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França

Especialistas franceses acreditam que discutir questão da Amazônia no G7 não é ingerência

media Um homem trabalha em um trecho em chamas da selva amazônica enquanto é desmatado por madeireiros e agricultores em Iranduba, estado do Amazonas, Brasil, 20 de agosto de 2019. REUTERS/Bruno Kelly

Na troca indireta de tuítes que ocorreu nas últimas horas entre o presidente francês, Emmanuel Macron, que fala em “crise internacional” e pede aos países do G7 que ajam pela Amazônia e a resposta do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que o acusa de “instrumentalizar uma questão interna” e de ter uma “mentalidade colonialista”, fica a questão: o G7 discutir o tema sem a presença dos presidentes da região amazônica seria uma ingerência?

Para o geógrafo e diretor emérito de pesquisa do CNRS – CREDA (Centro Nacional de Pesquisa Científica - Centro de Pesquisa e Documentação das Américas) Hervé Théry, não é ingerência estrangeira, por tratar-se de um problema mundial.

“Cabe lembrar que a França tem uma presença lá, que é a Guiana Francesa, e o problema da Amazônia é um problema planetário. E, em sendo um problema planetário, como direitos humanos, refugiados, ecologia, pode-se dar palpites sobre assuntos internos de um país. Neste caso, se pode pensar em dar avisos ou advertências em países estrangeiros”, diz Théry, que é também professor de pós-graduação na Universidade de São Paulo (USP-PPGH).

Théry lembra que não é a primeira vez que os países do G7 se envolvem nesta questão. “O G7 já fez, nos anos 90, fez um grande programa, de 250 milhões de dólares, o PPG7, Programa Piloto do G7, para a Preservação das Florestas Tropicais do Brasil. Então o G7 já teve uma ação muito importante no passado, notadamente na delimitação de terras indígenas”, diz Théry.

O geógrafo também analisa o discurso de Bolsonaro como pouco efetivo. “Até agora, a resposta dele tem sido contra-atacar. Aliás, a associação de ONGs brasileiras, a Abong, soltou uma nota dizendo que Bolsonaro não precisa das ONGs para queimar a imagem do Brasil pelo mundo”, diz o professor, para quem a imagem do Brasil no mundo já foi afetada negativamente. 

Segundo Christophe Ventura, diretor de pesquisa do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, especialista em América Latina, “isso tudo é uma questão de interpretação e de guerra de comunicação política”.

“Discurso para justificar o agronegócio”

“O propósito do presidente brasileiro nesses tuítes se inscreve em uma estratégia de discurso que já é elaborada desde a sua ascensão à presidência, sua linha política é de explicar ao mundo que a questão da Amazônia é uma questão de soberania para o Brasil e de desenvolvimento do país”, comenta Ventura.

“Bolsonaro tenta culpar os europeus em particular – e menos os americanos, eu tenho de dizer, porque com Donald Trump ele achou um parceiro a quem ele escancara as portas do Brasil e da Amazônia, e neste caso ele não evoca o imperialismo americano. Então a gente vê que é um discurso de geometria variável e que serve sobretudo a se opor aos europeus e à França de maneira mais particular, devido ao Acordo de Paris e a questão climática”, continua o pesquisador.

Segundo o especialista em América Latina, este discurso é feito para justificar a política do setor do agronegócio, “que agora está no poder no Brasil”. “Os ministros do Meio Ambiente e da Agricultura são eles mesmos representantes deste setor, que sempre foi muito poderoso no Brasil. Mas hoje a diferença é que, sob Bolsonaro, este setor está diretamente no poder.  E o discurso de Bolsonaro é feito para favorecer os interesses deste setor no Brasil. Seu discurso deve ser lido nesta perspectiva”, analisa.

Para Ventura, o fato de a França confrontar Bolsonaro agora, é também uma oportunidade política para Macron. “Emmanuel Macron, como presidente do país onde foi assinado o Acordo de Paris, encontra uma postura internacional que é importante para ele. O presidente Macron tem legitimidade, seja pelo Acordo de Paris, seja pela sua maior fronteira, que é com o Brasil”, diz ele, evocando a Guiana Francesa, cujo território também abriga parte da Floresta Amazônica.

O que o G7 pode de fato fazer?

“Concretamente, o G7 e a comunidade internacional não podem fazer muito. Os países do G7 têm fortes divergências entre eles. Além disso, Donald Trump está alinhado com Bolsonaro”, considera Ventura.

“A questão dos recursos amazônicos foi uma questão importante entre Bolsonaro e Trump, quando o presidente brasileiro visitou Washington. Bolsonaro e Trump estão alinhados sobre as questões do aquecimento global, de como explorar os recursos da Amazônia, sobre as parcerias agrícolas e de minérios, porque Bolsonaro quer abrir a Amazônia à exploração de minérios. O G7 não pode fazer grande coisa”, lamenta.

Mas, segundo Ventura, a mobilização internacional, de chefes de Estado, do secretário geral da ONU, de personalidades do mundo da música, dos esportes, das artes etc. servem para fazer pressão para o governo brasileiro. Théry também concorda que a pressão internacional pode ajudar Bolsonaro a entender a gravidade da situação.

“Porém não acredito que isso vá trazer restrições ao governo Bolsonaro. Esta atividade do agronegócio brasileiro prospera em um sistema econômico internacional. O comercio exterior brasileiro é baseado no agronegócio porque tudo o que eles exportam é consumido pelo mundo inteiro”, revela Ventura.

Ventura tampouco acredita que haverá sanções, porque os interesses econômicos dos países desenvolvidos no mercado brasileiro falarão mais alto. “Só os Estados Unidos hoje, no mundo, aplicam sanções extraterritoriais e eles são aliados de Bolsonaro. Há muito interesse econômico e financeiro na abertura do mercado brasileiro, que foi anunciada por Bolsonaro, para o capital internacional, para a modernização da infra-estrutura de estradas, portos e aeroportos”.

“Eles querem aproveitar desta abertura e Bolsonaro conta com isso para acalmar os que hoje fazem pressão”, conclui Ventura.

Relações entre França e Brasil

Ventura considera a declaração do presidente francês Emmanuel Macron sobre Bolsonaro, em que o francês diz que Bolsonaro mentiu sobre seu comprometimento com o meio ambiente e que isso faria a França se opor ao acordo entre a União Europeia e o Mercosul como “parte de uma batalha diplomática travada entre os dois países”.

“A gente vai entrar num período longo, que vai ser ditado pelo desmatamento da Amazônia e pelo acordo com o Mercosul, que de qualquer forma não está pronto. Nós estamos no meio de uma batalha diplomática, mas no momento, não tem ruptura. De qualquer forma, esta declaração de Macron hoje marca um confronto assumido”, analisa.

“A gente sabe, porém, que a relação entre Bolsonaro e Macron já era apimentada há mais tempo, temos os episódios em que Bolsonaro  rejeitou o fato de Macron ter recebido o cacique Raoni no Palácio do Eliseu, em maio. Em julho, a humilhação a que ele submeteu o ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Yves Le Drian, quando desmarcou um encontro em cima da hora, por considerar que a França já estava fazendo a ingerência da qual ele fala agora”, destaca Ventura, lembrando que a animosidade entre os dois presidentes não está apenas ligada à conjuntura atual do G7 e dos incêndios na Amazônia.

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