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França

Coletivo de artistas franceses lança livro-manifesto para “descolonizar” as artes

media O coletivo de artistas franceses Descolonizar as Artes Reprodução Facebook

“Descolonizemos as artes”. Esse é o título do livro que será lançado nesta quarta-feira (26) em Paris, em um evento de mesmo nome, e também o lema de um coletivo militante composto por artistas que querem representar a realidade dos negros, dos magrebinos e dos asiáticos que vivem na França e trabalham na área cultural. O objetivo, segundo os organizadores, é “mudar o olhar ocidental” e “fornecer meios de produção” aos profissionais de origem estrangeira.

No clipe da música “Apes**t”, a dupla de cantores norte-americanos Beyoncé e Jay-Z aparecem no Louvre, em Paris, diante de obras como Mona Lisa, do pintor Leonardo da Vinci, ou Retrato de uma mulher negra, de Marie-Guillemine Benoist. A aparição dos dois no local levantou uma discussão sobre a presença e a representação dos corpos negros na arte e em instituições culturais de peso – uma iniciativa que lembra a do coletivo francês “Descolonizar as artes”.

“Quando falamos em descolonizar as artes, estamos falando de dois objetivos: o primeiro é questionar o meio artístico e cultural francês e chamar atenção para o fato de que há poucos artistas descendentes de imigrantes nos palcos dos teatros, dos espetáculos de dança, no cinema ou nas artes plásticas. É, portanto, uma questão de presença e de visibilidade”, diz Karima el Kharraze, filha de marroquinos, cenógrafa e uma das fundadoras do coletivo. “Em seguida, queremos interrogar o discurso dominante nos meios de criação artística para dar lugar a ‘pedaços’ da história francesa que não aparecem em lugar nenhum”.

“História não contada”

Os “fragmentos não contados” da história francesa, segundo Karima el Karraze, dizem respeito aos diversos cidadãos franceses que se veem mal ou pouco representados nas produções culturais, além de não terem acesso aos meios de criação para poderem dar suas próprias visões do assunto.

“São todos os fatos ligados à memória da escravidão e da imigração”, diz. “Isso envolve o teatro, a dança, mas também os museus, a maneira como as obras são expostas e contadas”. Para a cenógrafa, deixar de lembrar que diversos artefatos exibidos na Europa foram, na realidade, tirados de um povo específico dentro de um contexto colonial, faz parte da história “não contada” à qual ela se refere.

A cenógrafa Karima el Kharraze Arquivo pessoal

Na França, o museu do Quai Branly, dedicado especialmente a objetos vindos de culturas estrangeiras, é centro de um debate em torno da ética e da legitimidade da exposição de obras de uma forma que reforça o “olhar exótico” do Ocidente direcionado ao “outro estrangeiro”.

É uma forma de ‘estrangeirizar’, de ‘exotizar’ as pessoas de origem estrangeira. É sempre um olhar ocidental sobre esses indivíduos que os transforma apenas em ‘corpos’. No caso das pinturas, são sempre criações de artistas franceses que viajaram a outros países e falta uma melhor contextualização para ressaltar esse fato. Essas obras são apresentadas como se não houvesse nada demais, sem questionar o olhar ocidental segundo o qual elas foram feitas
Karima el Kharraze

“‘Negra’ não é minha profissão”

Para Eva Doumbia, também cenógrafa e autora de um dos capítulos do livro “Descolonizemos as artes”, a culpa não é do público, mas das instituições, que se fazem surdas aos protestos e às demandas dos artistas negros, magrebinos e asiáticos na França. “A partir de diversas discussões, nos demos conta de que era preciso e possível provocar uma tomada de consciência através desse debate. Queremos atingir o meio artístico em geral e também os espaços de poder”, afirma.

No Brasil, um exemplo recente foi a discussão nas redes sociais em torno da ausência de atores negros na novela da rede de televisão Globo “Segundo Sol”. Os internautas ficaram surpreendidos com o fato de que a história se passa na cidade de Salvador, uma das metrópoles com a maior população afrodescendente no Brasil, e contar essencialmente com um elenco branco. Em resposta, a emissora disse que prestava atenção nos comentários, mas nada foi feito para mudar a situação e a trama seguir seu rumo habitual.

