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França cria loteria para salvar patrimônio histórico em situação de risco

França cria loteria para salvar patrimônio histórico em situação de risco
 
Governo francês cria loteria para salvar patrimônio histórico Fotomontagem RFI

O incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro comoveu a França, um país com forte tradição de preservação de seu patrimônio histórico e cultural. Além do investimento público na manutenção dos monumentos, crescem as iniciativas para diversificar as fontes de financiamento. O país acaba de lançar a Loto do Patrimônio.

O Ministério da Cultura francês, responsável pela gestão do patrimônio nacional, contou em 2018 com um orçamento excepcional de € 10 bilhões, pouco mais de R$ 47 bilhões, o maior valor já concedido à política cultural. As despesas diretas e os créditos repassados pelo Estado para a conservação do patrimônio totalizam até o momento cerca de 8,5 bilhões de reais, em torno de 18% do orçamento do ministério.

A França é conhecida em todo o mundo por seus museus, castelos e igrejas. O país tem 45.000 edifícios protegidos como monumentos históricos. Desse total, 15 mil são tombados. Metade destes monumentos têm dono, são propriedades privadas, e mais de quatro a cada dez construções pertencem aos municípios. Esse patrimônio alimenta o turismo, atrai milhares de visitantes e é uma fonte de riqueza para o país. Além disso, é um instrumento de influência, de soft power global.

O Estado banca a maior parte das despesas, mas diversificou as parcerias e fontes de receita nos últimos anos. No caso dos museus, por exemplo, os Emirados Árabes Unidos vão pagar quase R$ 5 bilhões à França, ao longo de 30 anos, pela abertura do Louvre de Abu Dhabi. O Centro Pompidou de arte contemporânia está com uma filial temporária de cinco anos em Málaga, na Espanha, e vai abrir uma filial fixa em Xangai (China), em 2019.

Os museus franceses alugam salas para filmagens e eventos variados. O Louvre, que foi cenário do clipe dos cantores americanos Beyoncé e Jay-Z, cobra tarifas que vão de R$ 70 mil a R$ 95 mil por dia de locação.

Nesta semana assistimos ao lançamento de mais uma iniciativa original: a Loto do Patrimônio.

Loteria do patrimônio

Por meio de jogos vendidos em lotéricas – do tipo Lotofácil e raspadinhas –, o Estado pretende arrecadar dinheiro para financiar a recuperação de 18 monumentos históricos, espalhados em todo o território nacional, considerados em situação de perigo. O projeto tem como padrinho o apresentador de TV Stéphane Bern, muito popular no país por seus programas que contam a história da França e de seus monumentos.

Bern aceitou no ano passado um convite do presidente Macron para pilotar o projeto “Missão Patrimônio”, que se materializou, agora, nessa loteria. O momento não é um acaso: setembro é o mês da Jornada do Patrimônio Cultural Europeu.

Jornada do Patrimônio

Neste fim de semana (15 e 16 de setembro), os principais monumentos franceses ficarão abertos para visitas gratuitas. Os franceses apreciam essa manifestação cultural, o primeiro grande evento depois das férias de verão. O sorteio da Loto do Patrimônio acontece na véspera.

O Ministério da Cultura e a Fundação do Patrimônio pretendem recolher de € 15 a € 20 milhões, ou seja, de R$ 70 a R$ 95 milhões, com a nova iniciativa. O sorteio da Loto do Patrimônio, que vai acontecer daqui para frente uma vez por ano, sempre nesse período, tem aposta mínima de € 3, cerca de R$ 14. O primeiro prêmio será de € 13 milhões, algo em torno de R$ 61 milhões.
Já a raspadinha do patrimônio tem preço salgado: uma cartela custa € 15, cerca de R$ 70. O apostador concorre a € 1,5 milhão em prêmios, cerca de R$ 7 milhões.

As autoridades acreditam na mobilização popular, já que os franceses valorizam seu patrimônio. Os 18 monumentos escolhidos para receber o primeiro lote de recursos foram apresentados em um programa na TV. O apresentador Stéphane Bern detalhou as obras necessárias, mostrou a importância dos edifícios selecionados para o patrimônio nacional e para as pessoas que moram naquela região.

Reconstrução do Museu Nacional

Macron chamou de “tragédia” o incêndio no Museu do Rio, ocorrido no dia 2 de setembro. Em um tuíte, ele declarou que "a história e a memória brasileiras foram reduzidas a cinzas" e prometeu ajuda de especialistas franceses na reconstrução do palácio. A ministra da Cultura, Françoise Nyssen, explicou em comunicado que ofereceu ao embaixador brasileiro na França "todo o conhecimento dos agentes do Ministério em aspectos de museografia, conservação e gestão de coleções e arquivos".

Macron vê a cultura como um meio de emancipação individual, um instrumento de coesão social e de dinamismo econômico para as regiões francesas.

O Ministério da Cultura irá lançar ainda no segundo semestre de 2018 o “Passaporte Cultura”, um aplicativo que dará aos jovens de 18 anos um crédito de € 500, cerca de R$ 2.300 reais, para serem gastos em atividades culturais, incluindo cursos de teatro e dança, além de ingressos para espetáculos. O aplicativo vai reunir ofertas próximas de onde os jovens vivem.

Paixão pelo patrimônio

A noção de conservação do patrimônio histórico se desenvolveu na França a partir da Revolução Francesa (1789-1799). Durante os dez anos de distúrbios que acabaram com a monarquia e instauraram o regime republicano, muitos monumentos foram vandalizados ou destruídos.

Diante da perda de obras de valor artístico inestimável, autoridades despertaram para a necessidade de preservar o que restava como fonte de informação sobre a formação da identidade dos franceses e da história do país. Essa preocupação foi enraizada. Hoje, a maioria dos franceses defende e admira no dia a dia as referências do passado.

O país até desenvolveu acampamentos de férias voltados para a conservação do patrimônio, onde crianças a partir de 8 anos de idade e adolescentes podem fazer cursos e participar como voluntários em canteiros de obras.


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