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França

Mulheres exigem que responsabilidade da contracepção também seja do homem

media Samantha Miler Bellut consulta o marido para saber quando podem ter relações sem risco de gravidez. RFI/ arquivo pessoal

Já que a mulher não faz um filho sozinha, por que ela deveria ser a única a se preocupar com a contracepção do casal? Esse questionamento tem levado cada vez mais mulheres a abandonar a pílula e exigir que o parceiro também assuma a responsabilidade de evitar uma gravidez indesejada.

O maior conhecimento dos efeitos colaterais e a busca por mais equilíbrio entre o casal na prevenção da gestação explicam a diminuição pelo interesse por aquela que, nos anos 1960, foi festejada como um dos maiores avanços para a liberdade das mulheres. Na França, o uso da pílula caiu 20% nos últimos 15 anos.

“Não somos contra a pílula ou o DIU, mas queremos que contraceptivos eficazes e sem efeitos secundários sejam desenvolvidos, que possam ser compartilhados entre o casal”, argumenta uma tribuna publicada por um grupo de mulheres no jornal Libération, intitulada Cansadas de sofrer pela nossa contracepção. “O termo ‘contracepção’ não deve mais ser sistematicamente associado às mulheres”, diz o texto.

“As pesquisas já mostraram que é possível ter uma pílula masculina, mas o problema é que ela teria efeitos colaterais equivalentes aos causados nas mulheres, algo que é considerado inaceitável pelos homens. Porém, para as mulheres, é considerado como algo que elas podem suportar”, resume à RFI a jurista e militante feminista Marie Hélène Lahaye, uma das autoras do artigo. “A contracepção masculina é muito pouco desenvolvida e, mesmo quando é pesquisada, não vai adiante para que as coisas não mudem e continuem sendo ‘coisa de mulher’”, avalia.

“Hoje eu posso, amor?”

Faz muitos anos que Samantha Miler Bellut, 32 anos, decidiu que evitar uma gravidez indesejada é, sim, coisa de homem também. Ela e o marido utilizam um aplicativo no celular para identificar os períodos férteis dela, durante os quais é melhor evitar as relações ou utilizar preservativo. “Ele acessa até mais do que eu. Joguei totalmente nas costas dele. Só pergunto: ‘estou podendo hoje, amor?’, e ele vai correndo checar no celular”, brinca a brasileira, casada com um francês.

O casal mora em Franconville, na periferia de Paris, tem um filho e planeja um segundo herdeiro nos próximos anos. Depois, caberá ao marido fazer uma vasectomia. Samantha contou com a ajuda da sogra médica para esclarecer o marido sobre as vantagens do método, que pode ser reversível. “Ele ficou um pouco assustado no início, mas mais por falta de informação. Hoje, é uma decisão tomada em comum acordo.”

Riscos de trombose e perda da libido

Entre as signatárias do artigo sobre o assunto está a presidente da Associação Francesa das Vítimas de Embolia Pulmonar e AVC pela Contracepção Hormonal. Os problemas de circulação e as variações de peso foram as razões que levaram a atriz Daniela Lemes, 30 anos, a se informar melhor sobre a pílula. Depois de tomá-la durante cerca de 10 anos, ela abandonou as cartelas e, desde então, adota a camisinha e a tabelinha para evitar uma gravidez. Ela não demorou para perceber que o homem também deveria ter um papel mais ativo nessa missão.

Daniela Lemes quis evitar os efeitos colaterais e "descobriu" o próprio corpo ao natural. RFI/ arquivo pessoal

“Eu não conhecia o meu próprio organismo ao natural porque tinha um hormônio que me afetava todo o mês. Quando eu parei, achei essa descoberta incrível”, relata a estudante de mestrado em Paris. “Eu vi que isso era uma coisa que prejudicava o meu corpo e achava injusto só eu ter que arcar com consequências, sendo que a finalidade é a preservação do casal.”

A perda da libido durante o uso da pílula, descrita pelo grupo de mulheres francesas no texto, foi uma das maiores mudanças que Daniela logo percebeu, ao conhecer o seu estado “normal”. “Quando não tínhamos informação, normalizávamos os efeitos colaterais da pílula. Parar com ela fez uma diferença gigantesca na minha vida: é um novo mundo que se abre”, afirma a atriz.

Resistências dos médicos

“É inacreditável, mas o simples fato de conseguir debater sobre os efeitos colaterais da pílula já é um avanço, porque até pouco tempo atrás, os médicos diziam que as mulheres estavam com problemas psicológicos quando elas reclamavam de enxaquecas e outros sintomas da pílula”, destaca Marie Helène Lahaye.

Débora Carvalho achou mais fácil colocar um DIU na França do que no Brasil. RFI/ arquivo pessoal

O grupo de feministas francesas exige que, além de mais pesquisas sobre métodos contraceptivos menos prejudiciais à saúde, as alternativas aos hormônios sejam mais estimuladas por médicos e profissionais da saúde. Ao morar na França, a mestranda em Inovação e Desenvolvimento Social Débora Carvalho, por exemplo, percebeu que os homens franceses aceitam bem menos o uso da camisinha do que os brasileiros. Por outro lado, achou muito mais fácil colocar um DIU na França do que no Brasil.

“O meu ginecologista brasileiro nem me deu a opção do DIU de cobre, só o de hormônios, que era o único coberto pelo governo. Mas nem se eu pagasse, ele não aceitava de colocar o de cobre”, diz . “Eu amo o meu corpo e tenho pavor de hormônios. Nunca aceitei a ideia de tomá-los para uma função que, na realidade, é compartilhada entre o casal. No meu caso, essa tarefa de evitar a gravidez sempre foi dos dois.”

Débora conta que, ao chegar na França, colocou o DIU de cobre sem ter de dar nenhuma explicação. “E ainda não paguei nada.”

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