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França

“A Conquista do Pão”: padaria comunista seduz clientes do mundo inteiro nos arredores de Paris

media Padaria anarco-comunista "La Conquête du Pain", "A Conquista do Pão", em Montreuil, nos arredores de Paris. RFI/Márcia Bechara

O nome “La Conquête du Pain” [“A Conquista do Pão”] é uma referência direta ao livro de Piotr Kroptkine, antropólogo e geólogo moscovita do fim do século XIX, e principal teórico do comunismo libertário, ou do chamado “anarco-comunismo”. Nada é por acaso nesta padaria fundada em 2010 em Montreuil, na região parisiense. Ela é uma cooperativa autogerida por seus próprios funcionários, onde todos decidem o valor de seus salários, o número de horas trabalhadas por semana e o preço final dos produtos, geralmente 20% a 30% mais baixo do que o praticado no mercado. O critério para fazer parte desta iniciativa? Ser “revolucionário” e recusar o funcionamento “padrão” baseado no lucro a todo custo. A RFI foi conhecer a padaria comunista cujos lanches desaparecem da vitrine em questão de minutos, e que atrai turistas do mundo inteiro.

“Voltaire, Nation, Robespierre”: até os nomes das estações de metrô da linha 9 de Paris parecem avisar ao viajante distraído que ele se encaminha para uma região conhecida como “revolucionária”. É que Montreuil, no leste da capital francesa, reúne uma das comunidades mais engajadas à esquerda do perímetro parisiense. Com prefeitura comunista e vários projetos alternativos, seus moradores se orgulham de suas produções artesanais e de um consumo considerado ecorresponsável.

É o caso da famosa padaria [boulangerie, em francês] “A Conquista do Pão”. Sem chefe nem acionista, ela funciona em regime de cooperativa desde que foi fundada, há quase 10 anos, por dois ativistas libertários, Thomas, do grupo radical antifascista “No Pasaran”, e Pierre, da Federação Anarquista da França. Mesmo praticando preços mais baixos do que o mercado, o forno funciona em produção contínua e os pães artesanais e sanduíches – com nomes como “Rosa Luxembrugo” ou “Angela Davis” – desaparecem da vitrine em questão de minutos.

Lista de sanduíches "revolucionários" oferecida pela padaria anarco-comunista de Montreuil. RFI/Márcia Bechara

Qual o segredo? “Não enriquecemos um patrão”, explica Virginie, ex-antropóloga e atual “boulangère”, uma das frenéticas atendentes da “Conquista do Pão” nesta quarta-feira ensolarada de 11 de setembro. “Como não trabalhamos para gerar lucro para um patrão, conseguimos entregar produtos orgânicos com o mesmo preço de uma padaria normal, e até menores”, diz. A constatação é inevitável. Num país onde os produtos “bio” [como são chamados os orgânicos] possuem preços muito acima dos normais, “A Conquista do Pão” oferece lanches saudáveis com preços abaixo da tabela. Embora a prefeitura de Montreuil seja comunista, a padaria não recebe subvenção municipal e trabalha completamente independente, em sistema de autogestão.

“Não tem mais Bakunin?”

O movimento no pequeno estabelecimento, localizado numa esquina residencial de Montreuil, não para. “Ah, não tem mais o Bakunin? É o que leva maionese caseira, certo?”, decepciona-se o jovem Armand, que veio sedento de Paris para provar o sanduíche inspirado em Mikhail Bakunin, idealizador do pensamento anarquista e fundador do movimento homônimo. “Ah, tem que pedir antes?”. “É mais garantido”, sorri Virginie: “chegue mais cedo da próxima vez”. O conselho vale para qualquer cristão (ou comunista ateu, quem sabe?) que deseje provar os famosos pães artesanais fabricados com farinha e grãos orgânicos, vindos de pequenos fornecedores locais.

Como Juan e sua esposa, um casal que veio de Sevilha, na Espanha, para conhecer a “padaria comunista de Montreuil”. “Todo mundo me disse que eles fabricam a melhor baguette da região”, diz o espanhol, que, mesmo tendo chegado após o meio-dia, quando a maioria dos produtos já foi rapidamente escoada, não deixa de pedir duas “baguettes pré-históricas”, como são conhecidas as baguettes “tradition” feitas com produtos orgânicos. “Este lugar aqui é super bem-cotado”, explica Juan. “Viemos seguindo essa pista a partir de Paris, onde os mestres padeiros já conhecem sua fama”, completa.

