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"Bolsonaro teme que combate ao aquecimento global tire soberania brasileira da Amazônia", diz especialista

 
Floresta Nacional do Tapajos do outro lado plantação de soja © Beyond Fordlândia, 2017

A agenda ambiental não recebeu atenção, durante o período eleitoral, à altura de sua importância estratégica para o futuro do Brasil e mesmo do planeta. Diversas organizações da sociedade civil divulgaram manifestos criticando as propostas iniciais de Jair Bolsonaro e defendendo uma política mais clara para o meio ambiente. 

 

O medo é de uma flexibilização das fiscalizações, além dos riscos de projetos de mineração e lavouras em terras indígenas, bem como o aumento do desmatamento. A proposta de unificar sob uma mesma pasta os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente é vista com preocupação e um indício de que os recursos naturais possam ficar em segundo plano.

“Isso mostra uma certa mentalidade, uma pré-disposição para achar que meio ambiente não é tão primordial, que está travando o crescimento econômico”, explica o diretor do Columbia Global Centers Rio de Janeiro, Thomas Trebat.  

A confirmação da fusão das pastas foi feita por dois futuros ministros do novo governo, Onyx Lorenzoni e Paulo Guedes. Porém, dias antes do segundo turno, Jair Bolsonaro afirmava estar aberto a negociações.

O professor americano da Universidade de Columbia destaca ainda a eterna polêmica existente em relação à soberania nacional da Bacia Amazônica.

“Existe sempre, sobretudo entre as Forças Armadas brasileiras, essa ideia de que quando surge a preocupação global com o aquecimento, com a preservação das florestas tropicais, sempre tem existido um medo no Brasil, subjacente muitas vezes, submerso, mas sempre presente de que é um complô global para o mundo tomar conta da Amazônia e tirar do Brasil. Isso é um forte sentimento entre as Forças Armadas e Bolsonaro representa esse pensamento um pouco nacionalista, com medo de entidades globais tirarem a soberania do Brasil”, afirma Trebat.

Sair do Acordo de Paris

Ainda em campanha, Jair Bolsonaro também chegou a afirmar que retiraria o Brasil do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, argumentando que ele afetaria a soberania nacional. As declarações deixaram cientistas e ambientalistas apreensivos. Depois, o candidato, agora presidente, voltou atrás. Mas por razões que podem ser também comerciais, como explica Carlos Rittll, secretário-executivo do Observatório do Clima:

“Parte por reação, até mesmo do agronegócio. Quem vai para Bruxelas negociar acordos comerciais para vender nossas commodities no mercado europeu sabe que sustentabilidade está na mesa, que o acordo de Paris está na mesa, que são condicionantes para que o mercado aceite os nossos produtos”. 

A incerteza sobre os planos do novo governo em níveis regulatórios e mesmo judiciários coloca frente a frente os interesses de ambientalistas e do poderoso agronegócio brasileiro.

“Esse senso de responsabilidade, entender que meio ambiente precisa ser visto com os olhos do século XXI, e não com um olhar de cinquenta anos atrás, isso é fundamental. A gente espera, como dizemos aqui no Brasil, que a ficha caia muito rapidamente, porque não é só o meio ambiente que está em risco, mas é a própria imagem do país, a competitividade da nossa economia que corre perigo se a violência contra os povos indígenas aumentar, se o desmatamento aumentar e se o Brasil sair do lado daqueles que lutam contra o aquecimento global e virar um problema na mesa de negociação”, completa Rittll.

Em entrevista à Radio France Info, a presidente da ONG ambiental WWF da França, Isabelle Autissier, falou da preocupação internacional com os comentários do novo presidente do Brasil. 

“Ele já se exprimiu abertamente dizendo que a questão ambiental não lhe interessa e que se deve lutar contra as pessoas que defendem o meio ambiente, incluindo as comunidades locais na floresta, então eu penso que virão dias difíceis para os brasileiros, antes de tudo, porque é a sua riqueza. Hoje a Floresta Amazônica já foi devastada em 20%”, destaca a ambientalista. “É a maior floresta do mundo, a que capta mais carbono e que tem uma biodiversidade ainda hoje excepcional, e será um drama para a humanidade se a floresta Amazônica desaparecer, o que não está completamente excluído”, desabafa Autissier.

O diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França, François-Michel Le Tourneau, reforça os riscos de uma política equivocada em relação ao meio ambiente e que poderia ter consequências em diversas frentes.  

“O risco geral é de um retrocesso na área de meio ambiente, com um passo atrás em relação a diversas políticas, a de proteção da Amazônia obviamente, e talvez um afrouxamento do código florestal. Vamos ver o que vem pela frente. Muito provavelmente o primeiro alvo vão ser as unidades de conservação e as terras indígenas, onde o governo vai querer abrir as possibilidades de exploração de minérios e de diversos recursos”, preocupa-se.

“É capaz que, continuando a agredir o meio ambiente na Amazônia e no cerrado, haja um colapso do ecossistema Brasil de um modo geral e aí o problema é que todo mundo vai perder, não só a Amazônia, mas também todas as regiões produtoras e todo o agronegócio brasileiro”, explica Tourneau. “E tudo isso contribuindo para a mudança global do planeta Terra e para consequências que nem podemos imaginar agora”, finaliza.

 


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