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"Tenho uma parte da história do Brasil nos meus arquivos", conta a fotógrafa Rosa Gauditano

 
A fotógrafa Rosa Gauditano fala sobre seu percurso. Rosa Gauditano/Studio R

Les Rencontres de Arles, no sul da França, é o ponto de encontro anual dos amantes da fotografia, que chegam de todos os cantos do mundo para ver grandes exposições, fazer contatos e trocar experiências. Como Rosa Gauditano, fotógrafa paulista radicada em Londres, que falou à RFI sobre a sua trajetória.

Ela participou no ano passado da grande exposição coletiva Latina!, sobre a fotografia latino-americana da década de 1960 até 2017, com fotos de prostitutas no final dos anos 1970 em São Paulo. Em setembro, suas fotos vão estar na 3ª Bienal de Fotografia de Pequim, que vai apresentar um pouco de seu extenso trabalho sobre os povos indígenas no Brasil.   

Indígena Yanomami, por Rosa Gauditano. Rosa Gauditano/Studio R

“Comecei em 1989, quando aconteceu o encontro de Altamira, sul do Pará, organizado por ONGs e vários povos indígenas, cujo foco era a construção da usina de Belo Monte. Os índios caiapós foram os grandes protagonistas dessa reunião, porque as terras deles iam ser invadidas, como acabaram sendo, pelas águas da usina. Fui pela revista de bordo da extinta Transbrasil e me dei conta de um mundo que eu não conhecia, como jornalista. Descobri que existiam 230 povos indígenas falando 180 línguas diferentes. E então eu quis fazer algo para mostrar toda essa diversidade. Desde então, em 24 anos de trabalho, foram quatro livros a respeito”.

Rituais dos Xavantes

Rosa Gauditano também construiu uma relação especial com os Xavantes, que ela fotografou em 1991, na aldeia de Pimentel Barbosa, para a revista Caminhos da Terra. A reportagem foi capa e cartaz nas bancas da cidade, fato importante para os indígenas, que sofriam muito preconceito da população local. A partir daí, Rosa foi convidada pelos anciãos da aldeia para fotografar os rituais do povo Xavante, por um período de 15 anos.

“Eles me ligavam do orelhão, me chamando para ir para a aldeia logo, porque um ritual estava prestes a acontecer”, conta a fotógrafa. “Eu fotografei o que eles achavam importante. É uma cultura muito complexa, incrível, com muita sabedoria sobre o que precisa ser passado para as futuras gerações”, acrescenta.

Pentax SP2

Voltando no tempo, Rosa conta que sonhava em ser fotógrafa, até que ganhou uma Pentax SP2 da mãe e foi para a rua, no final dos anos 1970. A primeira fotorreportagem foi sobre as prostitutas do centro de São Paulo. Depois, pautada pela revista Veja, foi retratar o mundo das lésbicas paulistanas, em lugares que entraram para história da cidade, como o Ferro’s Bar.

Da série "Lésbicas" (1976), de Rosa Gauditano. Rosa Gauditano/Studio R

“Meus temas eram assuntos que ninguém dava muita bola: pobres, crianças abandonadas, negros, Diretas Já”, relata a fotógrafa. “Tenho um pedaço da história do Brasil nos meus arquivos”, acrescenta.  

Movimento contra a carestia, 1978. Rosa Gauditano/Studio R

Em outro trabalho, "Festas de Fé", Rosa esquadrinhou o Brasil durante sete anos, registrando centenas de festividades populares e religiosas.

Rosa Gauditano percorreu o Brasil fotografando as festas populares. Rosa Gauditano/Studio R

Entre os próximos projetos, que começam a interessar curadores europeus, está o de mostrar esse material, grande parte inédito, que ela mesma vem redescobrindo, ao organizar seus arquivos.

Da série "Prostitutas" (1978), de Rosa Gauditano. Rosa Gauditano/Studio R

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