Não é a arte o problema, a questão é que o esperado de um artista de origem estrangeira na França é que ele respeite a lógica do ‘exótico’ e do ‘estranho’ e que ele não se dirija à sociedade francesa como francês, como alguém que a conhece do interior e que vive nela. É preciso mudar o olhar, mas também democratizar os meios de produção de arte
Eva Doumbia

A discussão, é claro, não é recente na França: nesse ano mesmo, diversas atrizes negras desfilaram no tapete vermelho do Festival de Cannes, com seus cabelos crespos e peles escuras, para protestar contra os papéis estereotipados que recebiam na indústria do cinema francês e no teatro. Elas também lançaram um livro, entitulado “‘Negra’ não é minha profissão”, pontuando que tinham o direito de serem vistas como mulheres e encarnarem qualquer personagem, rico ou pobre, vilão ou protagonista, que não ficasse limitado à sua raça.

Debate é o primeiro passo para mudança de mentalidade

O debate está longe de acabar, como prova uma mensagem deixada por uma das pessoas convidadas para participar do evento de divulgação do livro no Facebook: “Sempre fui uma militante antirracista, desde que sou jovem, mas não irei. Não aguento mais esse tipo de vocabulário. ‘Racisé’? Mude sua linguagem e serei mais uma entre vocês”, afirmou a usuária Yael Bacry, indignada com o termo que, em tradução livre, seria algo como “racializado”, utilizado pela população não-branca da França para falar de sua experiência como “filhos e filhas da imigração”.

O intuito do livro, entretanto, é exatamente explicar de forma mais justa todas essas questões e mesmo conceitos como “racializado”, que podem soar estranhos. “Queremos deixar claro que, quando falamos em ‘racializado’, sabemos que a raça não existe, mas que grupos de indivíduos são objeto de uma ‘racialização’, de uma construção social ligada à uma definição histórica e evolutiva da ‘raça’. Os processos de ‘racialização’ ocorrem através de diferentes dispositivos – jurídicos, culturais, sociais e políticos – através dos quais certos grupos adquirem qualidades (os Brancos) ou estigmas (os ‘outros’)”, diz o livro, já em sua introdução.

Cartaz: "Racializado(a)s e invisíveis" Reprodução Facebook

É através do debate que Karima el Kharraze, com todos os outros artistas do coletivo “Descolonizar as artes”, pretende abrir a mente da sociedade francesa e do meio artístico. “Construímos esse livro como um manifesto. Três questões foram feitas a vários artistas e uma delas era, precisamente, quais ações poderíamos propor para que a situação mude”, diz a cenógrafa.

Uma das artistas convidadas é Amandine Gay, cineasta que roubou a cena em 2017 com o lançamento de seu documentário autoproduzido “Ouvrir la Voix” (“Abrir a voz”, em português). Nele, diversas mulheres negras – ricas, pobres, mestiças, transgênero – rasgam o verbo e denunciam o racismo latente da sociedade francesa, além de desconstruírem estereótipos ligados à raça no país.

Em sua própria proposta no livro, Karima el Kharraze afirma que seria preciso criar espetáculos e ateliers nos bairros periféricos, residência dos “racializados”, e para onde ela tem a impressão de ser “reconduzida” pela sociedade por ser de origem árabe. “Porque esses territórios perdidos da República constituem, na realidade, seu coração: as periferias são fruto de uma história colonial intrinsecamente ligada à Constituição”.

Em todo caso, para Karima el Kharraze, discutir esses temas é a primeira etapa para uma mudança e uma diminuição dos preconceitos. Pouco importa se o debate ocorre por causa de uma novela no Brasil, de um coletivo de atrizes negras em Cannes ou da encarnação de uma Mona Lisa afrodescendente na pele de Beyoncé.

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