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Civis são as grandes vítimas do conflito na Ucrânia

Civis são as grandes vítimas do conflito na Ucrânia
 
Um homem retira livros e documentos de local bombardeado em Donetsk. Reuters/Serguei Karphukin

O leste da Ucrânia vem vivendo um conflito entre separatistas pró-Rússia e o governo central do país desde abril. Conflito este que já deixou mais de 1,2 mil mortos civis, segundo a ONU. Na semana passada, a Cruz Vermelha definiu o confronto como uma guerra civil. O exército ucraniano tenta recuperar a área conquisada pelos separatistas e prepara um avanço final na cidade de Donetsk.

Sandro Fernandes, correspondente da RFI Brasil, diretamente de Donetsk

Na última segunda-feira, o exército ucraniano pediu que as pessoas aqui de Donetsk, no leste da Ucrânia, saíssem da cidade e deixassem o espaço livre para o avanço das tropas do governo central, que tenta recuperar a região. Lembrando que Donetsk está sob controle dos separatistas pró-Rússia desde abril deste ano. Eles fundaram a República Popular de Donetsk, DNR, na sigla em russo.

Muita gente já tinha saído da cidade com medo de uma escalada na violência, mas essa semana houve uma saída ainda mais visível de pessoas aqui de Donetsk. Centenas de pessoas se aglomeraram todos estes dias na estação central de trem pra comprar passagens para outras regiões da Ucrânia ou para a Rùssia.

Ali da estação de trens estão saindo também ônibus fretados para outras cidades do oeste da Ucrânia e para a Rússia. A cidade de RostovnoDom, na Rússia, a 100km da fronteira com a Ucrânia, é um dos destinos mais procurados.

Eu conversei ontem com uma senhora que estava tentando comprar passagens na estação de trens e já estava há três hora na fila. Ela tem família em Oriol, uma cidade russa, e decidiu sair de Donetsk com a filha, a netinha de dois anos e a cachorrinha. Ela estava na estação, segundo ela, com tudo o que podia carregar. Ela me contou isso com a voz bastante embargada porque a mãe, de 87 anos, se recusou a sair e ficou no apartamento. Eles deixaram comida, água, meios de contato, mas sem dúvida a gente não consegue nem mesmo imaginar a dor que esta família deve estar sentindo por se ver forçada a se separar por causa do conflito.

Sair de Donetsk tem ficado cada vez mais difícil porque os trens aqui no leste da Ucrânia vêm sofrendo atrasos e cancelamentos sem nenhum aviso prévio.

O centro de Donetsk, que é a quinta maior cidade da Ucrânia, já está vazio. Bares, restaurantes, lojas, tudo está fechado. Apenas alguns estabelecimentos mais caros continuam abertos, atendendo à demanda de jornalistas no local. Muitas ruas estão bloqueadas com barricadas e a gente tem a sensação de estar em uma cidade-fantasma.

Semana passada, uma estudante me contava que ela sempre sonhou  ver Donetsk sem engarrafamentos, mas nunca pensou que seria nesta situação. O serviço de ônibus e bondes aqui continua funcionando de maneira relativamente regular, mas fora do centro já há cortes constantes de eletricidade e de água.

Muitos escolhem ficar

Muitas pessoas estão tentando levar uma vida próxima do normal, principalmente nos subúrbios, onde menos pessoas tiveram condições de sair da cidade.

Estas pessoas que ficaram estão estocando comida, já que os produtos nos supermercados são cada vez mais escassos, e correram aos bancos para tirar dinheiro. Os bancos também estão ficando sem dinheiro em papel nos caixas automáticos. No fim-de-semana passado, eu fiz um verdadeiro "tour" com dois jornalistas ingleses pelo centro de Donetsk tentando tirar dinheiro do caixa. A gente só conseguiu na oitava tentativa.

Além da corrida aos supermercados e aos bancos, muitos edifícios reativaram seus bunkers, a maioria construídos durante a União Soviética. Ontem eu visitei um destes bunkers, no subsolo de um edifício de nove andares. O local estava sendo usado pelos moradores pra armazenas coisas que eles não usam, mas devido aos confrotos aqui no leste da Ucrânia, eles mesmos limparam e organizaram o espaço com geradores, água, colchões, cadeiras e até mesmo conexão de Internet. O síndico me disse que mesmo que haja bombardeios e que o edifício seja destruído, o abrigo subterrâneo, que tem capacidade para 300 pessoas, é um local seguro.

