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França

Falta de remédios básicos afeta 25% dos franceses; médicos defendem repatriar produção da Índia e da China

media Vinte e um países europeus registraram rupturas de estoque de medicamentos no ano passado. Pixabay

A França atravessa uma escassez crescente de medicamentos que chegou a um ponto preocupante na avaliação de um grupo de 26 médicos. Os especialistas acabam de publicar um manifesto na imprensa em que denunciam a penúria de remédios comuns, como corticóides - indispensáveis para quem tem asma ou sofre de doenças autoimunes - antiepiléticos, moléculas contra o câncer, para controlar a pressão alta, antibióticos, anticoncepcionais e vacinas.

Um quarto dos franceses são afetados pela escassez de remédios. Em 2008, a Agência Nacional de Segurança dos Medicamentos (ANSM) registrou 44 tratamentos em ruptura de estoque. Dez anos depois, em 2018, o número de moléculas com problemas de abastecimento saltou para 868, ou seja, 20 vezes mais do que no início da penúria. Segundo os médicos signatários do artigo, publicado no Journal du Dimanche (JDD), a principal razão do problema é que a produção dos princípios ativos de 80% dos medicamentos em falta caiu em domínio público e foi transferida para a Índia e a China por razões financeiras. Eles defendem o repatriamento da produção na Europa.

As sucessivas rupturas de estoque não afetam as inovações terapêuticas – mais caras e disponíveis nas farmácias –, mas sim os remédios mais antigos, que, por uma questão de baixa rentabilidade tiveram a produção terceirizada pelos laboratórios para países distantes do continente europeu, explicam os especialistas. A questão é que, até hoje, esse conjunto de substâncias constitui o grosso das prescrições médicas.

Crise afeta cortisona, antiepiléticos e remédios contra o câncer

Neste ano, com a chegada da primavera e o aumento da concentração de pólen no ar, os franceses que sofrem de rinite e outras reações alérgicas provocadas pela polinização padeceram com a ruptura dos corticoides, usados para atenuar os efeitos desagradáveis das alergias. A angústia tomou conta dos asmáticos, que também dependem da cortisona para diminuir a inflamação crônica dos brônquios.

Matthieu Gaudin, um morador da região parisiense ouvido pela RFI e que toma cortisona diariamente há dois anos, devido a uma doença autoimune, foi obrigado a diminuir a dose recomendada, partindo o comprimido diário em duas partes para esticar seu efeito, ainda que de forma insuficiente.

Doentes com enfermidades sujeitas a interações psiquiátricas sentem um prejuízo maior. É o caso de Elizabeth Humbert, portadora do Mal de Parkinson: a dificuldade de encontrar o medicamento que controla seus tremores adicionou um quadro de estresse à paciente.

Jean-Marie Semet, portador de um câncer na bexiga, teve de interromper o tratamento que fazia com mitomicina por ruptura de estoque do quimioterápico. "O hospital ficou de telefonar quando recebesse uma nova remessa, mas não ligaram", relatou. A solução, no caso dele, foi mudar de terapia para uma molécula mais cara.

O presidente da associação de pacientes France Assos Santé, Gérard Raymond, considera inadmissível que pessoas com câncer, Parkinson ou epilepsia crônica fiquem privados de seus remédios. "Não são produtos de consumo como os outros e não devem ficar sujeitos à lógica da rentabilidade financeira", destacou o presidente da associação.

Iniciativa americana inspira médicos franceses

O médico Francis Berembaum, um dos 26 signatários da tribuna publicada no JDD, diz que não é utópico repatriar a produção dos princípios ativos na Europa. O custo de fabricação desses elementos representa uma pequena parcela do produto processado, o que não deve ter forte impacto no preço final dos remédios.

A criação de um estabelecimento farmacêutico não lucrativo, se possível europeu, como sugerem os especialistas, é vista como uma saída para contornar certas práticas do mercado. Na distribuição dos estoques entre os países do bloco, muitos laboratórios dão preferência à Alemanha e à Itália em detrimento da França, uma vez que os vizinhos remuneram melhor a indústria. Os franceses também se inspiram na experiência americana. Nos Estados Unidos, após uma série de crises de falta de medicamentos e de fortes altas nos preços, 500 hospitais se juntaram para fundar uma entidade que passou a fabricar as moléculas que haviam caído em domínio público.  

Em julho, o Ministério da Saúde francês anunciou uma série de medidas para reduzir a pressão sobre os estoques. Entre elas, a ministra Agnès Buzyn propôs melhorias de comunicação na cadeia de fornecedores de insumos, fabricantes, distribuidores e varejistas no âmbito do Plano de Gestão das Penúrias (PGP). Mas médicos e farmacêuticos não notaram diferença até o momento. Os especialistas reclamam medidas mais fortes, como obrigar os laboratórios a aumentar os estoques constituindo vários meses de reservas. A ministra reconheceu que a resposta à escassez de medicamentos deve envolver uma estratégia europeia, integrando uma harmonização das regulamentações.

Brexit pode ampliar a crise

Os médicos franceses têm uma outra razão para soar o alarme. Com a aproximação do Brexit, previsto para 31 de outubro, o setor será novamente impactado.

O Reino Unido exporta mensalmente 45 milhões de caixas de remédios à União Europeia. De acordo com analistas, uma saída dos britânicos do bloco sem acordo deverá perturbar o abastecimento. Tanto o transporte dos medicamentos quanto o de componentes químicos será provavelmente afetado por atrasos nos controles nas fronteiras. Andy Powrie-Smith, da Federação Europeia das Indústrias e Associações Farmacêuticas, declarou à agência Reuters que por mais que a indústria tenha adotado planos para enfrentar os dois cenários – um divórcio com ou sem acordo –, o chamado Brexit "duro" teria impacto nas entregas na Europa. Cerca de 6.000 novos produtos ainda devem passar por um novo processo de licenciamento na Agência Europeia de Medicamentos (EMA), organismo de regulamentação do setor.

A falta de remédios nas farmácias não atinge apenas a França. Um relatório da Comissão Europeia publicado em junho mostrou que 21 países europeus registraram períodos de ruptura de estoques no ano passado.

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