twitter tenham calma! Ele não disse que ia acabar, só falou que a rede vai envolver de tal maneira a vida cotidiana do mundo inteiro que ninguém vai mais reparar no assunto. Será como o ar: você respira sem se dar conta, salvo quando falta é claro.

Não se trata de ficção científica. Hoje, as redes sociais e os correios eletrônicos já contam com bilhões de “conectados”. Falta ainda atingir os outros bilhões que sobram. E é exatamente o que algumas empresas americanas estão pretendendo. Pela primeira vez foram criadas firmas privadas para explorar o espaço, ameaçando diretamente o monopólio dos poderes públicos em matéria de satélites. E os satélites são as ferramentas básicas para que a internet funcione.

Dois consórcios, um da Google com a SpaceX, e o outro do trio OneWeb-Virgin-Qualcomm, estão competindo para lançar centenas de pequenos satélites baratos em órbita baixa. A ideia é cobrir o planeta de tal maneira que qualquer pessoa na Terra possa se conectar diretamente, de graça, sem passar pelos cabos terrestres que podem ser controlados pelos governos. E não para aí.

O avanço tecnológico está permitindo colocar chips microscópicos em todos os objetos existentes, desde camisetas e braçadeiras para medir a pressão cardíaca, até geladeiras, carros ou peças e componentes de cadeias de produção. É a famosa nova “internet das coisas”. Daqui a menos de 10 anos, bilhões de produtos e objetos estarão conectados e interagindo entre si e com os humanos. A rede vai engolir tudo.

Escravos da rede

Os tecnófilos, otimistas, já estão celebrando uma nova era, um paraíso da liberdade onde qualquer um vai poder se expressar como e quando quiser, e administrar todos os aspectos da própria vida. Os tecnófobos, cassândricos, estão prevendo um inferno onde qualquer intimidade terá desaparecido e onde as máquinas eletrônicas tomarão conta da vida das pessoas. Seremos escravos da rede.

Claro, não dá para escolher entre a cruz e a caldeirinha. Mas uma coisa é certa: qualquer atividade humana generalizada, como a política, a economia ou até o amor, não se sustenta sem regras. Um mundo onde isso não existe é um mundo violento, caótico e inviável. Queiram ou não os mais otimistas, está chegando a hora de regular a internet. Mas como fazê-lo sem acabar com as liberdades, individuais e coletivas, sem as quais, aí sim, ela morreria de vez?

O recente ciberataque norte-coreano contra a Sony Pictures é só a ponta do iceberg. Todos os dias, milhares de ataques eletrônicos são feitos na rede por governos, terroristas, criminosos, espiões, hackers e lá vai fumaça. Não há mais infraestrutura sensível a salvo de ser paralisada. Pior ainda: qualquer um pode, a partir de um blog ou de contas Twitter ou Facebook, acusar, caluniar, difamar, inventar histórias. Tudo isso anônima e impunemente. Até a imprensa tradicional se sente obrigada a correr atrás dos boatos da rede. A tal ponto que ninguém mais sabe quais as informações fidedignas e quais as mentiras bem ou mal contadas. Ou o mundo vai ter que encontrar um jeito de restabelecer alguns filtros para frear e canalizar essa enxurrada de “bytes” malevolentes, ou a internet vai se comer ela própria.

Guerra cibernética

Já tem muita gente decidindo cortar suas conexões, publicamente. Além do mais, o perigo é resvalar para uma guerra cibernética. Num mundo hiperconectado, ela seria tão devastadora quanto a “velha” guerra nuclear. Hoje, as grandes potências têm interesse em tentar negociar um “ciberdesarmamento”, estabelecendo alguns critérios coletivos de bom comportamento no ciberespaço.

Não é fácil, mas precisamos de uma dissuasão adaptada aos novos tempos. O problema é que os governos já querem aproveitar para voltar a cercear a liberdade de expressão das pessoas e utilizar a rede para restabelecer um controle geral, e até individualizado, sobre cada cidadão. A China, a Rússia ou o Irã já estão bem avançados nesse projeto liberticida.

Regular sem sufocar as liberdades é o desafio dos otimistas. E eles têm bons argumentos: hoje, sem a internet não há criatividade, inovação ou organização social eficiente. A prosperidade dos países e das pessoas dependem cada vez mais da rede. Quem impedir o bom funcionamento da mesma só pode se dar mal. O caos acaba com a vida civilizada, mas o autoritarismo também. Essa, eu vou clicar no “like”.


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