Fachada da padaria "La Conquête du Pain", em Montreuil, "orgânica e autogerenciada". RFI/Márcia Bechara

“Recebemos clientes do mundo inteiro”, conta Julien, padeiro autodidata francês que, ainda jovem, viveu no México para conhecer “movimentos revolucionários latino-americanos”. “Há brasileiros que vêm aqui porque já ouviram falar de nosso projeto, assim como paquistaneses, ingleses, norte-americanos, africanos e alemães”, afirma, entre um cliente e outro. “Vivia em Chiapas, no México, mas já conhecia alguns integrantes desta padaria que participam de redes de autogestão solidária”, conta Julien, que cruzou o Atlântico para “construir pontes entre as lutas humanistas e sociais”.

“Não sou acadêmico nem teórico. Não saberia dizer em que etiqueta acredito, mas talvez a anarquia se aproxime do que penso. Sou pela responsabilização de todos, pelas decisões coletivas, pela autogestão”, detalha. Julien se diz satisfeito com o modelo criado e colocado em prática pela padaria “A Conquista do Pão”. “É uma boa experiência. É um projeto que nos exige constantemente uma atualização, uma reciclagem, de tudo o que é relativo à gestão da loja, mas também de tudo que é humano e pessoal”, diz.

As famosas produções artesanais da padaria anarco-comunista de Montreuil atraem turistas do mundo inteiro. RFI/Márcia Bechara

“Não é simples”, confessa Julien. “Não estamos acostumados a este tipo de modelo. Além do esforço que fazemos do ponto de vista do trabalho com os pães e a padaria, há também todo o lado administrativo, da logística e da organização. Há também o lado psicológico da coisa, tentamos resolver nossas expectativas internamente, nossas demandas”, avalia.

Conceito

“A ideia principal deste lugar é ser dono de sua própria ferramenta de trabalho”, explica Virginie, que há dois anos faz parte do time da “padaria comunista”. “Romper com a exploração salarial, ser mestre de si mesmo, da maneira como se organiza o trabalho, a autogestão, é isso que nos interessa”, conta. “O pão é um valor muito importante. Desejamos também promover o acesso a um bom produto a preços razoáveis. Qualidade e acessabilidade para todos”, diz.

“Temos todos a mesma base salarial. Ninguém ganha mais. Existem pequenas diferenças apenas em casos de adicionais para quem trabalha de noite ou aos domingos”, explica. Todas as decisões da padaria comunista são tomadas durante assembleias gerais, que acontecem a cada 15 dias, e reúnem a totalidade dos funcionários, mesmo os “aprendizes”, segundo conta Virginie. “Quase todos hoje trabalham num regime entre 30 e 35 horas semanais”, diz a antropóloga, com doutorado sobre o Movimento Zapatista no México e especialista em movimentos de moradia alternativos. Ela abandonou todas as “missões” nas maiorias universidades francesas para viver algo “mais em harmonia” com o que pensa e sente “a respeito do mundo”. “Quis sair do sistema e viver um projeto coletivo”, diz ela, que chegou a pesquisar movimentos pró-moradia em Porto Alegre, no Brasil, em 2009.

Panfletos "revolucionários" na padaria anarco-comunista de Montreuil, 11/09/2019. RFI/Márcia Bechara

“Quando cheguei, trabalhávamos de 24 a 28 horas por semana com salários bem altos. Mas entendemos que esse modelo não seria autossustentável, então fomos nos readaptando. Hoje, voltamos a subir nosso salário quase ao patamar de antes, mas o número de horas permanece”, diz. “Assim, conseguimos nos dedicar integralmente à padaria, sem ter que nos desdobrar em outros trabalhos”, explica. “Decidimos tudo isso juntos, em nossa cooperativa. Não temos chefe, apenas a figura de um ‘gerente’, apenas para fins administrativos”, conta.

“Vejo muita gente aqui na padaria, ainda pratico muito de antropologia nesta boutique”, diverte-se Virginie, que assume gostar do movimento, cheio de sotaques. Entre tantos sanduíches revolucionários, com nomes como “Malatesta” (presunto cru, molho pesto e rúcula) e “Marx” (presunto, queijo gruyère e salada verde), pergunto se um dia a padaria comunista de Montreuil terá uma baguette assinada “Lula da Silva”.

“Não acredito não, ele não é suficientemente revolucionário”, diz Virginie, entre risadas. “Acho que nunca teremos um sanduíche com nome de alguém que pertença a um partido político, mesmo se esse partido tiver feito avançar causas sociais pelo mundo”, afirma. “Qualquer partido é passível de corrupção”, diz essa antropóloga de formação, e padeira anarco-comunista por convicção.

Cesta solidária, onde o cliente pode deixar uma baguette "reserva" para quem não pode pagar. RFI/Márcia Bechara
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