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França

Agressão antissemita contra filósofo em ato de coletes amarelos gera indignação na França

media O site da FranceInfo mostra em sua manchete o filósofo Alain Finkielkraut na manifestação em que foi agredido ontem pelos coletes amarelos. FranceInfo

O Ministério Público de Paris abriu neste domingo (17) uma investigação sobre insultos antissemitas contra o filósofo e acadêmico francês Alain Finkielkraut, agredido verbalmente ontem à margem de uma manifestação dos coletes amarelos no bairro de Montparnasse, em Paris.

O filósofo foi vaiado e xingado de "judeu sionista de merda", além de outros insultos, enquanto manifestantes gritavam "Palestina", "nós somos o povo", "fora judeu, a França é nossa". A agressão foi registrada em vídeos compartilhados nas redes sociais. Finkielkraut coleciona polêmicas, porque tem posições consideradas por outros intelectuais como reacionárias.

A promotoria esclareceu que vai investigar se houve "injúria pública em razão da origem, etnia, nação, raça ou religião, proferida oralmente, por escrito, por meio de imagem ou de comunicação eletrônica".

Políticos franceses condenam por unanimidade a virulência das palavras dirigidas ao intelectual. Em um tuíte, o presidente Emmanuel Macron disse: "Filho de imigrantes poloneses e acadêmico francês, Alain Finkielkraut não é apenas um eminente homem de letras, mas um símbolo do que o sistema republicano francês permite a cada um". Macron acrescentou que os insultos antissemitas são a "negação absoluta do que são os franceses e o que faz da França uma grande nação".

Posições do filósofo causam polêmica

Finkielkraut se envolve frequentemente em controvérsias. Ele recebeu uma formação intelectual de esquerda, mas se tornou um fervoroso defensor da "identidade nacional", um dos temas prediletos da extrema direita, o que faz com que seja chamado de "neoreacionário" por seus detratores.

Em entrevista ao canal de TV LCI, ele disse não ter tido tempo para ficar com medo quando foi insultado e vaiado pelos manifestantes. "Eu não sou nem uma vítima nem um herói", afirmou, acrescentando que não pretende prestar queixa na polícia sobre o incidente.

Em outra entrevista, ao JDD (Journal du Dimanche), Finkielkraut disse que "sentiu um ódio absoluto" nas palavras dirigidas a ele. Mas relatou ter ficado tranquilo pela presença de policiais na manifestação. "Eu teria ficado com medo se não houvesse a polícia, mas felizmente eles estavam lá".

O ministro do Interior, Christophe Castaner, indicou pelo Twitter que "um suspeito, reconhecido como o principal autor dos insultos, foi identificado pelos nossos serviços".

Entidade judaica lamenta radicalização

Os insultos antissemitas, homofóbicos e xenófobos têm marcado as manifestações dos coletes amarelos.

Em entrevista à rádio FranceInfo, Francis Kalifat, presidente do Conselho Representativo de Instituições Judaicas na França (CRIF), deu sua visão sobre o momento atual:

"Infelizmente, o antissemitismo no nosso país é proteiforme. Sabemos há muito tempo que temos um forte antissemitismo da extrema direita tradicional, que também temos um antissemitismo muito forte da extrema esquerda e, ainda, um antissemitismo de origem islamo-esquerdista que foi expresso ontem. (...) Esse movimento de coletes amarelos, que inicialmente tinha uma legitimidade social que todos entendem, que todos aceitaram, é hoje um movimento que se radicalizou, que foi infiltrado por movimentos de extrema direita e extrema esquerda, que aproveitam essas manifestações para expressar seu ódio aos judeus, mas não só isso, porque eles também expressam o ódio da República, ódio dos valores republicanos, e eu acho tudo muito perigoso. Estamos hoje em uma sociedade que é completamente desafiada por minorias extremistas que devem ser combatidas e condenadas".

Movimento completa três meses com novas manifestações

O movimento dos coletes amarelos completa hoje exatamente três meses e tem passeatas previstas em Paris, entre o Arco do Triunfo e o Campo de Marte, onde fica a Torre Eiffel, além de um protesto na praça da República.

Esta semana, várias pesquisas revelaram que pela primeira vez, desde 17 de novembro do ano passado, a maioria dos franceses (52% a 56%, dependendo da sondagem) querem que o movimento acabe. Os entrevistados justificam esse posicionamento pela violência registrada nas manifestações de coletes amarelos.

Ocorrências antissemitas em alta na França

Em 2018, o Ministério do Interior registrou um aumento de 74% dos atos contra judeus no país. Segundo Castaner, 541 ocorrências foram notificadas à polícia, contra 311 no ano anterior.

Nos últimos dias, três incidentes chocaram o país. Uma árvore plantada em memória de Ilan Halimi, um jovem judeu cruelmente torturado e assassinado por uma gangue que pensava que ele era rico, foi encontrada serrada numa cidade da periferia de Paris, dois dias antes de uma cerimônia para comemorar o 13º aniversário de sua morte.

Em outro ato de vandalismo, uma cruz nazista foi pintada sobre ilustrações da ex-ministra francesa Simone Veil, sobrevivente dos campos de concentração. Figura mítica na França e defensora dos direitos das mulheres, Veil está sepultada no Panteão de Paris. No sábado passado, o restaurante Bagelstein, localizado na ilha de Saint-Louis, no coração da capital francesa, foi pichado com a inscrição "Juden" ("judeus" em alemão) escrita em letras amarelas, a cor da estrela que os judeus foram forçados a usar durante a ocupação nazista.

Diante desses incidentes intoleráveis, 14 partidos políticos franceses convocaram para a próxima terça-feira (19) um grande ato em Paris contra o antissemitismo.

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