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França

Eles escolheram não beber mais e enfrentam pressão social para voltar atrás

media Abstêmios aprenderam a se divertir sem a bebida. ®Reuters

As festas regadas a álcool tinham seu valor – Paulo se divertia, dançava e paquerava, integrado ao grupo de amigos que, como ele, não tirava o copo da mão. Mas com o passar dos anos, os dias seguintes ao consumo ficaram cada vez mais difíceis de suportar: cansaço, dor de cabeça e outras sequelas atrapalhavam as atividades cotidianas. Foi quando ele decidiu fazer um teste e ficar um período sem beber – e não voltou mais atrás, nem mesmo no Carnaval.

As razões para parar de beber são as mais diversas, mas, em comum, aqueles que abandonaram o álcool garantem: hoje se sentem bem melhor e mais donos de si, ao tomar distância dos efeitos negativos que a bebida pode causar.  

Em Paris, a professora Rosa, por exemplo, percebeu que nem precisava chegar ao dia seguinte para se sentir mal. O consumo de álcool gerava dificuldades para dormir e extravasava um mal-estar que, sem a bebida, ela não sentia. O estopim da decisão foi perceber que, no período pré-menstrual, beber a fazia se sentir ainda pior. “Me dei conta de que, no fundo, o álcool não tinha um bom efeito em mim, na minha estabilidade e no meu humor. E alguns tipos de bebida me dão muito sono e têm o efeito contrário do bem-estar que a gente espera”, conta a italiana. “Então eu parei.”

O servidor Paulo Henrique dos Santos acaba de passar o primeiro Carnaval sem álcool. Arquivo pessoal/ RFI

Explicações para os amigos

Mas parar não é tão simples assim. A bebida é encarada como uma ferramenta de integração social e, com frequência, os abstêmios são alvo de pressão ou piadas de amigos e familiares. Ao contrário dos não-fumantes, que são vistos com normalidade, os que recusam o álcool sempre têm de dar uma explicação para a escolha.

“Eles não entendem que eu aprendi a me divertir de outra forma, sem precisar do álcool. Agora, no carnaval, ninguém acreditava que eu não iria beber e não paravam de questionar por quê”, relata o servidor público Paulo Henrique dos Santos, 30 anos.  “Quando eu levo cerveja sem álcool para uma festa em casa é o momento que ouço mais piadas. Mas eu faço isso justamente para me sentir mais integrado e tentar passar despercebido”, conta o morador de Belo Horizonte. 

A professora Rosa deixou o álcool para ter mais disposição para fazer longos passeios nos fins de semana. RFI/ arquivo pessoal

“Acontece com frequência de a pessoa com quem eu saio fazer uma cara feia e dizer que, neste caso, também não vai beber”, complementa Rosa. “E quando me perguntam por quê, nunca sei o que responder, porque a resposta é intima e nem sempre estou a fim de falar a respeito. Então acabo inventando uma desculpa qualquer.”

Que o diga o engenheiro alemão Christian Ast, 56 anos, que cansou de ouvir referências irônicas à sua nacionalidade quando recusava um copo de cerveja. “Ao contrário das aparências, conheço muitos alemães que não bebem. É um clichê”, afirma.

Cerveja com Coca-Cola

Com o passar do tempo, ele aprendeu a lidar com a pressão social a favor da bebida – e a ignorá-la. “Quando eu tinha 25 anos, percebi que eu bebia mais por causa dos amigos do que pela minha vontade de verdade. Não queria ficar isolado no grupo”, relembra. “Mas desde essa época, eu nunca gostei muito de álcool. Quando eu comecei a consumir, gostava de misturar cerveja com Coca-Cola para dissimular o gosto”, diverte-se.

Hoje, o engenheiro costuma aceitar uma taça de champagne para um brinde ou algo semelhante. Mas para evitar as insistências para beber mais nos jantares e festas, Christian adotou uma estratégia: segura um copo cheio de vinho, que finge estar degustando a noite inteira.

Para começar, um mês sóbrio

Combater essa pressão social em favor do exagero do álcool é um dos objetivos do grupo Mois Sobre (mês sóbrio, em francês), fundado pela ex-dependente francesa Laurence Cottet. A ideia se inspirou em uma iniciativa inglesa, o January Dry, que consiste em adotar a abstinência durante o mês de janeiro para compensar os excessos das festas de fim de ano.

“Eu não ousava dizer ‘não’ e é por isso que virei alcóolatra. Estamos quebrando um tabu e finalmente nos questionando sobre qual, afinal, é um consumo razoável de álcool”, indica Laurence. Poucos dias depois de aberto, o grupo no Facebook recebeu mais de 20 mil comentários de pessoas interessadas em saber como fazer para reduzir o consumo da bebida no cotidiano.

Laurence avalia que essa mudança de hábitos se inscreve em uma busca crescente por uma melhor qualidade de vida, mais saudável e sem excessos – seja com menos gordura e agrotóxicos na alimentação ou diminuindo álcool a no máximo duas taças por dia, poucos dias na semana. “Não se trata de parar completamente, mas de beber com qualidade. Eu continuo a apreciar vinhos, porém não posso mais tocar em um porque exagerei demais no passado”, comenta.

Rosa, por exemplo, não recusa uma boa taça em uma ocasião especial. Mas, definitivamente, substituiu os domingos de ressaca por atividades físicas e longos passeios na natureza. “Foi uma mudança no meu estilo de vida que vai além do álcool. Passei a acordar cedo para aproveitar o dia e fazer outras coisas que hoje me dão mais prazer do que a bebida”, revela.

Beber demais será coisa do passado?

A preocupação com a saúde e o bem-estar também motivam Christian a manter a decisão de beber quase nada. “Eu vejo as diferenças físicas em relação às pessoas que bebem regularmente. Os homens ficam todos com aquela barriga enorme e com a pele mais envelhecida. Tem uma grande diferença, visível, entre quem bebe e quem não bebe com frequência”, compara.

As pesquisas indicam que a atração dos jovens pelo álcool está em constante declínio em diversos países, como a França. Em 2018, 85,7% dos menores de 17 anos já tinham experimentado bebidas alcoólicas, contra 89,3% em 2014. Mais impressionante, na Inglaterra, um estudo da University College London mostrou que 29% dos jovens de 16 a 24 anos declararam beber “raramente” - contra 18% que davam essa resposta em 2005.

A pesquisa revelou que, para esse público, a bebida é cada vez menos percebida como um fator de integração, e a embriaguez deixou de ser encarada com algo bacana para se tornar “embaraçosa”. Pode ser um sinal de que, no futuro, beber demais será considerado “coisa de velho”.

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