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França

Vinícolas francesas sofrem com falta de mão de obra

media Colheita da uvas em Gaillac, na região do Tarn Creative Commons CC0

Há alguns anos, os produtores de vinho na França vêm encontrando dificuldades para contratar pessoas que queiram trabalhar nas colheitas. Vários fatores contribuíram para a escassez da mão de obra e os viticultores precisam encontrar novas formas para atrair jovens profissionais.

“As coisas se complicaram há dois ou três anos”, explica Sophie Lauret, que trabalha para uma agência que contrata trabalhadores para o setor viticultor. Na região da Gironde, onde mais se emprega na área agrícola, das 2.150 vagas abertas para o período da vindima - período entre a colheita das uvas e o início da produção do vinho -, apenas mil foram ocupadas.

Para Bruno Meunier, consultor da Associação Nacional de Emprego e Formação na Agricultura (ANEFA), o período das colheitas sempre contou com a presença maciça de estudantes. “O problema é que com as várias reformas universitárias que ocorreram nos últimos anos, o período do fim das férias de verão foi se aproximando cada vez mais da época da colheita. Na minha época, voltávamos a estudar no início de outubro. Agora, muitas faculdades retomam as aulas na primeira semana de setembro, o que acaba coincidindo com o começo das colheitas. Com isso, muitos estudantes ficam de fora”, explica Meunier.

Experiência única

Para a psicóloga brasileira Fernanda Azevedo, que estudou na França, trabalhar nas colheitas é uma experiência única. “Talvez eu tenha tido sorte, mas para mim foi uma imersão cultural. O trabalho é cansativo, mas foi um mês que não esquecerei. Todas as noites, os donos da vinícola jantavam conosco. Havia um cozinheiro que sempre preparava especialidades típicas da região da Bourgogne. Tínhamos alojamento, e claro, no final do mês, lembro que consegui € 600, o que para um estudante era uma renda considerável”, conta a psicóloga.

Com menos estudantes disponíveis, o setor quer apostar em jovens já formados, que ainda não se inseriram no mercado de trabalho. Bruno Meunier conta que este ano, a ANEFA quer acelerar o processo seletivo: “Estamos planejando campanhas em diferentes vinhedos da região de Bordeaux onde, quem quiser, já sai contratado e começa a trabalhar dois dias depois. Antes, entre a entrevista com o candidato e o começo da colheita, se passava quase um mês e muitos acabavam desistindo”, afirma Meunier.

O aquecimento da economia francesa também afetou o setor agrícola. “Entre 2017 e 2018, a oferta de empregos cresceu 17% de uma maneira geral, em todos as áreas”, explica Gregory Cluzes, gerente do agencia nacional de empregos da região Aquitaine. Isso fez com não faltassem opções para os trabalhadores temporários.

Perda de benefícios

Valerie Girardin, dona de uma vinícola familiar que produz vinhos na região de Bourgogne há 12 gerações, afirma que nessa conjuntura, a perda de muitos benefícios antes oferecidos aos trabalhadores temporários, também fez baixar o interesse pela atividade. “Em nossa propriedade, colocamos alojamentos confortáveis à disposição, além de oferecer todas as refeições. Faz parte da tradição, todos sempre alojaram os trabalhadores, mas pouco a pouco, muitos vinhedos passaram a fechar os alojamentos que já não respeitavam as normas mínimas de segurança. Nós quisemos manter a tradição e reformamos nossa propriedade. Com isso, fora da época da colheita, o local se torna uma pousada”, explica Girardin.

Falta profissionais qualificados

Mas não há só o problema da mão de obra temporária. Está cada vez mais difícil encontrar profissionais qualificados no setor agrícola. Bruno Meunier diz que alguns viticultores estão se juntando para formar e compartilhar novos empregados. “São empresas que tentam encontrar novas soluções unindo forças para provocar mudanças localmente. A ideia é atrair jovens da região, que poderiam se interessar em trabalhar próximo de suas casas, e que tendo acesso a uma formação de qualidade, podem se tornar excelentes profissionais a longo prazo”, explica Meunier.

Para Valerie Girardin, os hábitos dos mais jovens tem dificultado essa tarefa. “ Os mais jovens têm trabalhado de forma mais ‘pingada’, ou seja, trabalham dois, três meses, depois se demitem. Dessa forma fica difícil encontrar pessoas que queiram trabalhar de forma contínua”, conclui Girardin.

Ainda assim, o Conselho Interprofissional do Vinho de Bordeaux (CIVB) quer conquistar a nova geração. Para isso, lançou até um jogo para smartphone, o “Château Academy”, onde o objetivo é administrar uma vinícola.

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