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França

Repressão policial na França levou manifestantes a coma, cegueira e amputação

media Policial francês com arma de disparo de balas de borracha durante manifestação de "coletes amarelos" em Paris, França, em 5 de janeiro de 2019. REUTERS/Gonzalo Fuentes

A banalização do uso de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo pela polícia francesa para reprimir os protestos dos “coletes amarelos” já causou uma legião de feridos graves desde o início das manifestações, em novembro. A repressão policial levou manifestantes a ficarem cegos, terem a mandíbula dilacerada, perderem uma mão ou um pé e até entrar em coma. Especialistas denunciam um aumento da violência policial nos últimos anos, em uma quebra da tradição francesa de privilegiar a negociação com os manifestantes.

Pelo menos 1,7 mil pessoas ficaram feridas desde o início das manifestações dos “coletes amarelos” na França, conforme o Ministério do Interior. Os números sobre os feridos graves divergem, mas diferentes levantamentos feitos por organizações e pela imprensa francesa indicam que pelo menos 40 dos feridos graves foram atingidos por tiros de balas de borracha.

A ferramenta costumava ser usada apenas em situações excepcionais, mas se tornou a norma para conter protestos violentos. Jornalistas atingidos em meio à cobertura chegaram a registrar uma queixa conjunta contra a polícia, em dezembro. Desde o início dos confrontos entre policiais e manifestantes, os feridos exibem-se nas redes sociais para denunciar os abusos.

França: Manifestantes denunciam uso da arma "flash-ball" durante os protestos dos Coletes amarelos Captura de vídeo

Na terça-feira (15), uma nota interna do diretor da polícia nacional relembrou as regras de uso aos policiais – como visar o tronco e os membros, e apenar a longas distâncias. A medida foi vista como uma tentativa de amenizar a repercussão negativa de uma declaração feita na véspera pelo ministro do Interior, Christophe Castaner, que afirmou que “nunca são os policiais” que iniciam os ataques.

Balas de borracha: uma exceção na Europa

O pesquisador do Centro de Pesquisas Sociológicas sobre o Direito e as Instituições Penais Christian Mouanna, especialista em relações entre o público e a polícia e gestão da segurança, afirma que a utilização das balas de borracha é rara na Europa e, nos últimos anos, a França se tornou um dos países que mais recorrem a essa alternativa. Na Alemanha, na Suécia ou na Inglaterra, o objetivo é a “desescalada”.

“As balas de borracha são uma ferramenta para quando os policiais não estão a fim de dialogar, quando querem resolver logo o problema ou quando se sentem em uma posição de inferioridade”, observa Mouanna, em entrevista à RFI Brasil. “A tradição francesa sempre foi a de visar zero mortes e um mínimo de feridos possível. Estamos assistindo a uma deriva desse modelo.”

Uma explicação possível é que, no contexto atual, o diálogo entre o governo e os manifestantes é quase inexistente. A ruptura dificulta a escolha de uma linha de ação pela polícia durante os protestos, que sequer são autorizados previamente. A ausência de líderes claros entre os “coletes amarelos” é outro fator complicador.

Rigor semelhante aos tiros de arma de fogo

Mouanna explica que, ao contrário do que ocorre quando um tiro é disparado, o uso das balas de borracha não obriga o policial a ter de preencher um relatório ou sequer dar uma explicação. “Deveria haver um enquadramento tão forte quanto o de uso das armas pelos policiais. As balas de borracha estão sendo usadas rapidamente demais, e na direção de qualquer tipo de público, e não apenas dos vândalos que já foram identificados”, nota o especialista. Nesta semana, o Coletivo dos Professores Universitários contra as Violências Policiais assina um manifesto para pedir o fim dessa prática na França.

Mouanna ressalta que o dispositivo pode ser útil para baixar o grau de violência de uma polícia como a brasileira ou a americana, conhecidas pelos abusos na repressão de protestos. “Mas, na França, o que acontece é usarem demais as balas de borracha em um contexto em que a arma praticamente nunca era usada. Ou seja, houve um aumento da violência policial e marca um sintoma da degradação na gestão de manifestações na França”, sublinha o estudioso.

O pesquisador chama a atenção para o fato de que a violência policial costuma incitar à violência daqueles manifestantes que, a princípio, não eram inclinados a esse método de ação. A reação é comum em conflitos nas periferias, quando a escalada de violência sobe na medida em que a polícia reage com granadas ou tiros de borracha. “As pessoas, em geral, têm uma boa imagem da polícia. Elas ficam surpresas e muito chocadas por atuação policial violenta e, em resposta, podem acabar tentadas a aderir à violência. Quanto mais chocado você ficar, mais chances haverá de você não reagir pela razão e sim pelo sentimento.”

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