Bombardeios diários

Eu cheguei aqui a Donetsk há duas semanas. No primeiro dia, estava na casa da avó de uma amiga minha, a 2km do centro da cidade. Como eu estava cansado da viagem de Kiev, a capital, para cá (foram 18 horas de trem), eu deitei um pouco para descansar. Por volta das 7 da noite, ouvi uma forte explosão e logo senti cheiro de queimado. A avó da minha amiga tentou me tranquilizar e disse que isso estava acontecendo todos os dias. E tem sido assim nestas duas semanas. E ela me disse que esta era a maior sensação de impotência porque o perigo vem do céu e as bombas podem cair a qualquer momento na sua cabeça.

Depois desse primeiro dia na casa da minha amiga, eu me mudei para um hotel, mas a gente continua ouvindo, principalmente à noite, os tiros e as bombas. Às vezes, são cinco minutos consecutivos. Às vezes, são bombas com intervalos de 30 minutos. A zona do aeroporto era a área mais tensa da cidade, mas agora, com a tentativa de avanço do exército ucraniano, a cidade está quase toda cercada e a gente ouve histórias de bombas em diferentes bairros, até mesmo próximo do centro. Hoje de manhã, por exemplo,  acordei com o barulho de uma explosão por volta das 6 da manhã.

O governo central da Ucrânia disse que quer ter esta situação no leste resolvida até o dia 24 de agosto, que é o dia que o país celebra sua independência, mas muita gente aqui acha que o conflito vai durar ainda muitos meses.

Eu estou agora em um centro de refugiados aqui no centro de Donetsk. Apesar da situação em Donetsk ser ruim, há cidades na região onde a situação é ainda pior e Donetsk se transforma em um ponto de segurança para eles. O centro de refugiados aqui consiste em três  edifícios que normalmente funcionam como residencia universitária. Como é epoca de férias, os prédios estão ocupados por centenas de refugiados que vieram, principalmente, das cidades de Luhansk e Shartyorsk.

Há muitas crianças aqui, e é nessas horas que a gente deixa um pouco o jornaliismo de lado e todas as questoes politicas e começa a entender a pergunta bumanitária que as pessoas estao se fazendo: “Quem decidiu que nós temos que morrer?”. Uma mulher, mãe de três filhos entre 2 e 7 anos, veio até mim ainda há pouco e disse assim: “Olha. Você está vendo essa criança de três anos? Ela é o separatista. Ela é o terrorista que os governos inventaram. Eu só quero que ela viva”. E começou a chorar.

Guerra de informações

A gente está, sem dúvida, em uma guerra não só de combate físico, mas de combate de informações. A gente que está cobrindo o conflito recebe o dia inteiro informações com fotos e vídeos, em teoria provando, por exemplo, um ataque do exército ucraniano. Dez minutos depois, alguém publica nas redes sociais que o tal fato é mentira. E isso acontece dos dois lados.

As pessoas aqui no leste da Ucrânia não têm mais acesso à TV ucraniana e só assistem ao que a mídia russa exibe. Ontem, por exemplo, um telejornal do Primeiro Canal, um dos canais estatais da Rússia, dedicou dez minutos do programa apontando mentiras contadas pelos veículos europeus e americanos a respeito do presidente russo Vladimir Putin.

No oeste da Ucrânia e em Kiev, a percepção é exatamente oposta. As pessoas estão fortemente influenciadas pela mídia pró-Europa e anti-Rússia. Elas não apoiam o movimento separatista do leste da Ucrânia e há inclusive um perigoso ressurgimento do nacionalismo ucraniano.

Semana retrasada, lá em Kiev, um jovem, que se definiu como patriota, se aproximou de mim e disse assim: “Você veio aqui para trabahar, mas logo vai embora, né? Mas você nota que não pertence a este lugar, verdade?” Enquanto ele me perguntava isso, ele tocava meu cabelo, que é cacheado. Não tem como não se assustar com este discurso.

No final das contas, estamos numa guerra. Temos mocinhos e vilões dos dois lados e a gente não consegue muito bem identificar etses personagens. O que a gente tem como certo é que as vítimas na história são os civis. Estes sim, não pediram a guerra.


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