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Paris oferece teste de HIV gratuito em laboratórios privados, inclusive para estrangeiros

Paris oferece teste de HIV gratuito em laboratórios privados, inclusive para estrangeiros
 
O projeto da Prefeitura quer atrair pessoas que não costumam fazer o teste de HIV. AFP/Manjunath KIRAN

A prefeitura de Paris anunciou recentemente uma audaciosa iniciativa para contribuir na luta contra o HIV e a AIDS na França: a gratuidade de testes para verificar a sorologia em todos os laboratórios da capital. A iniciativa inclui também o departamento dos Alpes Marítimos, no sul da França, que fica em segundo lugar em número de casos de contaminação, logo depois da região parisiense.

A operação, que terá um período de teste de um ano, foi batizada de "Au labo sans ordo", ou seja, "No laboratório sem receita", numa referência ao fato de que qualquer um pode fazer seu exame de HIV sem hora marcada, sem necessidade de apresentar documentos, sem prescrição médica e, sobretudo, sem precisar abrir a carteira.

A ideia é banalizar esse tipo de exame, como afirma Sandrine Fournier, diretora da associação Sidaction. “Hoje, é absolutamente necessário nos focarmos nos testes. Estimamos em 24 mil o número de pessoas que vivem com o HIV sem ter consciência, cerca de 3600 em Paris e 10 mil na região metropolitana”, diz.

“Os laboratórios privados são numerosos em Paris, temos cerca de 170 em toda a cidade, que permanecem abertos de manhã cedo até à noite e também nos sábados”, ressalta Sandrine Fournier. Ou seja, os horários são mais flexíveis e adaptados ao modo de vida de pessoas que trabalham e que não poderiam comparecer a um centro público de prevenção em horário comercial.

De acordo com a agência nacional de saúde pública da França, 30% das pessoas diagnosticadas em 2017 estavam em um estágio avançado da infecção e metade delas nunca tinha feito o teste.

Obstáculos no acesso ao teste de HIV

Para Sandrine Fournier, o fato de não precisar de receita médica é importante. “As muitas etapas que nos separam dos exames são obstáculos. É preciso encontrar tempo, ver um médico, estar confortável para pedir ao profissional de saúde um exame de HIV… E mesmo que você não tenha seguridade social ou documentos, não tem problema, a agência regional de saúde vai pagar pelo teste”, explica. “Sabemos que as pessoas sem documento oficial na França costumam hesitar antes de ir a estabelecimentos de saúde ou até mesmo antes de sair na rua, mas elas podem estar seguras de que serão recebidas sem questionamentos e de que poderão fazer o teste como qualquer outra pessoa com seguro médico.”

O brasileiro Leonardo Lordello, que faz doutorado em Medicina em Paris, vê com otimismo a medida da prefeitura. “Com certeza popularizar o teste é importante. Mas vale lembrar que essa é apenas uma das estratégias de combater o HIV, afinal de contas você precisa ter outras medidas, como acompanhar o paciente em caso de resultado positivo”, afirma o médico.

O jovem ainda não se testou em 2019, mas pretende fazê-lo – sobretudo agora que ficou mais fácil. “Claro que é bom saber que a gente não precisa pagar por isso. Essa medida da prefeitura ajuda sobretudo as pessoas que vêm de fora. Ainda por cima aqui na França, com muitos estrangeiros de países da África subsariana, onde tem uma maior incidência do HIV”, ressalta.

Início do tratamento ainda é tardio em muitos casos

A médica Françoise Fournival, que trabalha no laboratório privado Synlab, explicou para a RFI o passo a passo do exame de HIV gratuito: “Os pacientes se apresentam, sem precisar ter hora marcada, nem receita médica, e tudo é subsidiado pelo Estado. Os pacientes podem apresentar ou não um documento oficial, porque de qualquer forma eles não pagam. Um teste como esse custa 24 euros”.

Em caso de resultado positivo, dois outros testes são realizados antes que o anúncio seja feito ao paciente, explica a especialista, que ressalta a urgência da situação na capital. “A prefeitura lançou esse programa na região parisiense porque se deu conta de que descobrimos as infecções um pouco tarde. No meu laboratório, houve casos de descobertas após um ou dois anos da infecção”, conta. Menores de idade, no entanto, precisam estar acompanhados de um adulto. Caso contrário, são encaminhados a um centro público de saúde.

“Na França, já realizamos um grande número de testes: 6 milhões por ano. Somos os campeões da Europa mas, ainda assim, não descobrimos muitos novos casos de infecção por HIV de um ano ao outro”, contrapõe Sandrine Fournier. “Então, sabemos que há um problema. A questão principal na França é tornar o exame atraente às pessoas que mais precisam dele”, isto é, quem não faz o teste regularmente. Agora é preciso esperar o próximo ano para acompanhar os resultados do programa de teste gratuito de HIV em Paris.


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