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Franceses com mais de 50 anos se preparam para envelhecer no trabalho

Franceses com mais de 50 anos se preparam para envelhecer no trabalho
 
Um homem segura um cartaz que diz "Vovô e vovó no trabalho e jovens desempregados, não, obrigado". Manifestação em Paris, contra a reforma do sistema da previdencia. 19/10/10 JACQUES DEMARTHON / AFP

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Estatísticas (Insee), mais de 61% dos franceses de 50-64 anos estavam empregados no ano passado, muito mais do que dez anos atrás (+8,2 pontos em relação a 2007). Esta situação é explicada pelas várias reformas que prolongaram a idade da aposentadoria. Um trabalhador francês entra para a categoria "sênior" a partir de 45 anos, e o pior é que o trabalho tem ficado cada vez mais precário.

Dos franceses de 60 a 64 anos que trabalham, mais de 30% têm empregos de meio período e mal-remunerados. Muitos fazem esta opção por problemas de saúde. A precarização é uma tendência global no mercado de trabalho, independentemente da idade, segundo o instituto de estatísticas.

As mulheres são as mais prejudicadas em relação à renda e às dificuldades de encontrar um trabalho depois dos 50 anos. Os estudos mostram que a situação dos seniores, homens e mulheres, piorou depois da crise financeira de 2008.

Francis Duma trabalha desde os 14 anos, mas por motivos financeiros deixou a aposentadoria e recomeçou a trabalhar. Reprodução daily motion

Necessidade financeira

As motivações desses aposentados ativos são basicamente financeiras, para arredondar o final do mês, em 93% dos casos. Um milhão de pensionistas vivem hoje abaixo da linha da pobreza, isto é, com uma pensão inferior a € 1.008 por mês, cerca de R$ 4.500. Pode parecer muito dinheiro na moeda brasileira, mas é pouco para quem mora, por exemplo, na região parisiense. Esse valor é a média de alguel de um pequeno apartamento de 25 a 30 metros quadrados em Paris.

A idade mínima de aposentadoria na França é atualmente de 62 anos. Mas o salário da pessoa cai em média à metade quando deixa a vida ativa. Por ter um mercado de trabalho mais rigído, com um número limitado de vagas para os jovens, muitas empresas adquiriram o hábito de estimular a pré-aposentadoria dos seniores, a partir de 50 ou 55 anos, a fim de abrir espaço para os jovens.

Quem embarcou nessa ideia, atraído por um plano de demissão voluntária, por exemplo, acabou se prejudicando pelo aumento da longevidade, a alta do custo de vida e a estagnação no valor das pensões. São esses aposentados com pensões baixas que buscam hoje um trabalho em paralelo à aposentadoria.

Legislação muda com frequência

Até o ano passado, a lei não deixava a pessoa acumular trabalho e aposentadoria. Houve uma flexibilização, mas, mesmo assim, quem acha um novo trabalho tem a pensão reduzida. É um paradoxo. O ganho com a acumulação de trabalho mais aposentadoria permanece limitado por um teto, para homens e mulheres. Em 20 anos, a França teve quatro reformas previdenciárias. O presidente Emmanuel Macron vai apresentar uma nova proposta nos próximos meses prevendo mudanças no sistema de cálculo e provável extensão da idade mínima de 62 para 63 anos.

Trabalho doméstico tem oferta para aposentado

De acordo com os sites especializados, o maior número de ofertas é de trabalho doméstico: motorista para outros idosos ou crianças, jardinagem, limpeza, cuidar de animais ou transporte escolar. Algumas pequenas empresas procuram idosos para fazer contabilidade ou secretariado, mas apenas um ou dois dias por semana, o tal do trabalho precário.

A classe média, que tem apartamento ou casa própria, dá um jeitinho de aumentar a renda às vezes alugando quartos para estudantes ou empregados estrangeiros sazonais sem declarar à Receita. É muito comum. Mulheres separadas, que os filhos saíram de casa, e não recebem mais pensão dos maridos, e ganham um salário ou aposentadoria inferior ao dos homens, também fazem isso: alugam quartos para estudantes. É muito comum em Paris; é a chamada solidariedade entre gerações.

Comunidade de idosos é tendência

A mais famosa república ou comunidade de velhinhos francesa se chama Margarida e ganhou muitas reportagens na TV. A casa fica bem no meio do território, no massivo central, em uma área chamada Haute-Loire, e foi fundada há um ano e meio. Seis idosos dividem uma casa - o mais novo, Gilbert Casteras, tem 83 anos e é o DJ oficial da turma. Ele organiza festas dançantes.

Eles poderiam ter escolhido o lar de idosos do outro lado da rua, a € 2.200 por mês em média (R$ 9.000), com profissionais 24 horas. Mas optaram pela privacidade o mais tempo possível: cada um tem seu quarto, com banheiro, geladeira e telefone por € 1.500 (R$ 6.775) por mês, um preço que pode até cair com os benefícios do programa social de moradia do governo.

Quem garante a qualidade de vida dos idosos é uma governanta, Marie-Hélène Huard, presente na casa das 9h às 14h, depois das 18h às 20h. Ela cozinha e completa a limpeza. Os seis idosos, com idades de até 92 anos, são autônomos. Dizem que brigam de vez em quando, mas se aguentam em nome da liberdade.

Já existem sites franceses especializados para os seniores ou idosos interessados nesse estilo de vida, de passar a velhice juntos, mesmo sem ter laços familiares. É como site de paquera, a pessoa faz um perfil, fala sobre seus hábitos, as manias, as preferências culturais e troca mensagens até achar a comunidade ideal.


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